"Aiê". Capa. Reprodução

O mineiro LuizGa (alter ego de Luiz Gabriel Lopes) e o português Edgar Valente se conheceram meio que por acaso, mas dizer isto não é suficiente para explicar nem o encontro em si, nem o que dele decorreu, musicalmente falando e além.

Em dueto eles lançaram Aiê, disco de muitas camadas, com uma sonoridade que tem os dois pés na ancestralidade, nos terreiros das religiões de matriz africana e na história das relações de Portugal e Brasil, numa sobreposição de sotaques que é uma obra-prima.

Ambos os artistas têm carreiras solos e outros projetos, em uma multiplicidade de atuações no campo musical: LuizGa fundou a banda Rosa Neon e já colaborou com nomes como Chico César, Marina Sena, Samuel Rosa e Xangai, e Edgar Valente é mais conhecido em sua terra natal como vocalista da Criatura, a mais importante banda do país neste instante, no dizer de ninguém menos que o escritor português Valter Hugo Mãe.

Ao mesmo tempo que a música da dupla aponta para esta revisita às raízes, é própria também para dançar – o que faz todo sentido, para além de mera coincidência: lugar de pés e raízes é no chão. Um passeio pelas 10 faixas conduz o ouvinte a temas autorais e alheios, cantados e instrumentais, entre cânticos, rezos e mandingas.

Aiê – ou “Àiyé” (ou ainda “Ayé”) –, em ioruba, significa “mundo terrestre” ou “mundo dos vivos”, mas o álbum destaca a relação entre o humano e o sagrado, o divino, o transcendental. O álbum foi produzido por Guilherme Kastrup e nele, além do próprio produtor (berimbau, maracá, caxixi, atabaque, tama, claps e brinquedos), LuizGa (voz, violões, baixo, palmas, vassourinha no udu, kene, lata, caxixi, percussão no tampo do violão e martelo) e Edgar Valente (voz, cajón, unhas de bode, palmas, udu, adufe, tambor xamânico, teclados, flauta de mão, shekerê e synth bass) se fazem acompanhar por Gil Dionísio (violinos e coro), Iúri Oliveira (congas), Mateus Bahiense (bateria) e Beatriz Nande e Sara Mercier (coro).

De Portugal, LuizGa e Edgar Valente conversaram com exclusividade com FAROFAFÁ.

Os músicos Edgar Valente e LuizGa - foto: Tiago Pinheira/ Divulgação
Os músicos Edgar Valente e LuizGa – foto: Tiago Pinheira/ Divulgação

