O artista de história mais singular entre todos que se apresentarão no C6 Fest, mostra de música que se instala a partir desta quinta-feira, 21, em São Paulo, é o cantor britânico Baxter Dury. Vocês nunca ouviram uma história remotamente parecida como a dele, garanto – nem um som que tenha a mesma pulsão.

Quando era adolescente, em meados dos anos 1980, Baxter foi deixado pelo pai, Ian Dury (vocalista e letrista da lendária banda Ian Dury and The Blockheads), aos cuidados do roadie do grupo, um sujeito que era conhecido apenas pelo apelido: Sulphate Strangler (ou Estrangulador Sulfúrico). Foi largado no flat-cubículo de Strangler em Hammersmith, que ficou incumbido de o levar à escola no seu Nissan branco, comprar suas roupas, alimentar e garantir que fosse bem nos estudos, ao mesmo tempo em que o roadie traficava (ou consumia) drogas entre os artistas para os quais trabalhava, como Led Zeppelin, Boy George ou Freddie Mercury. The Blockheads foi um grupo exponencial do pub rock inglês dos anos 1970.

Baxter Dury escreveu um livro, em 2021, sobre o fato de ter tido uma babá traficante (e a rotina dessa criação), Chaise Longue (Corsair, 224 páginas), que encantou leitores no Reino Unido. O verdadeiro nome de Sulphate Strangler era Pete Rush e ele morreu em uma cela da cadeia de Bournemouth, onde tinha nascido. Ian Dury, o pai de Baxter, morreu de câncer colorretal.

FAROFAFÁ conversou por Zoom com Baxter Dury na terça-feira, 19, pela manhã. Ele já estava em um hotel no Rio de Janeiro para o festival, e – pasmem! – Baxter estava chocado com o Rio e aquilo que estava presenciando. “Eu nem sequer imaginava o quão louco isso era de verdade. Achei que seria um tanto selvagem, mas logo pensei: ‘Caramba! O que? Como?’. É extremo em tantos sentidos. Estou tentando assimilar ainda. É… Como posso definir? Vibrante, sabe? É a representação mais extrema de todos os extremos: ricos, pobres, radicais, multiculturais. É meio perturbador também”. Baxter Dury, cuja abordagem musical é parecida com a de um menestrel, um tipo de Leonard Cohen do basfond, amparado por um conceito eletrônico ultramoderno, se apresenta no C6 Fest neste sábado, 23, às 16h40, na tenda Metlife. Os ingressos estão esgotados.

O jornalismo cultural de Farofafá precisa do seu apoio! Colabore!

QUERO APOIAR

FAROFAFÁ: Baxter, você tem uma certa atitude de rock star, mas ao mesmo tempo não é uma estrela do rock. Como você define o seu próprio lugar na música?

BAXTER DURY: Como você definiria um rock star para que eu possa afirmar, em primeiro lugar, que eu não sou uma estrela do rock? Qual é a sua definição? Quando você me diz que eu não sou um astro do rock, uh… O que define um astro do rock para você?

FAROFAFÁ: Tipo os Irmãos Gallagher, por exemplo.

BAXTER DURY: Isso é um pouco previsível, não é? A atitude deles é o jeito clássico de astro do rock… uh uh… de ir embora. Você quer dizer que eu não sou previsível?

FAROFAFÁ: Sim, de certa forma, mas não só isso. Você não é… como posso dizer isso? Não é um homem ordinário. É um pouco como Van Morrison… 

BAXTER DURY: Entenda: eu não fui afetado por isso. As atitudes deles (rock stars) são criadas e desenvolvidas culturalmente de uma maneira totalmente diferente, e eu, de certa forma, venho de um ambiente artístico privilegiado e tal (a mãe de Baxter, Beth Rathmell, foi uma pintora de projeção formada pelo Royal College of Art; ela dividiu a guarda do filho com o pai, de quem se separou cedo). Quer dizer, nem sempre é fácil, mas eu tenho uma trajetória totalmente diferente e, portanto, minha perspectiva sobre música vem também de um lugar diferente. Não se trata tanto de briga. E, se você consegue encontrar prazer na música do Oasis, gosta de briga. Gosta de bravata. E a minha música vem de um lugar um pouco mais… sei lá, um pouco mais… pensado, ou melhor, não pensado da maneira correta, não é isso que quero dizer. Mas vem de uma forma diferente de pensar. Então, sabe, não é nenhuma surpresa, considerando a minha origem e tudo mais. Não é algo muito pensado, sabe? Não sei se você chega a ser quem é, necessariamente, construindo uma imagem. Você se forma naturalmente.

