
Um mês atrás, o descarte de livros da Biblioteca Monteiro Lobato de Osasco, a principal da cidade, provocou uma comoção. Segundo documentos a que FAROFAFÁ teve acesso, o departamento jurídico do município autorizou o descarte de 49.500 exemplares – durante o processo, uma reportagem da TV Globo questionou a prefeitura, que foi modificando o tom das respostas e, por fim, acabou recuando, prometendo reavaliar o estado dos livros.
A Monteiro Lobato de Osasco não é a única Biblioteca Monteiro Lobato com problemas. Nesta semana, o Sindsep (Sindicato dos Trabalhadores na Administração Pública e Autarquias no Município de São Paulo) publicou em suas redes sociais imagens internas da biblioteca paulistana que leva o mesmo nome cheia de lixeiras improvisadas como baldes d’água. Estantes esvaziadas para evitar que o acervo fosse prejudicado conviviam com mantas de plástico protegendo chão (veja as imagens clicando aqui).
Segundo o Sindsep, a informação, no entanto, não bate com as imagens realizadas pela organização, que mostram que não havia no local nenhuma “requalificação predial” sendo realizada. Essa informação foi reafirmada por usuários da biblioteca consultados pelo sindicato. “Uma usuária das bibliotecas cobrou a SMC: ‘Vocês visitam as bibliotecas?’ Ela afirmou: ‘Eu, com criança pequena e usuária assídua de várias bibliotecas, vou contar: o acervo está desatualizado, tem poucos livros, uma tristeza imensa’. E sobre a biblioteca Monteiro Lobato ela foi direta: ‘Essa biblioteca é linda mas há muito não tem reforma, isso sem falar da praça onde está localizada, em péssimas condições. Vale a pena ir lá dar uma olhada, hein.'”
FAROFAFÁ entrevistou a sindicalista Luzia Barbosa sobre a situação da biblioteca. Leia abaixo:
Haroldo Ceravolo Sereza – Esta semana, o Sindsep publicou imagens de áreas da biblioteca Monteiro Lobado cheias de água. O que aconteceu por lá?
Luzia Barbosa – Já faz um tempo que a biblioteca, assim como muitas outras unidades da prefeitura, vem sofrendo com a falta de cuidados na manutenção e no zelo dos espaços. A infiltração apareceu há algum tempo, mas não é um problema isolado. É necessária uma reforma na biblioteca, intervenção que vem sendo divulgada nas redes sociais desde abril deste ano, mas ficou só nisso. É uma linda instituição cultural da cidade, não é? Um prédio moderno, inaugurado em 1936 pelo próprio Mário de Andrade, na época diretor do Departamento de Cultura, como Biblioteca Municipal Infantil. Em 1955, a biblioteca foi batizada de Monteiro Lobato. Sabemos que há goteiras no meio das salas de acervo. Uma obra como essa deveria contar com medidas extraordinárias para não permitir uma situação dessas.
HCS – Desde quando há problemas na biblioteca? Vocês conseguem identificar quando eles começaram?
LB – Em meados de abril, estiveram lá mexendo na marquise e depois sumiram. Da mesma forma, o secretário de Cultura apareceu em uma postagem segurando uma britadeira e informando o início da obra. Mas há muito tempo existem cobranças por uma reforma e, de certa forma, havia uma expectativa de que isso seria positivo. A realidade, porém, é que a obra não está organizada para preservar o patrimônio. Tanto que a situação chegou a esse ponto.
HCS – O que alega a prefeitura?
LB – Ela divulgou uma nota confirmando a obra, mas não tem ninguém trabalhando no local. Onde está a empreiteira responsável? Na última terça-feira recebemos a denúncia e, quando fomos apurar, constatamos a infiltração e vários baldes cheios de água. Quando chegamos, havia inclusive um usuário tentando acessar as histórias em quadrinhos, que estavam cobertas por uma lona.
HCS – A Monteiro Lobato já foi uma referência nacional no acervo de literatura infantojuvenil. Ela continua com essa especialidade?
LB – A biblioteca é uma referência em literatura infantojuvenil. Por anos, produziu um documento essencial para as pesquisas da área, que é a Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil (BBLIJ), organizada pela Seção de Bibliografia e Documentação da Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato. Isso foi possível por conta do imenso acervo, que inclui inclusive a documentação e os livros da literatura infantojuvenil brasileira editados desde 1953. Contudo, com a falta de servidores e, principalmente, de bibliotecários, não é possível ter acesso a esse espaço. A biblioteca também abriga o AHLE, que é o Acervo Histórico do Livro Escolar.
HCS – Houve perdas desse acervo?
LB – Não temos informações mais detalhadas. Mas sabemos que há uma grande ausência de servidoras e servidores, o que sobrecarrega quem está trabalhando e leva muita gente a adoecer. Esse problema de falta de trabalhadores não é diferente do que ocorre em outras unidades da Cultura, como o Centro Cultural São Paulo ou a Biblioteca Mário de Andrade. Faz muitos anos que a Prefeitura não realiza concursos para bibliotecários. É preciso haver concursos públicos para que os acervos sejam devidamente cuidados. Esse cuidado realizado pelos profissionais é essencial, pois a falta dele pode ocasionar perdas irreparáveis ao patrimônio cultural da cidade.
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