O cantor, compositor e saxofonista Maurício Pereira no acervo da Rádio Eldorado FM - foto: reprodução Facebook
O cantor, compositor e saxofonista Maurício Pereira no acervo da Rádio Eldorado FM - foto: reprodução Facebook

Talvez as casamatas mais famosas da música popular brasileira sejam as da letra de “Vila do Sossego” (1978), de Zé Ramalho. E a “Amora” a de Renato Teixeira, lançada no ano seguinte.

Maurício Pereira (letra) e Romulo Fróes (música) constroem uma “Casamata de amoreiras” (OCorre Lab, 2026), disponível desde hoje (19) nas plataformas digitais, single que anuncia o próximo álbum do primeiro.

A dupla subverte a tortura para arrancar beleza em meio à fragilidade. “Esbofetear um samba/ torturar a torto e a direito/ pra ver o que esse samba fala/ o que é que ele traz na mala/ pousada num canto da sala/ por trás da porta trancada”, diz trecho da letra, no que dialoga, talvez, com “Arrancando as tripas” (Pixel 3000, Djeiki Sandino, Jackson Bandeira e Fortrex), da Nação Zumbi (2000).

“Casamata de amoreiras/ que desemboca em sangue/ e redemoinha em fogo/ (que) desinforma o desejo/ pra encaixotar a paixão/ hoje eu vou deixar queimar o bolo/ pra não ter que entender jamais/ (eu não quero entender jamais)/ que o amor possa ser algo mais/ possa ser algo mais/ (do) que um rolo”, continua.

Falei de fragilidade por duas razões: um bunker de árvores não é lá a coisa mais resistente do mundo, sobretudo nestes tempos de desmatamento desenfreado e mudanças climáticas, causa e consequência; e a própria, típica da transformação do ser humano em mero operário autômato sob o jugo do capitalismo: hoje em dia, quem ama (e demonstra) é visto como fraco.

Como o ouvinte de rádio é, às vezes, visto como atrasado, obsoleto, por ainda se prender a um veículo de comunicação tão antigo. E me vem à cabeça o meme em que um neto explica para o avô o que é um podcast: um misto de notícia e música. No que o velhinho responde: isso já existe, você está ouvindo rádio.

O leitor mais apressado já terá xingado o cronista, que mistura alhos e bugalhos. Paciência. Explico: a coisa viralizou. E se não, deveria. Maurício Pereira aproveitou a tristeza pelo fechamento da Rádio Eldorado para lançar sua nova música. Era o último Som a Pino que ia ao ar, com Roberta Martinelli — que chora emocionada no vídeo e lembra que tocou “Trovoa”, do artista, na primeira vez que chegou ali para fazer FM.

Obviamente o ex-Mulheres Negras não fez a música pensando no fechamento da emissora paulista, cujo nome significa país imaginário, lugar cheio de delícias e riquezas; fosse isso, o primeiro verso de “Casamata de amoreiras” poderia soar indiferente: “o que me importam as mudanças de canal?”, pergunta-se, referindo-se a outra coisa. O próprio Maurício Pereira integrava o elenco da Eldorado: por quase quatro anos apresentou o Música Falada, às segundas-feiras.

Maurício Pereira é moderno: em meados da década de 1990, quando a internet ainda engatinhava no Brasil em termos de popularização, foi o primeiro artista brasileiro a transmitir um show no modelo que se convencionaria chamar de live.

Ao ousar lançar sua música no rádio, antes das plataformas digitais, falou em peitar o algoritmo. Se o sangue das amoras não lava nem vinga o lamentável fim da Eldorado, é um alívio saber que depois da Copa do Mundo de Futebol (independentemente do desempenho da seleção brasileira, ainda bem) vem aí um álbum novo do artista, um dos mais inventivos da música brasileira em todos os tempos. O sucessor de “Outono no sudeste” (2018) ainda não tem título definido.

Na capa do single, o artista encara a própria sombra em foto de Bruno dos Anjos e design de Luciana Faccnini. Maurício Pereira (voz) está acompanhado por Biel Basile (bateria e produção musical), Fábio Sá (baixo elétrico), Chico Bernardes (violão de aço e coprodução) e Tonho Penhasco (guitarra).

"Casamata de amoreiras" - capa/ reprodução
“Casamata de amoreiras” – capa/ reprodução

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Ouça “Casamata de amoreiras”:

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