FAROFAFÁ: Sei que você já foi comparado ao chansonnier francês Serge Gainsbourg. Você consegue ver algum tipo de conexão entre as suas coisas e as que Gainsbourg fazia?

BAXTER DURY: Às vezes. Quer dizer, também sou um cara estranho fazendo música. Sim, talvez. Quer dizer, um pouco. Não há nenhum tipo de modelagem ou intencionalidade. Eu pude ver muitas pessoas diferentes e, se for necessário comparar, então você poderia encontrar alguns nomes diferentes. Se necessário. Mas talvez eu seja simplesmente quem eu sou. E eu não acho engraçado que as pessoas precisem se esforçar para encontrar uma referência óbvia a algo, e não posso deixar que isso me impeça de ser quem eu sou, não é mesmo? Quer dizer, eu não sei, mas há uma relação ínfima, menos de um centésimo de um por cento, com Serge Gainsbourg. Às vezes eu também uso uma camisa bege, e tenho uma voz grave, mas é só isso mesmo.

FAROFAFÁ: Certo. E o seu livro, Chaise Longue, como foi a recepção? 

BAXTER DURY: Foi boa. Sim, foi boa. Foi lançado bem no final ou no meio da pandemia de Covid, então foi interessante. Mas foi boa, sim. Recebi alguns elogios.

FAROFAFÁ: Seu livro chocou um pouco por causa daquelas coisas sobre como você foi criado na Inglaterra pelo traficante do seu pai. Mas, ao mesmo tempo, você tem um estilo muito bom como escritor. Não o convidaram para seguir escrevendo, para fazer algo não biográfico, mas literário, tipo um romance? 

BAXTER DURY: Considero essa possibilidade, adoro isso, e até tenho a opção de fazer isso. Atualmente, estou contratado por uma editora e eles estão me incentivando a fazer isso, mas a mentalidade necessária para me dedicar integralmente à literatura é algo inteiramente novo para mim. Sou bastante autodidata, então talvez seja preciso muito esforço para me motivar a me concentrar tanto. Por isso, romantizo a ideia de fazer isso o tempo todo. Adoraria ter essa satisfação profissional fazendo algo assim. E eu escrevo o tempo todo, mas acho que a vida, quando você está em turnê o tempo todo, é muito difícil, assim como a energia que você tem na estrada. E aí, na semana que você está em casa, você basicamente só se dedica a se recuperar. Sabe, estávamos na Nova Zelândia semana passada, depois na Austrália, e de repente estamos no Brasil. E por mais interessante que isso seja, pode realmente roubar sua atenção criativa às vezes. Então, talvez, quando eu estiver um pouco mais tranquilo, quando eu estiver mais parado, eu considere fazer isso sim. 

FAROFAFÁ: Essa infância que você descreveu, caótica, que tipo de impacto você acha que teve na sua maneira de viver hoje em dia? 

BAXTER DURY: Acho que tem um lado negativo e um positivo. Sou bastante livre e criativo, e acho que não seria assim sem algumas das pessoas com as quais eu cresci. E também sou um pouco traumatizado, sabe? Foi bastante sangrento… Acho que existe um termo moderno para descrever isso, tipo superestimulação. Talvez minha infância tenha sido um pouco hiperestimulada (a hiperestimulação, em psicologia refere-se a um estado crônico no qual o sistema nervoso é continuamente ativado por estímulos, sem tempo para se recuperar, o que conduz à ansiedade e estresse crônico).

FAROFAFÁ: Você tem um álbum musical novo agora, Allbarone (Heavenly). Li em algum lugar que é uma condensação do nome de uma franquia de bares em Londres, All Bar One.

É, um barzinho ruim, né?

FAROFAFÁ: E qual é o propósito de gravar um disco hoje em dia, para um artista, já que houve várias mudanças na forma como as pessoas ouvem e compram música? Um disco conceitual? 

BAXTER DURY: Não sei se é tão conceitual assim. Quer dizer, tudo o que eu faço provavelmente é um pouco conceitual, para algumas pessoas. Eu não ligo. Você faz música porque é o que você faz. Quer dizer, o que mais eu faria? Não sei. Se você está me perguntando por que eu faço música… Por que não? Quer dizer, eu tenho a sensação de que alguém quer que eu faça isso, então eu gosto bastante e não quero… Bom, eu não sei fazer mais nada, e essa é uma desculpa boa o suficiente.

PUBLICIDADE

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome