Laila Garin e Juliana Linhares, em cena da peça "As Centenárias"
Laila Garin e Juliana Linhares, em cena da peça "As Centenárias" - Foto: Andrea Nestrea/ Divulgação

Havia, no século 16, um dramaturgo português que entendia o que poucos depois dele ousaram admitir: que a morte não é trágica, mas cômica. É o grande entremez (a peça encenada no entreato e, simbolicamente, no intervalo da vida), em que os vivos se revelam em toda a sua pequenez, astúcia e desespero. Gil Vicente sabia disso. O brasileiro Ariano Suassuna também soube. E Newton Moreno, ao criar as personagens Socorro e Zaninha, em As Centenárias (duas carpideiras que percorrem o sertão nordestino enganando a ceifadora há mais de cem anos), demonstra que essa linhagem está vivíssima. Ela decanta como nos melhores vinhos.

As Centenárias, que estreou em São Paulo no Sesc Bom Retiro em versão musical inédita, com direção de Luiz Carlos Vasconcelos, trilha de Chico César e direção musical de Elísio Freitas, é apresentada na ficha técnica como “comédia dramática”. É uma definição honesta, mas tímida. O espetáculo é, na mais precisa acepção do termo, uma farsa ibérica, daquela que se alimenta da trapaça, do jogo de aparências, da astúcia dos desfavorecidos diante do inevitável.

Quando Gil Vicente escreveu a Farsa de Inês Pereira, em 1523, sua protagonista usava a esperteza para manipular o mundo masculino que a cercava. Antes, quando escreveu o Auto da Barca do Inferno, em 1517, colocou a morte como espetáculo: figuras populares diante do inevitável, cada uma tentando negociar sua passagem no cais do porto. Séculos depois, Suassuna transpôs essa tradição para o sertão nordestino, que sabemos ser marcado pela cultura popular peninsular, pelo cordel, pelo teatro de raiz vicentina. Nasceram João Grilo e Chicó, que no Auto da Compadecida fazem exatamente o que Socorro e Zaninha, em As Centenárias, fazem: trapaceiam a morte, negoceiam com o além, vivem pelo engenho da palavra e da farsa.

O que o sábio pernambucano Newton Moreno compreendeu é que no universo das carpideiras essa lógica se radicaliza. A matéria-prima da sobrevivência de Socorro e Zaninha é a própria morte. Elas a conhecem em suas entranhas. Sabem seus rituais, seus medos, seus caminhos. E é por essa intimidade com a ceifadora que lhes permite introduzir a vida pelas frestas. No fundo, elas decidiram estender as suas próprias existências para além dos cem anos sob o nariz da morte, como Miguel de Cervantes fazia com seus entremesses ao introduzir a subversão nos intervalos das grandes comédias do século de ouro do teatro espanhol. As duas habitam a casa da Morte (um personagem em si) e conhecem suas manias. E por isso a enganam com tanta desenvoltura e destreza.

A peça, numa narrativa que vai e volta do presente ao passado, se passa pelo Cariri, uma região repleta de beatas, procissões e devoção popular. É um terreno em que a farsa ibérica operaria com naturalidade, pois pode usar a estrutura religiosa oficial para mascarar rituais profanos, subversões e interesses humanos. O sagrado e o profano coexistem sem embaraço, como sempre coexistiram no teatro popular nordestino, e brasileiro em geral. E não é coincidência que um terceiro ator, Leandro Castilho, se desdobre em mais de seis personagens ao longo do espetáculo. Esta é herança direta das companhias itinerantes de farsa e dos entremesses espanhóis, onde poucos atores precisavam dar conta de toda a fauna social. Castilho constrói cada figura a partir do gesto, da voz, do contorno físico, e cada entrada no palco remete a uma economia “criativa” cênica.

Mas esta nova montagem não é uma farsa ibérica reencenada. É uma farsa brasileira que aprendeu a cantar. Quando Marieta Severo e Andréa Beltrão estrearam As Centenárias em 2007, sob a direção de Aderbal Freire-Filho, o espetáculo já era fora da curva. A montagem era ancorada em duas atrizes, corpo e palavra, e um mundo inteiro erguido a partir disso. Mas não havia música na veia, assim como nesta nova versão. Não havia as 16 canções originais que Chico César compôs e que não apenas acompanham a narrativa, mas a constituem.

Cena de "As Centenárias", com músicos e atores no palco
Cena de “As Centenárias”, com músicos e atores no palco. Em cartaz no Sesc Bom Retiro – Foto: Andrea Nestrea/ Divulgação

Juliana Linhares, ao propor o projeto, partiu de uma intuição luminar: o carpir está ligado ao canto. O lamento das carpideiras é melodia antes de ser palavra. As canções de Chico César emergem da própria lógica dramaturgia de Newton Moreno. O compositor paraibano recebeu o texto com indicações de onde as músicas deveriam surgir, com letras já esboçadas, e as transformou numa trilha que percorre as sonoridades do Cariri, da embolada, do coco, sem se recusar ao inesperado. A Morte, quando cabe, embarca num rock pesado. Essa amplitude não é capricho estético, mas argumento, já que o universo das carpideiras é tão vasto quanto a vida que elas conservam.

A baiana Laila Garin (Socorro) e a maranhense Juliana Linhares (Zaninha), ambas atrizes e cantoras, atuam em uma cumplicidade que não se aprende nos ensaios, mas se revela neles e vem de outro lugar. As duas atrizes transformam a música em dimensão narrativa, não em ilustração. Quando cantam, não estão musicalizando a cena. O lamento delas se torna melodia, a melodia se torna argumento, e o argumento retorna como riso. Há cenas cômicas, de doer o estômago. Há instantes em que é impossível distinguir onde começa o teatro e onde começa o show. A performance de Juliana com o corpo é quase um terceiro personagem em certas cenas, mas vá ver e volte para dizer se faz sentido isso.

Luiz Carlos Vasconcelos, ator consagrado que nas coxias realiza um mergulho cada vez mais fundo na cultura brasileira (foi dele também a direção do Suassuna — O Auto do Reino do Sol, com a Barca dos Corações Partidos), parte da encenação original para construir uma nova espessura. Não é a mesma peça com músicas, mas outra montagem nascida da mesma matriz.

E por trás de tudo isso está a Sarau Produções, de Andrea Alves. Num mercado teatral em que três quartos dos recursos captados pela Lei Rouanet se concentram em empresas que reproduzem franquias estrangeiras (os musicais made in Broadway), a Sarau faz o movimento contrário. Há anos injetando brasilidade no universo dos musicais, a produtora tem uma linha de produção coerente, de fôlego, que não abre mão da identidade nacional só para caber num modelo importado.

Esta montagem de As Centenárias é mais do que uma peça em cartaz. É um argumento em cena. O teatro popular brasileiro tem raízes profundas, que remete a Gil Vicente, a Suassuna, mas também ao cordel e à tradição oral do Nordeste, e são elas que sustentam obras capazes de envelhecer ao contrário: quanto mais o tempo passa, mais se revelam, repaginadas ou não. Como as próprias Socorro e Zaninha, que há cem anos enganam a morte com a mesma obstinação e a mesma graça.

Que o Cariri não acabe, amém.

As Centenárias. De Newton Moreno, com Juliana Linhares, Laila Garin e Leandro Castilho. No Sesc Bom Retiro, quintas-feiras e sábados (20 horas), e domingos (18), até 14 de junho. Ingressos a 60 reais.

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