
Dê play no link abaixo e deixe a voz de Bibi Ferreira entrar antes mesmo de prosseguir o texto. Ouça a tragédia que a grande dama do teatro instala no ar, com um timbre de quem foi dilacerada e ainda permanece de pé. Há, ainda que ela não saiba, uma grandiosidade que intimida qualquer uma que venha depois da pioneira peça Gota D’Água, de 1975.
É exatamente dessa intimidação que parte Gota D’Água – No Tempo, peça em cartaz no Teatro Anchieta, do Sesc Consolação. Georgette Fadel sabe do peso que carrega. Sabe que Bibi Ferreira imortalizou Joana em 1975, a peça de Chico Buarque e Paulo Pontes que recria Medéia numa mulher carioca, moradora de um conjunto habitacional que envenena os filhos antes de se envenenar. Sabe também que terá de responder a uma comparação não dita que o público faz assim que as luzes se apagam. Georgette não tentará responder. Ela muda a pergunta.
Bibi era trágica no sentido clássico. Basta ver as poucas fotos dela no papel de Joana, a mulher que foi traída pelo marido Jasão, que a trocou por uma mulher mais nova e filha de Creonte, o corrupto algoz do conjunto habitacional Vila do Meio-Dia. Ela se contorce e gesticula de tal forma, que o crítico teatral Sábato Magaldi não só reconheceu a identificação total dela à personagem, como afirma que Bibi “explode com vigor de fera enjaulada”.
Georgette é cáustica, irônica. Antes de dizer uma fala importante, ela já a diz com o olhar, com o gesto milimetricamente pensado. E o que vem depois é quase um pleonasmo de um olho que afirma, que coreografa, que não pede nada ao público. Ela é uma força contida, e isso exige mais do que explodir. É algo mais difícil de sustentar em cena: a presença de uma mulher que escolheu a ruína com plena consciência. Desistiu da esperança de que o amor tivesse algum dia feito sentido dentro daquelas estruturas sociais que o seu drama pessoal apenas refletiu.
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É nesse ponto que a montagem de Georgette Fadel, que assina a direção geral ao lado de Cristiano Tomiossi, seu parceiro de 20 anos atrás e Jasão da versão de 2006, ganha uma urgência que o texto original não previa, mas comporta com perfeita atualidade. Em 1975, Gota D’Água era um grito de resistência à ditadura militar, escrito por dois filhos da classe média carioca que compreendiam a opressão como algo a ser combatido com as palavras. Em 2026, a peça não precisa mais gritar – assim, esperamos. A estrutura que ela denunciava está tão normalizada que Joana já nem se surpreende com ela.
Creonte (José Eduardo Rennó), o dono do conjunto habitacional, é o hoje o rosto desumanizado dos fundos imobiliários que expulsam famílias de bairros periféricos para erguerem empreendimentos de luxo e/ou verticalizados até o céu. Sim, é a gentrificação, palavra nova para uma velha lógica de despejo dos mais pobres. Jasão é o empreendedor de si mesmo, na peça o autor da música Gota D’Água, que acredita que seu talento individual justifica pisar nos que o sustentaram. A cena em que Creonte “compra” o apoio dos moradores – um campo de futebol, uma pintura nas paredes – em troca do silêncio sobre os juros abusivos é didática. E nada mais é do que a velha arte de desmobilizar politicamente a sociedade, oferecendo o acessório para que o essencial permaneça nas mãos dos detentores do poder.
Mas Georgette não faz panfleto no palco (mas não deixa de citar os episódios recentes dos Teatros Ventoforte e Contêneir). Seu gesto é mais sutil e mais cruel. Sua voz, seu corpo, a forma como domina o palco sem precisar ocupá-lo todo é muito potente. Ela conduz Joana de uma resignação absoluta para quem decide aceitar seu destino trágico. Ela já viu longe demais o próprio futuro e não tem mais energia para se surpreender com ele. Desde a cena inicial, o desfecho está escrito no corpo dela, que irrompe com ou sem palavras. Não somos surpreendidos com o envenenamento dos filhos. Fomos conduzidos a ele, cena a cena, por um olhar que já antecipava o que estava por vir. Georgette não nos deixa respirar. Não porque grite, mas porque não precisa. É isso que torna a performance dela assustadora: a ausência de catarse. Não há alívio. Há confirmação.
É ousado dizer que Georgette Fadel está à altura de Bibi Ferreira. Mas essa comparação só seria perturbadora ou equivocada se partir do pressuposto de que só existe uma maneira de habitar Joana. Bibi a tornou universal pela grandiosidade. Georgette a torna contemporânea pela ruína dos tempos atuais. São duas verdades sob a mesma mulher, com 50 anos de Brasil entre elas. E o texto de Chico e Pontes, ríspido, poético, furioso, dá suporte às duas versões com a mesma inteireza que Magaldi reconheceu em 1976: a adaptação não é só brasileira, mas moderna e universal.
Sem microfones, as palavras saem da garganta do elenco e atingem os poros, como Georgette fez questão de dizer. Parte do público assiste Gota D’Água do palco, dentro da Vila do Meio-Dia, dividindo o espaço com o elenco. Não é para sentir a dor de Joana ou nutrir ódio de Jasão. É para sentir o sofrimento de viver dentro do sistema.




