"Vestido de amor" (2022). Capa. Reprodução
"Vestido de amor" (2022). Capa. Reprodução

A herança ancestral africana está presente desde sempre na obra de Chico César. Quando o paraibano estreou em disco, com “Aos Vivos” (Velas, 1995), já estavam no repertório os hits absolutos “Mama África” e “À Primeira Vista” – a primeira desde o título; a segunda nas citações ao americano Prince (1958-2016) e ao malinês Salif Keita.

“Desde que eu fiz “À primeira vista”, o próprio Salif ficou interessado em saber quem era esse brasileiro que estava surgindo agora e que trazia o nome dele, citava o nome dele dentro de uma música ao lado de Prince. Ele foi ver meus shows muitas vezes no New Morning, que é uma casa de jazz e também de world music em Paris, ia sempre ao camarim nos intervalos, depois nos encontramos aqui em São Paulo, dividimos um show no Palace, e agora, mais recentemente nos encontramos para gravar. Quando nos encontramos falamos de música, ele me pergunta como está o Brasil, eu pergunto como está o Mali, ou seja, falamos de política, de geopolítica, de colonialismo, de imperialismo, da necessidade de fazer uma música como a nossa, o que já é político, de um modo fora de uma coisa eurocêntrica, que passa por ali, mas traz os assuntos dos lugares de onde a gente vem, traz a nossa crítica à construção colonial do capitalismo”, comenta Chico César em entrevista exclusiva ao FAROFAFÁ.

No ano seguinte ao lançamento do disco de estreia, a regravação de “À Primeira Vista” pela baiana Daniela Mercury, e a inclusão da faixa na trilha sonora da novela global “O Rei do Gado” (1996) chamaram as atenções para Chico César, compositor que logo passou a fornecer obras-primas para os repertórios de Elba Ramalho e Maria Bethânia, entre outras. O encontro com Salif Keita a que ele se refere aconteceu para a gravação de “SobreHumano”, parceria cantada por eles em dueto em “Vestido de Amor” (2022), álbum mais recente do brasileiro.

“Para mim é uma aula, é uma lição, como Salif faz essa equação, entre uma origem nitidamente rural, de aldeia, para um som tão potente do ponto de vista do pop, do ambiente das metrópoles, porque ele fez vários processos de migração, de sair da aldeia para a capital, trabalhou com bandas de baile, bandas de festa, e acho que isso já começou a moldar a personalidade que vem a se tornar Salif Keita. Penso que essa ponte que ele faz, e que outros africanos também fazem, entre a tradição e a contemporaneidade, a modernidade, o acústico e o elétrico, o eletrônico até, nos ensina muito. Acho que é uma bela escola para que nós brasileiros possamos aprender também”, comenta Chico César, jornalista de formação, que também deixou a terra natal para viver em São Paulo, onde passou por redações até conseguir dedicar-se integralmente aos palcos e estúdios.

Muitos anos se passaram e muita coisa aconteceu entre “À Primeira Vista” e “SobreHumano”, faixa cantada em português e lingala – idioma banto falado no Congo e arredores do rio homônimo – que acaba de ganhar videoclipe, dirigido pelo francês Florent de La Tullaye. Na faixa, Chico César e Salif Keita são acompanhados por uma banda formada pelo guineense Sekou Kouyaté (corá), os brasileiros Zé Luis Nascimento (percussão) e Natalino Neto (baixo) e os franceses Jean-Baptiste Soulard (guitarra) e Albin de la Simone (teclados e escaleta).

“Quando eu escrevi esses versos [de “À Primeira Vista”] eu já conhecia a sua música, seus primeiros discos, a potência da sua música falar para o mundo como afrodiaspórico, e já era bastante influenciado por ele no sentido de que quando montei a minha primeira banda com teclado, guitarra, bateria, baixo, eu montei porque escutei esses instrumentos na música dele e senti que era possível, vindo de um lugar pequeno, de uma aldeia, de um ambiente rural, fazer um som potente e cosmopolita”, continua Chico César.

O paraibano lembra do impacto de Salif Keita sobre sua própria obra e trajetória e agradece. “No final ainda dos anos 1980 para começo dos anos 90 eu estava em Barcelona depois de um concerto ao ar livre de [a cantora lírica catalã] Montserrat Caballé (1933-2018), e depois desse concerto fui com um amigo, que estava trabalhando como iluminador nesse concerto, e fomos à região de Arnedo, na La Rioja, na Espanha, atravessando a noite, ele dirigindo e eu ali ao lado, e foi a primeira vez que eu escutei Salif Keita foi nessa noite, nessa madrugada. E eu fiquei muito impressionado com a voz, eu não conhecia nada, era uma voz tão impactante quanto a voz de Milton Nascimento para mim. E eu quis saber o que era aquilo. Aí ele falou que era um homem nascido numa aldeia no Mali, que tinha nascido albino, num local onde normalmente só nascem pessoas pretas, que correu o sério risco de ser largado, jogado no rio ou num formigueiro pelo povo de sua aldeia, porque podia fazer uma maldição, mas foi salvo pelas mulheres da aldeia, porque também podia ser algo muito especial. E era muito especial. E eu fiquei encantado com a força da música de Salif Keita, porque ao mesmo tempo que trazia aquele canto ancestral de aldeia, do lugar de onde ele vinha, do interior do Mali, trazia algo pop, metropolitano, algo que poderia ser cantado em São Paulo, Nova York, Londres, era tão pop quanto The Police, quanto Prince, pra mim. Tanto que depois, quando eu compus “À Primeira Vista”, eu digo “quando ouvi Prince, dancei/ quando ouvi Salif Keita, dancei”. Antes de eu escutar essa fita k7 de Salif Keita, eu tocava basicamente meu violão sentado, eu sentado num banco, acompanhado por percussão, algo mais intimista. Mas a música dele me fez ver que a música que eu trago também da minha pequena aldeia, da minha zona rural, do Sítio Rancho do Povo, de Catolé do Rocha, ela também poderia ter aquela potência, poderia soar como The Police, como Prince, como Michael Jackson (1958-2009), como Peter Gabriel, e que do mesmo jeito que Peter Gabriel podia se apropriar das nossas matrizes, das nossas informações, nós poderíamos nos apropriar do approach inglês, do approach londrino, nova-iorquino e nos apoderarmos daqueles instrumentos também, dos teclados, baterias, guitarras, pedais e fazer nosso som soar grande, positivo, como os negros americanos já haviam feito, James Brown (1933-2006), mas como os africanos estavam fazendo, e que eu ainda vivia num certo ambiente – eu, não a música brasileira –, assim, meio do cantautor, daquele que se apresenta apenas ali, se acompanhando ao seu instrumento. Quando ouvi Salif Keita isso me fez, foi quase como se Jesus tivesse dito para Lázaro “levanta-te e anda”. E aí eu me levantei, passei a tocar em pé e me senti disposto a andar mesmo pelo mundo com a minha música. Obrigado, Salif Keita! Merci beacoup!”, finaliza.

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Assista ao videoclipe de “SobreHumano”:

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