E um belo dia me comunicaram que eu precisaria comparecer ao 3º Distrito Policial de São Paulo, nos Campos Elísios, para prestar depoimento. Seria minha primeira vez, e lá fui eu numa manhã chuvosa de maio, acompanhado pelo amigo Luiz Calanca, dono da loja de discos, sebo e selo musical Baratos Afins – e razão de ser da intimação.
Tudo partiu de um registro de ocorrência lavrado pelo Calanca quando deu pela falta de uma quantidade estimada em 2.000 álbuns, entre LPs e CDs, do depósito de estoque localizado no mesmo local da loja, nas imponentes e históricas Grandes Galerias, no centrão de São Paulo. Não bastasse o incêndio que tinha acontecido no mesmo depósito e que deixou muitos discos molhados na extinção do fogo, agora Luiz percebeu, para seu máximo desgosto, uma quantidade expressiva de buracos vazios nas prateleiras sempre lotadas de discos. Deve ter acontecido pouco antes, durante ou depois do carnaval de 2026, calcula Calanca.
Mas o que eu tinha a ver com isso?

Conheço Luiz Calanca há trinta e tantos anos, e o conheço bem antes de ele me conhecer. Ainda morando no interior do Paraná, na virada dos anos 1980 para os 1990, tomei coragem (eram outros tempos) para encomendar uma coleção de vinis dos Mutantes, que a Baratos Afins tinha relançado e que eram radicalmente intangíveis para mim na época. Esperei ansiosamente a encomenda (na minha lembrança, foram semanas e semanas de ansiedade), que chegou bela, linda e maravilhosa aos meus braços e ouvidos.
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QUERO APOIARNão muito tempo depois me mudei para São Paulo e, óbvio, virei frequentador assíduo não só da Baratos Afins, mas de todas as lojas de discos da chamada Galeria do Rock e das galerias vizinhas. Primeiro fui comprador anônimo, depois virei jornalista musical (sim, o Calanca tem uma dose de responsabilidade por essa patifaria) ávido em raridades, novidades etc. Em certo momento que não sei qual foi, acabei ficando amigo do figuraça, um cara único e uma amizade que dura até hoje e só me dá alegrias.
Mas então por que diabos o Calanca e a Baratos Afins me fizeram ir parar na delegacia? Parece história de série policial.
Acontece que em anos recentes andei vendendo um bom número de LPs e CDs para aquele mesmo cara que tinha me vendido meus primeiros e amados LPs dos Mutantes (entre inúmeros outros no decorrer dos anos e décadas, de Velvet Underground e Love a Jards Macalé e, claro, Rita Lee).
Pois olhe que maluquice. Luiz tinha razões concretas para suspeitar de um determinado integrante do corpo de seguranças das Grandes Galerias. Tentou comover o síndico (há mais tempo no poder do que eu em São Paulo, diga-se) e tal e coisa, sem conseguir qualquer êxito ou providência. A polícia fez perícia, aquelas coisas, e o caso veio se arrastando pela barriga.
Eis que certo outro dia Luiz Calanca pega o elevador e dá de cara com o segurança de suas suspeitas, que carregava debaixo do braço uma caixa de papelão cheia de CDs. Estranhou, mas nada disse. Ficou de butuca acompanhando os movimentos do segurança e viu que ele entrava em outra loja da mesma Galeria do Rock, de onde saiu algum tempo depois de mãos abanando.
Luiz deixou a poeira baixar e dirigiu-se ao lojista vizinho para sondar o que tinha acontecido. Soube que fulano tinha vendido 35 CDs para o lojista, que Calanca pediu para examinar. E, bingo!, lá estavam entre os CDs comprados alguns que um dia haviam pertencido a mim.
Mas como é que o Luiz sabia que os tais CDs (de Funkadelic, Ray Charles, Bob Dylan, Legião Urbana e outros) vinham diretamente da minha ex-coleção, com escala no estoque da Baratos Afins?
Aí entra minha maluquice particular, que, quem diria?, ajudaria um dia a elucidar um crime. Acontece que desde minha adolescência (talvez desde minha infância, não sei bem) cultivei o hábito de anotar, no cantinho inferior direito das contracapas de LPs e CDs, o ano original de lançamento de cada título.
Por exemplo, aquele CD de The Times They Are A-Changin’ (1964) do Bob pode ter sido adquirido por mim em qualquer tempo da história dos CDs, mas pode crer que no cantinho de sua contracapa interna estava escrito, em caneta Bic preta, o número-ano 64.
Vai daí que fui convocado a explicar ao seu delegado que o CD do Dylan, entre outros, pertenceu a mim um dia, foi transferido para a Baratos Afins e por um caminho não sabemos bem qual foi parar nas mãos do lojista vizinho. Até levei de casa dois exemplares de Gilberto Gil, com as ditas marquinhas, caso a polícia se interessasse por conferir (interessou, mas não muito).
Luiz foi comigo ao 3º DP, acho que para aplacar minha tensão, mas também para levar a caixa de CDs que o colega de galeria deixou em suas mãos como possível prova de um possível crime.
Depois de um tempo de espera tagarelando com o velho amigo, fui chamado à sala do sr. escrivão. Luiz até tentou entrar junto, mas foi barrado, e o escrivão logo me explicou o motivo: tinha certeza de que íamos ficar conversando sem parar nas fuças dele.
De modo geral, o escrivão dava sinais de ser gente boa.
Luiz não ficou, mas deixou os CDs (que acabariam apreendidos pela polícia e confiados aos cuidados de Calanca, desde que não os vendesse). Pacientemente, o escrivão foi tirando um a um os CDs da caixa, tirando uma a uma as capas de plástico de cada CD, mostrando uma a uma para mim e especulando se podiam ou não ter sido meus.
Entre os 35 (de títulos que não consegui afixar na memória, vários deles de heavy metal), encontramos exatamente 11 CDs com minhas marquinhas maluquetes: o Dylan, um Ray Charles, um The Doors, um Depeche Mode, seis (antigamente) raríssimos Funkadelic.
O da Legião Urbana, em especial, causou algum desconforto. O escrivão fez um gesto de desaprovação, que atiçou minha curiosidade. “Não vou falar o que penso, porque eu seria cancelado”, limitou-se a indicar. “Espero que não seja porque o vocalista é gay, porque eu também sou”, consegui balbuciar, me preparando para o pior. O escrivão se recompôs, “imagina, que é isso, eu até tenho parentes que são” etc. e tal.
Segundo o policial, seu problema com a Legião era, ora vejam só, os “santacecilers”. Hein?
Nosso simpático meganha afirma ter um bode monumental daquele povo que gosta de Legião Urbana (suponho eu), leva a samambaia para passear e almoçar fora (não pude deixar de rir, incapaz de discordar nesse ponto) e não tira da cabeça o bonezinho vermelho do MST (ih, sujou!).
Não nos atrevemos a enveredar por papos políticos, tudo indica que não seria um bom caminho a seguir. Seguimos na superfície e na simpatia dele (e minha?).
Quase vou esquecendo de mencionar: volta e meia a delegada titular aparecia na sala do escrivão, para dar orientações e ouvir breves explicações do funcionário sobre o caso dos CDs e LPs roubados do Luiz da Baratos Afins. Era quando eu me sentia num filme de… policia e bandido. A sra. delegada, loira, vestida com esmero em roupas justas (mas não verdes-musgo da cabeça aos pés, como outra senhora que passou por ali a certa altura), era uma autêntica policial de filme ou série tipo Plantão de Polícia (sou antigo, do tempo em que Jorge Ben cantava o teletema do investigador Waldomiro Pena na Globo). Foi essa a delegada que fez a perícia na loja, me contou depois o Luiz.
Bem, o processo de examinar os 35 CDs durou séculos, e mal sabia eu que o pior estava por vir: nosso simpático mas controverso escrivão tinha de transcrever o meu depoimento, o que fez ao final do exame de corpo de delito (dos CDs), com grande animação e durante mais ou menos um milênio – ah, se eu tivesse o Luiz comigo para papear enquanto isso…
O documento pronto, que eu tinha que ler e aprovar (depois de lido em voz alta para mim), me trouxe várias surpresas. O escrivão escrevia bem, e eu não resisti a fazer a piada ruim de que, se cansasse de ser policial, ele podia virar jornalista (evidentemente, nosso detetive não entendeu a intenção da piada autodepreciativa sobre minha profissão).
