O conceituado crítico Martin Esslin ao escrever sobre o livro O Teatro do Absurdo, do irlandês Samuel Beckett, anotou que faltavam às peças Esperando Godot e Fim de Partida “tanto personagens quanto enredo, no sentido convencional, porque elas atacam sua temática num plano em que nem personagens nem enredo existem”. Mas como dizer isso quando no palco do Sesc Pinheiros o que se verá é Marco Nanini, Guilherme Weber, Helena Ignez e Ary França em grandes performances?
A montagem dessa peça de 1956, escrita portanto pouco após o fim da Segunda Guerra, mostra a relação tóxica, abusiva e de crueldade entre Hamm (Nanini) e Clov (Weber). Ambos estão no palco (cenografia de Daniela Thomas), uma caixa cênica retangular onde se vê janelas dispostas no teto, e duas latas de lixo fora dela, num canto. Dentro delas estão Nagg (França) e Nell (Helena), pais de Hamm.
Cego, o canastrão Hamm aparece sentado em uma cadeira de rodas, totalmente dependente de seu “servo”, Clov, que pode ver, porém tem um problema físico que o impede de sentar. Cabe a ele alimentar e manter a sobrevivência daquela família (os pais perderam as pernas num acidente), mas pela situação a que é submetido bem poderia abandonar todos e cuidar só de sua vida. Um detalhe: todos acham que são os únicos sobreviventes do mundo.
Em situações repetidas, tudo gira em torno de Hamm e a expectativa de um despertar de Clov. Mas Fim de Partida fará o espectador ficar na “incerteza se a consumação final, a conquista da salvação e o sofrimento vencido pela ação da conciência terão sido, ou mesmo se podem ser, alcançados”, escreveu Esslin. O crítico teoriza que essa peça de Beckett, assim como Esperando Godot, representa o desaparecimento gradual das nossas ligações com a realidade quando estamos à beira da morte, simbolizados pelo extermínio do mundo exterior.
O jornalismo cultural de Farofafá precisa do seu apoio! Colabore!
QUERO APOIAR
Rodrigo Portella, que assina a direção da peça, vê Fim de Partida também como uma “alegoria política”, em que um tirano arbitrário exerce sua autoridade bélica (pelas palavras) e opressiva ante um um “corpo submisso, o solado em vigília permanente, sempre de pé, incapaz de repouso, a serviço de uma engrenagem que não faz sentido algum”.
O fim de tudo, a solidão, a busca por um sentido, a existência que se repete insistentemente, tudo isso faz de Fim de Partida uma peça difícil de digerir à primeira vista. Mas é aí que Marco Nanini e Guilherme Weber fazem a história ganhar uma dimensão, digamos, mais mundana. Eles dão graça onde não deveria haver graça. A tragicomédia ganha mais do que tiradas, mas pequenas ironias que só rindo para continuar a essa luta inglória que é a vida sem esperança. Helena Ignez, icone do cinema brasileiro, e Ary França têm diálogos curtos, mas trágicos que relembram o passado e contrastam com o presente paralisado.
Para encerrar como começamos, Esslin ensina que as peças de Beckett podem ter múltiplas interpretações, e embora esta montagem “pode ser um monodrama, uma moralidade a respeito da morte de um homem rico”, o correto é abstrair das primeiras impressões do texto. “Em lugar de apenas explorar a superfície, uma peça como Fim de Partida é como uma lança introduzida até o âmago da existência.”





