O cantor e compositor Chico César - foto: Anderson Stevens/ divulgação
O cantor e compositor Chico César - foto: Anderson Stevens/ divulgação

Quando Chico César estreou no mercado fonográfico com “Aos vivos” (Velas, 1995) já dizia a que veio. O álbum trazia pelo menos dois clássicos instantâneos: “À primeira vista” e “Mama África”, a primeira, imediatamente regravada por Daniela Mercury integrou a trilha sonora da novela global “O rei do gado” no ano seguinte, o que acelerou o interesse do público brasileiro e de intérpretes do quilate de Maria Bethânia, entre muitos outros.

O êxito pode levar a maioria de seus ouvintes, fãs e admiradores a acreditar que o artista nasceu pronto. Mas antes de ir tentar o sucesso em São Paulo, um imperativo da época, o paraibano de Catolé do Rocha trabalhou em sebos, estudou jornalismo e integrou o mítico Jaguaribe Carne, grupo de seus parceiros Pedro Osmar e Paulo Ró.

Após as celebrações de 30 anos do álbum de estreia, ocorridas ano passado, Chico César desnuda-se para mergulhar em produção juvenil neste seu 11º. álbum de estúdio: no formato voz e violão executa as 16 faixas inéditas — a exceção é “Saudade senhora dona”, revelada por Xangai em “Um abraço pra ti, pequenina” (Kuarup, 2007), inteiramente dedicado ao repertório de compositores paraibanos.

A maioria das faixas do repertório foi composta quando o artista tinha entre 17 e 20 anos. Àquelas somam-se outras mais recentes, compostas desde a pandemia, mantendo o clima libertário, adolescente e econômico, entre as limitações impostas pela crise sanitária e eventuais palavrões, para intensificar o amor ou questionar o status quo político da época.

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É um Chico César em formação, que não teme eventuais imperfeições e revela influências, que vão das festas de santo de sua terra natal, crônica policial, literatura de cordel, rádio e até mesmo a datilografia, exigência da época para qualquer êxito profissional. A exemplo de “Aos vivos”, “Fofo” foi também gravado ao vivo, porém em estúdio, sem plateia e sem retoques.

A postura de Chico César é ousada e corajosa em se permitir lançar o material. Um dos artistas mais interessantes da música popular brasileira surgidos no fim do século passado, certamente não faltarão comparações entre o repertório de “Fofo” a clássicos de sua lavra que o consagraram. A questão tem dois aspectos: por um lado revela sua gênese, formação e evolução e, ao não se censurar, lega, em vida, um material que alguns não hesitarão em considerar pueril. Não raro os próprios artistas rejeitam o material destes anos iniciais, que acabam virando ouro póstumo na mão de herdeiros inescrupulosos. Sem vergonha, muito do que ele viria a tornar-se já está ali, ele próprio se permite, ainda bem.

Nestes mais de 30 anos desde a estreia no mercado fonográfico, Chico César construiu uma trajetória coerente e libertária, sem receio de tomar partido e assumir posturas políticas, dentro e fora da música, tendo presidido a Fundação Cultural de João Pessoa e sido secretário de Estado da Cultura da Paraíba. Ou seja: um artista livre.

No que reside a fina ironia do título deste seu novo álbum. Compositor requisitado por grandes nomes da MPB, Chico César tornou-se merecidamente um querido entre seus pares, sem nunca querer ser fofo. Do livro “Americanah”, da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, tirou o mote sobre o qual desenvolveu “Fofo”: “eu não quero ser fofo/ eu quero ser a porra do amor de sua vida”. Continua sendo. De seus intérpretes e de seu fã-clube.

"Fofo" - capa/ reprodução
“Fofo” – capa/ reprodução

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Veja e ouça “Fofo”, por enquanto disponível apenas no youtube (em breve nas demais plataformas):

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