
Tem um momento na vida de todos nós em que a morte deixa de ser uma palavra e vira uma coisa. Viriato Corrêa, jornalista e escritor maranhense, capturou isso de forma sensível no conto “Pinguinho”, em que os dias de velório eram os mais alegres de um lugarejo. Era a oportunidade de brincar, de se encontrar, de existir em bandos numa sociedade em que o cotidiano era cinza e isolado. A infância é dotada de uma proteção que ninguém pede e todos perderemos, cedo ou tarde: a incapacidade de nomear a ausência. O grupo teatral Os Geraldos, em Saudade, faz dessa contradição o mote para um espetáculo que explicita com muita delicadeza essa perda da ingenuidade.
A montagem chega ao Sesc Santana depois de uma trajetória que passou por uma residência artística na Espanha (Catalunha), pela Itália, França e Inglaterra, e também por uma generosa circulação no Brasil. A peça é, assim, fruto de uma maturidade de quem já testou sua arte cênica em plateias muito distintas. A saudade que nos atravessa após uma morte de alguém muito próximo não é uma experiência particular, brasileira, interiorana. É um portal pelo qual todos nós, em algum momento, somos forçados a passar.
Douglas Novais conduz a montagem a partir de uma contenção que, na prática, amplifica cada emoção. A morte de Pinguinho, o menino franzino de olhos “iluminados por um eterno desejo de viver”, nas palavras de Viriato Corrêa, funciona no espetáculo como é na vida: depois dela, nada do que era familiar pode ser visto da mesma forma. Antes, as crianças do vilarejo brincavam nos terreiros, enquanto os adultos reunidos velavam seus mortos numa convivência que hoje soa disparatada. Mas o texto nos faz entender como algo natural.
O grupo Os Geraldos, de Campinas, possui uma marca muito específica, que é a de usar a música como arquitetura cênica. Em Saudade, as canções em português, espanhol, francês, italiano e latim organizam o tempo dramático e constroem transições que facilitam a narrativa. Elas não estão ali para preencher pausas, nem sublinhar emoções já evidentes. No fundo, criam uma espécie de memória coletiva que alcança o público antes mesmo que ele saiba que está sendo alcançado. A escolha do repertório multilíngue não é gratuita. Ela remete, sem dizer, que a saudade que o título anuncia não tem tradução exata em nenhuma outra língua, mas é um sentimento que se reconhece em todas. Quando uma criança para de “brincar” em um velório expressa o momento exato em que o velório da sua infância acontece.
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QUERO APOIARA cenografia de chão de vidro, que ora reflete, ora ilumina o que está por baixo, não deixa de revelar que o que está sob nossos pés não é nada definitivo, tampouco opaco, por vezes sólido. Saudade mostra que o passado transpassa o presente, a infância é atravessada pela maturidade, os mortos habitam o mundo dos vivos. É a condição humana.
O coro de 13 intérpretes é o coração estético d’Os Geraldos. Os atores não trabalham com o protagonismo individual, mas com o coletivo como postura, como uma escolha política. A metáfora é evidente: em Saudade, o luto, afinal, quando é genuíno, é sempre coletivo. O que fica, ao sair do teatro, não é exatamente tristeza, longe disso. É uma sensação de ter tocado em alguma coisa que estava guardada dentro de nós e que agora, ganha contornos reais. O que a trupe trouxe ao palco é que convicção de que certas histórias não envelhecem porque falam do exato instante em que deixamos de ser crianças. E esse instante, por mais que tenha ficado em algum lugar do passado, ainda dói.




