O médico paraense Ruy Antônio Barata nasceu em dia de parada de rua: 7 de setembro de 1944, na cidade de Óbidos, no Baixo Amazonas do Pará. Logo se daria conta de que não tinha vindo ao mundo em uma família tradicional, era parte de um clã de ebulitivo sangue político e indômito impulso intelectual. Seu avô, o advogado e juiz Alarico Barata, foi um líder civilista que encabeçou os processos de florescimento dos direitos civis e políticos no Pará; o pai, Ruy Paranatinga Barata, poeta, literato e adversário ferrenho das opressões, foi preso político em 1964 e obrigado à aposentadoria compulsória em 1968 pelo regime civil-militar. A obra de seu irmão, o cantor, violonista e compositor Paulo André Barata (um dos primeiros parceiros de Fafá de Belém), é fundamental em qualquer esforço de compreensão da linguagem da moderna música paraense, da lambada à guitarrada e ao tecnobrega. Por conta da militância estudantil, Ruy Antônio acabou preso e foi agredido em quartéis do regime, no auge da repressão, quando liderou a ocupação da Faculdade de Medicina da UFPA.
Pela afamada casa da família Barata na Avenida Generalíssimo Deodoro, no coração de Belém, uma acolhedora residência dos anos 1930 que ainda hoje abriga refeições ruidosas, pratos típicos insuperáveis e senso de humor irrefreável na grande mesa da sala de jantar, passaram parte substancial das inquietações, insurreições, rebeliões e debates políticos e artísticos da infância intelectual de Belém do Pará e do País. Das ideias do físico Mário Schenberg ao fervor revolucionário do guerrilheiro Carlos Marighella; do tropicalismo de Gilberto Gil à curiosidade intelectual de Jean-Paul Sartre e Elizabeth Bishop. Para se ter uma ideia, o discurso de formatura de Ruy Antônio foi copidescado por Juscelino Kubitschek, no momento de seu retorno do exílio.
A narrativa das memórias da família e dessa era de construção mitológica no coração da selva amazônica está no foco de um livro invulgar que será lançado essa semana em São Paulo: Esse Rio é Minha Rua (Editora Paka-Tatu, 440 páginas, 80 reais). É um volume precioso para quem busca compreender o processo de inserção da cultura e da política do Norte do País na História contemporânea brasileira. As memórias da família Barata recuperam um impulso pioneiro de abertura para o mundo e para a emancipação humanista da nossa cidadania. É a estreia de Ruy Antônio Barata como autor, aos 80 anos, recuperando quase um século do edifício de estruturação da vida social, política e cultural, do Pará e, por conseguinte, de um Brasil em busca de seu verdadeiro reflexo.
No início dos anos 1970, Ruy Antônio, um dos 7 filhos de Ruy Guilherme Paranatinga Barata e Norma Soares Barata, passou a trabalhar e se aperfeiçoar em São Paulo, embora nunca tenha ficado apartado demais da política e da vibração cultural do Pará. Aqui, fez pós-graduação em Nefrologia na Escola Paulista de Medicina, coordenou o Serviço de Diálise e Transplante do Hospital Santa Marcelina e foi por duas vezes presidente da Sociedade Paulista de Nefrologia.
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Noite de autógrafos do livro de memórias Esse rio é minha rua, livro de Ruy Barata.
Sexta-feira, 24 de abril de 2026, das 18 às 21h. Livraria da Vila – Avenida Paulista, 1063 (próximo à estação de metrô Trianon Masp)
Venda online: https://www.editorapakatatu.com.br/product-page/esse-rio-%C3%A9-minha-rua-de-ruy-ant%C3%B4nio-barata