Alguns trechos do meu depoimento me impressionaram particularmente. Escrivão escreveu, por exemplo, que Depoente “dedicou sua vida profissional e pessoal à música, atividade que descreve como uma de suas maiores paixões”. Que o depoente vendeu álbuns ao sr. Luiz Carlos Calanca, “que atua há longo tempo no comércio de álbuns musicais na Galeria do Rock, motivo pelo qual, em razão da confiança depositada e do respeito mútuo pela música, realizou a negociação”. E por aí vai.
O que me impressionou particularmente é que a maioria dessas palavras absolutamente não saiu da minha boca – mas poderia ter saído. Fiz minhas as palavras do escrivão sobre minhas palavras e assinei, sem hesitar.
A melhor parte da transcrição do depoimento, em minha modesta opinião, é aquela que retrata meu hábito-mania-TOC: “O declarante informa, ainda, que, por questões estritamente pessoais e por deliberação própria, possuía o hábito de realizar pequenas marcações nos cantos inferiores das contracapas de cada álbum, consistentes em anotações referentes ao ano de lançamento da respectiva obra musical. Esclarece que tal prática constituía método pessoal de catalogação e organização histórica de sua coleção”.
Mas que chique, “método pessoal de catalogação e organização histórica”, taí, não é que o cara compreendeu o espírito da minha coisa? Certamente não usei nenhuma dessas palavras para descrever minha piração, mas, novamente, assino embaixo, até com uma ponta de orgulho de catalogador e organizador histórico.
Minha velha mania (hoje aposentada, porque não compro mais discos) tinha sido convertida em poesia pela pena do escrivão! Mais surpreendente, tinha sido transformada em prova num inquérito de furto de… drogas (“eu sou apenas um traficante de drogas musicais”, costuma dizer sobre seu ofício o Luiz Calanca, que, assim como eu – !!! – é ex-farmacêutico). Nem no mais rocambolesco filme de detetive eu poderia imaginar uma cena dessas.
Bem, não sabemos o que a digníssima equipe policial vai fazer com os dados que está recolhendo, nem se o Luiz vai conseguir recuperar seus LPs e CDs. O investigador, no entanto, me pareceu ter formado plena convicção de que as tais “pequenas marcações” colocam a boca do larápio na botija. Quando é, minha gente, que um segurança candidato a larápio de CDs e vinis iria imaginar que pudesse haver impressões digitais tão particulares neles? Coisa de Agatha Christie.
[A propósito, nos mesmos dias do meu depoimento, Calanca recebeu uma proposta de adquirir um lote de vinis dos Beatles – os mesmos que ele próprio tinha no seu estoque, como atestam no vídeo a ele enviado as marcas da extinção do incêndio nas capas de alguns LPs. Até a última atualização, Luiz lutava para conseguir transmitir aos polícia a história e o vídeo de mais esse detalhe escabroso.]
Seja qual for o desfecho, temos em mãos um caso quase inacreditável de tão… real. De minha parte, me flagro personagem involuntário de uma trama de suspense mirabolante (e muito real) e, mais que isso, testemunha de uma fábula algo macabra sobre o funcionamento nu e cru da indústria de drogas musical paulistana, brasileira, mundial.
P.S.: por último, mas nem de longe menos importante, devo contar que o Luiz Calanca se incomoda bastante com a situação em que se viu envolvido e sente compaixão pelo segurança desastrado, que tem uma filha de 4 anos (e, a propósito, pediu demissão depois dos avanços das investigações). Diferentemente da doutrina canastrona dos “dois lados da notícia” advogada desde a era paleozóica por nossa imprensa tradicional, nenhuma notícia possui APENAS dois lados. Nem a vida real se resume a um filme de mocinhos e bandidos.



