Cena final da peça Barrela
O ator Paulo Jordão (Bahia) na cena final da peça Barrela, de Plinio Marcos

 

 

 

Eu não tenho casa, eu não tenho grana
Vai fazer frio, vai fazer frio

Bernardo Pellegrini

O ANTRO

Quem cai naquele antro logo recebe um apelido: Tirica, Portuga, Fumaça,
Bahia, Bereco. Ninguém tem sobrenome. Alguns sequer apelido. Alguns são
apenas tipos: Louco, Garoto, Carcereiro.
Aquele antro é conhecido por vários nomes, nenhum exatamente auspicioso:
xilindró, xadrez, gaiola, jaula, cana, cela. Ali estão reunidos aquilo que os
homens de bem costumam chamar, à distância, de lixo humano. A polícia,
tecnicamente, chama de “elemento”.
As vidas naquele antro são baratas. Não valem um tostão furado. O teatro de
Mário Bortolotto & o Cemitério de Automóveis é barato. Geralmente montam
seus espetáculos (se quiserem chamar assim) sem um tostão furado.
Mas não vacile com eles. Esse bando é visceral e astuto. Quase todos possuem
codinomes: Linguinha, Batata, Deus. Quase todos são tarimbados nas
surpresas, nem sempre agradáveis, que a noite reserva aos seus visitantes. Ao
menor vacilo, podem pregar também na sua testa um apelido. Isso, na melhor
das hipóteses. Quase sempre, cravam um punhal no peito dos desavisados. Um
punhal de palavras, gestos, penumbras, olhares frios, sons soturnos, cujos
cortes doem por dias e dias.
Tudo se confunde naquele antro. Linguinha, que acabou de passar o café na
cafeteira elétrica surrada, encurrala um dos espécimes do “lixo humano” num
canto da jaula e dispara, ameaçador: “o Tirica nunca me enganou”. Não é
mais o Linguinha quem está falando. É o Bahia. Mas pode ser Deus. E Deus
confidencia, entre um intervalo e outro dos ensaios, que não gosta do que os
homens de bem andam falando em seu nome. Como se disse, tudo se
confunde naquele caixote de paredes pretas.
A passagem dos bastidores para a boca de cena acontece num piscar de olhos,
sem técnicas brechtianas de distanciamento, sem métodos de interpretação
stanislavskianas, sem exercícios wolfianos de preparação de ator. O que há é
meticulosidade. O diretor corrige sistematicamente cada palavra trocada
pelos atores. Segue-se o texto à risca. Os gestos, as intenções, os tons das
falas vão sendo desenhados de acordo com um estilo bem próprio e definido,
seco como um tiro, rente como um corte de navalha. Quando se faz a luz e a
trilha sonora, tudo se confunde novamente: parece que não é mais teatro, é
cinema. Não pense, leitor amigo, em nouvelle vague. Não pense em Jean-Luc
Godard. Pense em filme de faroeste. Pense em Sergio Leone.

BOLETIM DE OCORRÊNCIA
Mas para que tudo não se afunde num labirinto de grades, códigos velados e
mistura de gêneros, é preciso que se façam alguns esclarecimentos diante das
autoridades — afinal, a vida não é cinema. Talvez seja teatro, às vezes um teatro barato. Porém, isso são outros quinhentos. Vejamos o que diz o boletim de ocorrência:
Barrela é primeira peça escrita por Plínio Marcos, em 1958, quando contava
apenas 23 anos de idade. O então então camelô das ruas de Santos leu por
acaso em um jornal da cidade a história de um garoto de classe média preso
por uma briga qualquer, num daqueles momentos tolos em que doses de
embriaguez e valentia podem arruinar a vida de um novato. Passou uma noite
de cão na cadeia. Quando saiu, esperou um por um dos “companheiros” de
cela que o fizeram comer o pão que o diabo amassou. Matou quatro.
A crueza do texto e a crueldade do enredo despertaram a atenção da
escritora Patrícia Galvão (a lendária Pagu), do diretor Pascoal Carlos Magno e dos policiais da Censura Federal. Depois de uma única encenação, foi proibida
— ainda no governo de Juscelino Kubitschek. Só foi liberada quase duas
décadas adiante. Teve poucas montagens. Chegou a virar filme. Sessenta e
um anos depois (2019), o diretor Mário Bortolotto e seu grupo Cemitério de
Automóveis resolvem abrir (trancar, talvez seja o termo mais apropriado)
novamente a porta do xilindró e mergulhar de cabeça nos acontecimentos
daquela noite de horrores. É disso que trata este Boletim de Ocorrência.

