O sanfoneiro Flávio José Foto: Marco Antônio/Secom Maceió

O deputado federal Fernando Rodolfo, do PL de Pernambuco, apresentou ao Congresso Nacional na última quarta-feira, 14, um projeto de lei que estabelece que o percentual mínimo dos recursos públicos utilizados nas festividades do São João em todo o território nacional seja destinado a artistas da expressão musical forró. Os outros 20% serão para “atrações de qualquer gênero musical, com o intuito de promover a diversidade cultural e artística das festividades do São João”, diz o texto.

O projeto de lei de Rodolfo vem na esteira de um episódio marcante envolvendo um dos expoentes do forró nordestino, o sanfoneiro, cantor e compositor Flávio José, de 71 anos, que protestou no dia 2 de junho após ter seu show encurtado de forma arbitrária no São João de Campina Grande, na Paraíba, que tem a fama de ser um dos maiores do País. O show de Flávio José teria sido encurtado para que se encaixasse o megaespetáculo do sertanejo Gusttavo Lima, destaque desse gênero onívoro que estaria soterrando os ritmos regionais. “‘Precisa cantar 1h30 não, uma hora tá bom’. Vamos nos virar nos 30 para ver se a gente atende vocês”, reclamou o sanfoneiro ao público. “Infelizmente, são essas coisas que os artistas da música nordestina sofrem”, disse.

O monopólio de gêneros alheios ao escopo das festas juninas também veio acompanhado de uma safra de supercachês, muitos deles superfaturados por prefeitos menos ciosos dos cofres públicos. Em nota de desculpas pelo acontecido, a Prefeitura de Campina Grande (PB) afirmou que a “gestão respeita todos os artistas e quer fazer um evento que valorize a cultura e a tradição de 40 anos do Maior São João do Mundo”. “Nomes que nos orgulham, como Flávio José, Alcymar Monteiro, Chico César, Capilé, Biliu de Campina e tantos outros. Infelizmente, não conseguimos controlar a ordem dos shows, responsabilidade da empresa que venceu a licitação e realiza a festa. Mas estamos atentos e cobrando para que nossos artistas sejam respeitados e possam engrandecer o São João de Campina Grande”. Em sua defesa, a empresa Arte Produções, que realiza o São João de Campina, informou se tratar de um erro do cronograma técnico e também pediu desculpas a José, isentando Gusttavo Lima de responsabilidade.

O projeto de lei do deputado também estabelece que o ente responsável pela destinação dos recursos públicos para as festividades do São João deverá realizar chamamentos públicos para a seleção dos artistas, “que serão pautados por critérios técnicos e artísticos que garantam a transparência, a participação da comunidade, a representatividade regional e a valorização dos artistas locais”. Os recursos públicos não destinados à contratação de artistas deverão ser utilizados para financiar despesas relacionadas à infraestrutura dos eventos, organização de concursos de quadrilhas, divulgação, capacitação de profissionais e demais ações que contribuam para a qualidade e o sucesso do evento.

Curioso que foi justamente no período de governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, correligionário do deputado Rodolfo, que foi denunciado o esquema de supercachês para shows de artistas sertanejos em prefeituras bolsonaristas do País todo. Parece meio extemporâneo e sem critério o projeto do deputado bolsonarista, já que nos últimos quatro anos, mesmo com um sanfoneiro de forró à frente da área cultural, o ex-ministro do Turismo Gilson Machado, o governo não foi capaz de propor nenhum tipo de estímulo ao gênero e ao setor de festas. O protesto de Flávio José, no entanto, repercutiu e ainda repercute muito. Nascido em 1951 em Monteiro, no cariri paraibano, Flávio começou a tocar o acordeão aos sete anos. Aos dez, já tocava uma sanfona de 24 baixos em público e se especializou no chamado forró pé de serra. Influenciado por Luiz Gonzaga e Dominguinhos, tornou-se um dos grandes intérpretes de forró, no Brasil, e já gravou 8 LPs e 16 CDs.

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