Foto antiga de Arribo Barnabé, cantor e compositor
Barnabé aventura-se em uma autobiografia na qual, mais uma vez, faz questão de não entregar o que se espera dele. - Foto Divulgação

O músico lança uma edição artesanal de suas memórias, No Fim da Infância, em que aborda de Tom Jobim a viagens de táxi

O crítico Luiz Nazário escreveu sobre Arrigo Barnabé, analisando seu aparecimento para um público mais abrangente no Festival de MPB da TV Tupi, em 1979: “Estava destinado a ser um novo Chico Buarque de Holanda – um compositor querido das famílias. Mas algo nele fracassa”.

O fracasso, entretanto, era calculado e almejado, prossegue Nazário: Arrigo se apresentava para oferecer uma música que não era aquela que as plateias esperavam escutar. Ele subvertia noções de harmonia, padrões rítmicos e melodia. O que se passou nesse trajeto atonal, desde os 40 anos da apresentação pública da ópera Clara Crocodilo (e mesmo antes, na infância e na adolescência de Arrigo), é agora objeto da estreia do cantor e compositor também como escritor, o livrinho memorialístico No Fim da Infância.

No volume, Arrigo escreve um conjunto de textos autobiográficos com leveza (até conversas com taxistas entram), picardia e algumas doses de revelações divertidas (como a confusão com o nome do compositor húngaro Béla Bartok, que ele chegou a acreditar tratar-se de uma mulher) e episódios de encontros insólitos (como a noite em que ele e Benito di Paula, no lobby de um hotel, choraram a morte de Tom Jobim). Lançado na cidade natal de Arrigo, Londrina (PR), o livro teve uma edição artesanal, em tiragem limitada. Foi todo impresso manualmente, em tipografia, e reúne fotografias resgatadas de arquivos pessoais.

 Ex-estudante de arquitetura nos anos 1970, Arrigo mostra como se aproximou do estudo de teoria e composição musical, da paixão por Pierrot Lunaire, de Arnold Schoenberg, do fascínio por Leãozinho, de Caetano Veloso, e das ideias iniciais da “obra aberta” que se tornaria Clara Crocodilo (composta em parceria com Mario Lúcio Côrtes). É fabulosa a história de como ele mostrou a gravação da música para o próprio Tom Jobim, que pediu para ouvir de novo e depois quis ficar com o disco. Arrigo entremeia essas revelações com descobertas sobre sexualidade, ética, moralidade e afetos. 

Em turnê há alguns meses reinterpretando a obra de Roberto e Erasmo Carlos, Arrigo é uma das figuras mais complexas da cultura popular brasileira, apesar de tradicionalmente ser identificado com a vanguarda. Já estrelou diversos filmes como ator, como Ed Mort, Anjos da Noite e Cidade Oculta.

No Fim da Infância. De Arrigo Barnabé. Grafatório Edições, 94 págs., 65 reais.

 

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