A passagem do tempo, a perda de sonhos e a eterna a busca pela felicidade em um mundo cheio de contradições. Também é sobre a frustração e a desilusão, os amores não-correspondidos, os significados e propósitos da vida, a futilidade da existência. Alguém pensou em crítica social? Sim, a peça Tio Vânia tem tudo isso e ainda outras camadas que demandam um grupo teatral como o Tapa para dar a devida dimensão a esse texto singular de Anton Tchecov.

Tio Vânia estreou em 1899 e é uma das obras mais reconhecidas do autor russo – junta-se a ela A gaivota (1896), As três irmãs (1901) e O jardim das cerejeiras (1904). Com um texto repleto de nuances da vida cotidiana, muito deles aparentemente banais, Tchecov proporciona um voo panorâmico sobre os dilemas pelos quais passa a Humanidade desde sempre. Com interpretações robustas, os atores do Tapa, sob a direção de Eduardo Tolentino de Araújo, conseguem levar para o palco a autenticidade dos diálogos naturalistas do texto original, gerando uma aproximação com o público.

A peça se passa em uma propriedade rural russa, onde vivem Tio Vânia (interpretado por Brian Penido Ross), sua sobrinha Sônia (Anna Cecília Junqueira), Babá (Walderez de Barros), Bexiga (Tato Fischer), Maria (Lilian Blanc), mãe do protagonista. Uma série de conflitos aflora com a chegada do professor Serebriakov (Zécarlos Machado), pai e Sônia, e sua nova esposa, a jovem Helena (Camila Czerkes), que despertará o amor de Tio Vânia e também do médico Astrov (Bruno Barchesi).

Ao confinar a história numa casa, numa família e nas pessoas que orbitam em torno dela, a peça Tio Vânia consegue se expandir a ponto daquele lugar representar um microcosmos da sociedade russa da época, com todas suas idiossincrasias. Tchecov é sempre uma peleja para uma companhia teatral, desafio mais do que aceito pelo Tapa. Em 1996, o grupo montou Ivanov, sobre a crise existencial de um homem depressivo e desiludido. Vinte anos depois, à beira da falência, o Tapa encena O jardim das cerejeiras, sucesso que garantiu a continuidade da companhia por já duradouros 45 anos.

A peça gira em torno de Tio Vânia, um personagem que traduz com precisão uma sociedade que vive amargurada e desiludida com a vida, que sente ter desperdiçado seus anos dedicando-se a cuidar dos outros. No caso, dos bens do professor Serebriakov, um intelectual aposentado, egocêntrico e que passa por cima dos sentimentos dos outros. E há Helena e Sônia, madrasta e enteada, que são apaixonadas platonicamente pelo mesmo homem, o dr. Astrov, e se resignam a abandonar seus sonhos, desejos e a própria felicidade.

Tio Vânia. Com o Grupo Tapa. No Sesc Santana, quintas-feiras a sábado (20 horas), domingos e feriados (18), até 16 de junho. Ingressos a 50 reais.

Precisamos de um quilo de farinha pra fazer FAROFAFÁ!

Mascote FAROFAFÁ Somos o único veículo crítico e progressista dedicado exclusivamente ao jornalismo cultural, nas suas mais variadas frentes: livros, filmes, música, artes, teatro etc. Se você chegou até aqui é porque está do nosso lado. Ajude FAROFAFÁ a fortalecer o debate e a cultura brasileira.

Diferente dos grandes veículos, não somos donos bilionários e não corremos atrás de cliques a qualquer custo. Isso significa duas coisas:

1. Farofafá trata do que importa para a cultura brasileira — do teatro de grupo às periferias musicais, da literatura marginal às artes visuais — sem precisar agradar patrocinadores.

2. Praticamos jornalismo de fôlego. Críticas, reportagens e ensaios nascem de quem foi ao teatro, ouviu a música, leu o livro, viu a exposição. E tudo o que publicamos é gratuito para qualquer leitor — e queremos que continue assim.

Você pode ajudar a deixar Farofafá mais forte e vibrante! Escolha sua forma de contribuir e vamos farofafar juntos!

Escolha como apoiar

Saiba mais em farofafa.com.br/apoie

PUBLICIDADE

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome