O cantor e compositor Moreno Veloso - foto: Caroline Bittencourt/ divulgação
O cantor e compositor Moreno Veloso - foto: Caroline Bittencourt/ divulgação

O precoce Moreno Veloso despontou cedo para a música: aos nove anos, em 1982, assinava “Um Canto de Afoxé Para o Bloco do Ilê”, parceria com o pai, Caetano Veloso, faixa de Cores, Nomes – sua voz é ouvida na gravação, homenagem ao Ilê Aiyê.

Além de sua própria voz e a do pai, composições de Moreno Veloso já ganharam interpretações de Adriana Calcanhotto, Dona Edith do Prato (1916-2009), Gal Costa (1945-2022), Gilberto Gil, Lucas Santtana, Roberta Sá e Thaís Gulin, entre outros.

"Mundo Paralelo" - capa/ reprodução
“Mundo Paralelo” – capa/ reprodução

Moreno Veloso acaba de lançar Mundo Paralelo, seu novo álbum, cercado dessa teia familiar e de amizades, que começa com outra homenagem ao “mais belo dos belos”, na faixa-título, parceria com Carlos Rennó e Tiganá Santana, que participa da faixa, que evoca “a beleza negra/ a cultura negra”.

“Eu me transporto a um mundo paralelo/ aquilo ali é um elo/ com o transcendental”, continua a letra, falando sobre o bloco, o carnaval e qualquer sentimento de alegria – o álbum começou a ser concebido em meio às incertezas da pandemia de covid-19 e foi gravado entre Lisboa e o Rio de Janeiro.

Ninguém é filho de Caetano Veloso (e Dedé Gadelha, a quem o álbum é dedicado) e sobrinho de Maria Bethânia impunemente. Moreno Veloso não esconde a admiração recíproca pelos parentes. E o samba de roda “A Donzela Se Casou”, um dos pontos altos do disco, amplia a experiência de Ofertório (2018), álbum gravado ao vivo por Moreno com o pai e os irmãos Zeca e Tom Veloso – todos eles, mais a tia Bethânia, comparecem à faixa, que tem uma história bonita, contada pelo próprio autor, no material de divulgação distribuído à imprensa.

“Esse samba de roda nasceu espontaneamente durante uma passagem de som do show Ofertório enquanto eu e meu irmão Tom tocávamos distraídos “How Beautiful Could A Being Be” e me veio à cabeça uma história que ouvi no Recôncavo Baiano sobre como dançar o samba miudinho arrastando e batendo os pés ritmicamente servia para alisar o chão de terra de uma casa nova que estivesse sendo construída, de forma que se organizava um samba especificamente para isso, onde a festa ajudava na construção. A imagem da dança ajudando os noivos recém-casados a levantarem uma casa surgiu pronta com versos, melodia e tudo ali no palco no meio da passagem de som. Convidei minha família de origem santamarense para participar da gravação me ajudando metaforicamente a construir essa nova casa, consolidando a base desse Mundo Paralelo. Podemos então ouvir as vozes de minha tia Bethânia, de meu pai Caetano e de meus irmãos Zeca e Tom se alternando sobre o ritmo do samba de roda. A base conta comigo no prato e faca, com meu irmão Tom no violão como no dia da composição, com o também santamarense e amigo Paulo Mutti nas guitarras e mais Alberto Continentino no baixo, a percussão de Kainã do Jêje e o solo de sax tenor do Thiago Queiroz. Esta gravação acabou sendo uma das mais especiais para mim por muitos motivos, mas principalmente pela força que é juntar, sobre um ritmo popular característico do Recôncavo, a minha voz às vozes de minha família que tanto admiro”, lembra.

Também comparecem ao álbum Marcelo Costa (percussões), Nina Becker (voz em “Um Dois e Já”), Ricardo Dias Gomes (baixo e sintetizador), Pedro Sá (guitarras), Rodrigo Bartolo (guitarras), Jaques Morelenbaum (violoncelo em “Unga Dorme Nesse Frio”), Luís Filipe de Lima (violões de seis e sete cordas em “É de Hoje”), Felipe Fernandes (baixo, guitarras e lapsteel em “Ninguém Viu”) e Alexandre Kassin (sintetizadores em “Deixe Estar”).

Moreno reverencia as raízes, mas também os frutos: cantada em espanhol, “Bailando” (do compositor italiano Piero Piccioni [1921-2004], cujo título original é “Mexican Dream”), com versão dele e Bruno di Lullo (que pilota um Roland Juno-106 na faixa), é uma homenagem a seus filhos: cada parceiro tem um casal – a música foi composta em um dia dos pais em um aeroporto alemão. Outra homenagem ao filho José é “Unga Dorme Nesse Frio”, canção de ninar que traz no título a palavra unga, da raiz nórdica ung, que significa jovem e é uma das formas por que o compositor chama o homenageado.

Os ares sambistas voltam a aparecer nas inspiradas “Vista da Janela” (Quito Ribeiro e Moreno Veloso) e “É de Hoje” (Luís Filipe de Lima e Moreno Veloso), outra com os dois pés no Recôncavo.

Produzido pelo próprio Moreno Veloso, Mundo Paralelo se encerra com a única faixa não-autoral, entre as 10 de seu inspirado repertório. Trata-se de “Deixe Estar”, em que reafirma seu amor por Antonio Cicero e Marina Lima, “muito grande e contínuo”, como declarou em 2020 ao lançar o single “Fullgás”, em que relia uma das mais conhecidas parcerias dos irmãos.

Com equilíbrio entre boas doses de vibração e melancolia, Moreno Veloso vem construindo uma obra sólida e consistente. O físico de formação, que (também) toca prato e faca, é muito mais que isso e muito mais que filho de quem é.

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Ouça Mundo Paralelo:

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