Foto de Lucas Lima/Divulgação

“Eu vi o Pereio!”, contou o ator e dramaturgo Mário Bortolotto, às gargalhadas, em 2009, quando lhe perguntei quem ele tinha visto durante o coma de dois dias em que ficou após levar 4 tiros de um meliante na Praça Roosevelt – eu, meio folgado, queria saber se, naquela situação extrema, o Mário tinha chegado, como creem os crentes, perto de elucidar a misteriosa face de Deus. E “Deus” lhe apareceu justamente com a faccia do gaúcho Paulo César Pereio.

Almas gêmeas de sinuca, uísque, sarcasmo e atuação cênica, Bortolotto somente reportava um print sincero da sua inconsciência sobre seu amigo Pereio, mas a verdade é que Pereio pontificou como uma espécie de Meca da independência artística, para a qual convergiam os deserdados do cartão vermelho, os inconformados com as intransigências das regras sociais e do cabresto do pragmatismo. Ele foi um símbolo da resistência à hipocrisia, da negação da caretice, da necessidade da inconveniência crítica – assim como também se tornou um outdoor ambulante do preço a se pagar por tudo isso.

Detalhe: não era somente por causa de sua voz tonitruante e da autoconfiança exasperante que Pereio prometia encarnar essa presença empoderada do papel de Deus. Mais do que eflúvios celestiais, foi a convicção da blasfêmia, do olhar que precede a fúria e a disposição para rasgar scripts confortáveis as qualidades que lhe emprestaram uma autoridade incontestável. Assim, não é surpresa que um dos seus últimos papeis no cinema tenha sido justamente o de Deus em São Ateu, longa de Hiro Ishikawa de 2022 (já tinha feito a voz de Deus em Inspetor Faustão e o Mallandro, de 1991).

Os que amavam o Pereio sabiam que o destemor dele não era jogo de cena. Preso e torturado pela ditadura civil-militar, ele berrava enquanto estava pendurado no pau-de-arara esperando choque, desafiando os torturadores: “Me dá logo esse troço, porra!”. Nunca se arvorou Messias de nada. “Sempre se con­fundiram na minha cabeça o patrio­tismo, o heroísmo e o erotismo”, afirmou.

A morte de Pereio no Hospital Casa São Bernardo do Rio de Janeiro, de problemas hepáticos, aos 83 anos, oficializa o desembarque de uma geração de rebeldes sem remédio. O primeiro a se pirulitar foi o malandro profissional Hugo Carvana, em 2014. Depois, em 2018, o ameaçador Joel Barcelos, que era no fundo um cara doce e até tímido. Eles criaram, no cinema e na TV, a imagem hoje estilhaçada de um heroi torto, o cafajeste ético, o vagabundo esclarecido, um pilantra de consciência social e política. E, o mais importante: criaram a imagem que se tornou indistinguível de sua própria vida exterior às telas e aos palcos. “A minha mitologia envol­ve a transgressão, a minha clientela es­pera de mim um procedimento trans­gressor”, afirmou o ator.

“Eu te amo, porra!”, a frase imortal que Pereio proferiu para Sonia Braga em Eu te Amo (1981), um dos filmes da trilogia proto rodrigueana de apartamento do Arnaldo Jabor, tornou-se o primeiro meme da era anterior à internet que sobreviveria para além de sua chegada, criando autonomia nos muros e nas camisetas do País. A frase exprime em sua contradição de termos a própria essência do espírito do ator gaúcho – esperto demais para desacreditar no amor, ignorante demais para não tentar driblar a impotência de não ter como demonstrar de forma eficaz esse mesmo amor.

A última vez que vi Pereio foi justamente numa peça dirigida por Mário Bortolotto na Rua Frei Caneca, em São Paulo, Criança Enterrada, de Sam Shepard (Pulitzer de 1979). Foi em 2016. Em cena, ele atuava na maior parte do tempo sentado num sofá de dois lugares, encarando um tipo de desafio minimalista na cena teatral. De pijama, sussurrando, cercado de atores jovens, uma molecada, escrevi que ele parecia “um farol torto indicando o caminho que não se deve seguir, com sua arte imperturbável”. Largado naquele sofazinho, Dodge, o personagem de Pereio – que vinha caminhando de sua casa até o teatro para atuar – parecia uma barricada solitária contra o teatro de subsídios caros, de traquitanas caríssimas, de compadrio crítico e seus prêmios repartidos irmanamente.

A morte de Pereio, para gente que cresceu afeiçoada às radicalidades e aos impulsos de rebelião, certamente aumenta a sensação de pessimismo de época, como acontece nesses momentos em que desaparecem um Walmor Chagas, uma Léa Garcia, um Zé Celso. Talvez por não vermos peças de reposição ao alcance do retrovisor.

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