jonnatta doll e os garotos solventes no sesc belenzinho
Jonnatta Doll e os Garotos Solventes - Fotos Julia Moraes

Cantor e compositor lança “Alienígena”, um dos retratos mais crus do submundo paulistano

Alguns artistas vivem numa fluida fronteira entre a superfície e o subterrâneo, e esse parece ser o caso do cantor e compositor cearense Jonnata Doll, radicado em São Paulo. Sua poética crua, a performance visceral no palco (uma explosão que evoca Iggy Pop e, às vezes, Freddie Mercury), a proximidade com o lado escuro das ruas, tudo isso faz de Jonnata um dos artistas mais absurdamente genuínos de sua geração – ele tem 34 anos e uma curta mas celebrada trajetória ao lado da banda Garotos Solventes (que inclui ainda os guitarristas Edson Van Gogh e Léo Breedlove, o baixista Loro Sujo e o baterista Felipe Popcorn Maia).

Ganhador do Prêmio Governador do Estado de São Paulo no ano passado, o grupo Jonnata Doll e Os Garotos Solventes gravou seu terceiro disco com o estímulo dessa premiação, Alienígena, que está sendo lançado esta semana pelo selo Risco. Produzido por Fernando Catatau, com participações de Ava Rocha, Guizado, Clemente, Marcelle e Murilo Sá, o disco é um rasante na sonoridade de uma metrópole protopunk, às vezes evocando sons de bandas como Plebe Rude, Tokyo, Zero. A diferença é a condimentação: Jonnata Doll fala (com raro conhecimento de causa) de um submundo pouco abordado na canção pop paulista contemporânea, como a rotina de um centro de atendimento psicossocial na Praça da Sé, os noias no Vale do Anhangabaú, o consumo de Thinner, travestis e baixos de viadutos na madrugada, aquecidos por papéis queimados em latões.

O componente político também é muito forte. “Ah, ele quer se sentir à vontade para fazer piada de preto e gay/Ah, ele quer se sentir à vontade para deixar mulheres em submissão”, canta o artista, em Matou a Mãe. Ou: “Ontem puderam se vestir de nazista e desfilar pela Paulista” (Volume Morto).

A radicalidade do som e da poesia de Jonnata Doll é um dado novo, dolorosamente novo, na roda viva do circuito do entretenimento do chamado mundo “alternativo”, muito a reboque de algumas fórmulas e feito de consentimentos. “Tô no inverno de chinela, fui maltratado no inferno da Baixa Augusta e na Paim”. Livre como os desenganados que retrata, Jonnata se mistura a uma São Paulo que é varrida para baixo do tapete todos os dias. E extrai dali sua música perturbadora.

Trabalho trabalho trabalho. De Jonnata Doll e os Garotos Solventes. No Spotify, em https://open.spotify.com/artist/3DHVqqLBXA0dtRkBT2UGrP

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