ANTECEDENTES CRIMINAIS
Não há muitos detalhes sobre os antecedentes criminais de cada um dos
“elementos” enjaulados naquele antro. Sabe-se que Bereco matou um.
Portuga matou a mulher — que o corneava com Deus e o mundo. Tirica
conheceu os nove círculos do inferno, guiado por um tal de Morcego, quando
caiu no “re-for-ma-tó-rio”, ainda pivete. Fumaça está em cana toda hora —
“como posso ser malandro?”, desconversa, quando intimado e intimidado.
Bahia foi parar no xadrez “por engano” — claro, claro.

LUZES, SOM, AÇÃO
A noite é longa e todos tentam dormir naquele antro sufocante, mas o
fantasma da mulher assassinada arrasta correntes nos remorsos de Portuga.
Além do fantasma, não há mulher no xilindró, sabe como é. O Louco está
literalmente louco para enrabar alguém. Os outros, exceto Bereco, não se
furtariam a alguns momentos de alívio e diversão. Portuga, defendendo o
próprio rabo, revela o “passado triste” de Tirica. O conflito se instala, a
tensão aumenta, Bereco (o xerife da cela) instaura uma ordem provisória,
sempre por um triz, Fumaça e Bahia reacendem o pavio, o conflito retorna, a tensão gruda nas paredes pretas, a barra de Tirica é aliviada quando o Garoto, detido por causa de uma briga besta, é atirado entre as feras, não há mulher na jaula, não se esqueça, Bereco até tenta livrar a cara do novato, há jura de morte no ar, a noite vai ser longa, vai fazer frio.
Não há cavalos puxando uma carruagem no meio da nevasca, o cenário não é
uma hospedaria com lareira, os personagens não são caçadores de
recompensas, ex-generais confederados ou condenados à forca, mas, como no
filme de Tarantino, ali, naquele antro imundo, ninguém pode confiar em
ninguém. Nesse tipo de ambiente, as ameaças costumam ser levadas a cabo.
Embaralhando as palavras de Guimarães Rosa, xilindró “é onde manda quem é
forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!”
Mas tudo pode se confundir novamente de uma hora pra outra, bastidores e
boca de cena, e os desavisados que sentarem a bunda nas cadeiras do Teatro
Cemitério de Automóveis talvez se surpreendam com o ritmo de filme que o
diretor e o elenco imprimem à peça.

ANTECEDENTES TEATRAIS
Percalços da vida real e mazelas do jogo teatral se misturam num zás-trás nos
ensaios desse bando. Quase todos ali são tarimbados nas intenções, métodos e
referências do diretor Mário Bortolotto. Há algo incatalogável em sua maneira
de fazer teatro. Surrealismo? Não. Teatro do absurdo? Não. Teatro
experimental? Não. Naturalismo? Certamente. Mas um naturalismo com a
precisão de quem enfia a faca entre as costelas, sem a menor dúvida, e a
enterra até o fim.

Há pontos de conexão entre a dramaturgia de Bortolotto e de Plínio Marcos —
embora com referências, de um e de outro, bem diferentes. Um é
conhecidamente influenciado pela prosa e poesia beat, pelas pulp fictions de
Charles Bukowski, pelo cinema de John Cassavetes, Walter Hill e Sam
Peckinpah, pelos quadrinhos de Tex. Outro teria mais ligações com os
sambistas do morro, com os relatos de marinheiros do cais de Santos, com as
crônicas policiais de jornal (resumo drástico do amplo leque de referências de
cada um). Mas ambos possuem a vivência noturna das ruas e o olhar atento
aos cenários mais escondidos da cidade, com seus personagens biriteiros,
malandros, marginais e desajustados, entre os quais existe uma ética de
camaradagem, mas sempre a um fio de explosões violentas.
É significativo que o texto de Plínio Marcos brote de uma notícia de jornal — e
não de um ideal de obra de arte. Nasce do ordinário, da “vida como ela é” —
e não da “vida como ela poderia ser”. Não deve passar despercebido que o
termo “barrela” signifique “espécie de caldo obtido da cinza proveniente de
queima de espécies vegetais”, mas também algo ou sujeito “sem qualidade,
insignificante, pueril, sem valor algum” e, por fim, “curra”, na gíria dos
presidiários. O olhar dos dois dramaturgos, diretores e atores, com suas
diferenças de tonalidades, se detém nos ambientes sujos, precários, muitas
vezes sórdidos, e ambos teletransportam toda essa sujeira para suas obras,
não apenas como tema, mas também como atitude, como linguagem.
No ensaio “Poesia em Transe”, publicado como posfácio do livro Arthur
Rimbaud – Iluminuras, Gravuras Coloridas, os poetas/tradutores Rodrigo
Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça esquadrinham diferenças
fundamentais entre Mallarmé e Rimbaud, marcos da modernidade na Europa,
juntamente com Baudelaire. Algumas observações se encaixam como luvas
negras no contexto: “Mallarmé, como é evidente em seus poemas e textos
teóricos, ainda vê na poesia a possibilidade de ‘purificar’ a linguagem da
tribo. Já Rimbaud, depois de ‘sujar’ a poesia, abandona-a, sequer chega a
acreditar em seus manuscritos, tornando-se alguém que, perguntado sobre
poesia por [Ernest] Delahaye, responde com um reles: ‘Não penso mais
nisso’”.
Após transcrever depoimento do poeta andarilho, em que relembra seu amor
por “pinturas idiotas em cima das portas, (…) lonas de saltimbancos, (…)
iluminuras populares, literatura fora de moda, (…) livros eróticos com
ortografia errada”, os ensaístas Rodrigo e Maurício realçam o interesse de
Rimbaud pela “apropriação de tudo aquilo que lhe parece improvisado,
imprevisível, caótico, impuro, burlesco, falso, estranho, bizarro, para enfim
traduzir o desconhecido”, e sintetizam seu desejo de “absorver para a poesia
tudo aquilo que ela tem tentado manter, a duras penas, fora de seus domínios
sagrados.”
Do foco das ruas para o fogo das celas de uma cadeia, no entanto, o giro éainda mais brutal. O que restaria do sagrado (para lembrar um texto dopróprio Bortolotto) entre aqueles seres humanos enjaulados? Como as
senhoras de bem, confortavelmente sentadas em poltronas estofadas, poderiam levantar a barra de suas saias e atravessar os infernos —
parafraseando o prefácio de William Carlos Williams ao poema “Uivo”, épico das sarjetas de Allen Ginsberg? Que aproximações seriam pertinentes entre o texto de Plínio Marcos (de 61 anos atrás, vale lembrar), a montagem de Bortolotto e a violência de um rap como “Diário de Um Detento”, parceria de
Mano Brown com Jocenir Prado, gravado pelos Racionais? O que pode o teatro,
o cinema, a poesia, a pintura ou o romance para decifrar os códigos gritados por esses seres ejetados da sociedade, como abortos descartados em privadas imundas?

APOTEOSE APOCALÍPTICA
As perguntas são muitas, os horrores não cessam, tudo se confunde mais uma
vez, mas uma coisa é certa: todos ali, naquele cemitério de automóveis,
sabem o que estão fazendo: teatro, ainda que pareça filme. Todos sabem que
a vida não é cinema. Todos sabem que a noite vai ser longa. Haverá mortos e
feridos, profundamente feridos. Mesmo com o clima sufocante, vai fazer frio.
Vai fazer frio.

 

Texto de Ademir Assunção, poeta e escritor, autor de A Voz do Ventríloquo, prêmio Jabuti de 2013

 

BARRELA
Texto: Plinio Marcos
Direção: Mário Bortolotto
Em cartaz no Teatro Cemitério de Automóveis (rua Frei Caneca, 384), de
sexta a domingo. Ingressos: R$ 40 (inteira), R$ 20 (meia).

 

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