ENTREVISTA: LUIZGA E EDGAR VALENTE

ZEMA RIBEIRO: Eu quero começar do começo: como é que vocês se conhecem e estabelecem essa relação de trabalho e amizade, porque eu não acredito que um disco tão bonito seja fruto apenas do trabalho, tem que ter algum nível de amizade para essa maravilha toda.
EDGAR VALENTE: Como eu já tinha dito antes ao César [Lacerda, cantor e compositor que sugeriu a pauta], parece um encontro que aconteceu pela primeira vez e parecia que não era só daqui dessa vida, são encontros da alma mesmo. Isto foi em 2016, no ano em que o Graveola [e o Lixo Polifônico, banda mineira de que LuizGa fez parte] andou a tocar, tocou inclusive no Festival Músicas do Mundo de Sines [Alentejo litoral, em Portugal], e o Criatura tocou também nesse ano, ou seja, o Graveola, a antiga banda do Luiz, e o Criatura, a banda que ainda existe, minha, tocamos nesse ano. Mas não foi nesse ano que nos conhecemos, foi mais tarde, em Lisboa, através de um amigo comum, num concerto de uma outra banda minha, que o Luiz no final apareceu e rolou logo assim, um conhecimento, essa conexão logo.
LUIZGA: Falei: quem que é esse maluco aí? Dançando, cantando pra caralho, uma banda de funk, muito foda, Os Compotas, que é um outro alter ego desse personagem aqui.
EV: E de repente começamos a partilhar e a falar e percebemos que havia já muita coisa cruzada no astral, para dar continuidade, e uma semana depois já estávamos em Serpa [cidade portuguesa], num estúdio, eu fui gravar para uns temas que o Luiz estava gravando.
L: Aconteceu esse negócio: eu estava justamente procurando um músico, estava indo fazer uma residência artística em Serpa, teoricamente era para gravar uns temas que iriam dar num álbum, mas enfim, foram temas que depois acabaram virando pré-produções e arranjos iniciais de várias coisas que eu lancei depois, e o Edgar participou desse processo, inclusive algumas tracks que saíram minhas, assim, recentemente, tinham teclados do Edgar, adufes, não sei o quê, e a gente se conheceu já dentro do estúdio, e isso foi muito importante, eu acho também, a gente não lembra muito disso, mas essa coisa de a gente ter trabalhado em estúdio já uma semana depois de a gente se conhecer, acho que isso foi talvez a semente que, depois, em 2020, foi dar no álbum, do Aiê, que é essa ideia de a gente pesquisar um repertório de coisas, composições minhas que não tinham sido gravadas ainda, nos concertos a gente cantava também coisas do Criatura, ou seja, era uma mistura de várias coisas, mas aí a gente foi achando esse repertório do disco, então é isso, uma coisa muito atravessada pela música, na verdade, a curiosidade que a música, nas suas diferentes manifestações, ela suscita, e quem é músico vive muito isso, isso é um combustível da atividade, essa coisa de você absorver, transformar a sua própria forma de fazer música a partir da informação que vem de fora, de outros territórios, de outras memórias, é muito isso o nosso encontro.
EV: E tem também esta presença, sabe?, de os dois nos encontrarmos num sítio já na altura da vida, de uma determinada sensibilidade espiritual, do interesse, de uma vontade, de uma pesquisa, de uma forma de lidar com a vida artisticamente também, em que a gente conectou muito logo aí e isso manteve uma determinada corrente. Quando falo astral é a consciência disso mesmo, e que nos levou a concertos, depois até a Bali, no BaliSpirit Festival [festival na Indonésia], esse tipo de festival que não estava tendo nem para Luiz nem para mim, e nos encontramos nesse contexto, somos largados em Bali, durante três semanas, aprofundamos, depois em 2020, quando o Luiz vai fazer essa tour na Europa e com o início da pandemia fica retido em Portugal, e aí ficamos retidos durante meses, juntos.
L: Eu ia ficar três dias na casa do Edgar e fiquei três meses, no final.

ZR: Isso devido à pandemia, não é?
EV: Exatamente. Literalmente ficamos fechados juntos até começarmos a gravar, durante esse período a gente gravou grande parte do disco.
L: Aí foi uma pré-produção, e depois a gente foi para a casa do Edgar na Covilhã, que é uma cidade mais ao norte, perto da Serra da Estrela, e tem lá um sótão que a gente transformou num estúdio e levamos os equipamentos, um amigo nosso que é também do Criatura, que é o Paulo Lourenço, o baixista do Criatura, que é a outra banda do Edgar, e esteve lá conosco também gravando, a gente fez uma gravação caseira, na verdade, levantamos a maioria dos arranjos, e muitas outras coisas estavam engatilhadas, porque nós, os dois, temos uma vida artística, musical, bastante múltipla. Nós dois temos uma certa multiplicidade de projetos, de lançamentos de vários gêneros, então esse lançamento nosso demorou para chegar no ponto de estar com tudo alinhado e foi isso, e foi muito interessante, que a gente encontrou o [baterista e percussionista Guilherme] Kastrup, que foi essa figura, que é meio o terceiro elemento muito importante da produção, no final das contas, porque ele pegou o material que a gente tinha gravado em 2020, lá na Covilhã, e se debruçou sobre aquilo, editou, escolheu coisas, mexeu em arranjos, gravou instrumentos também, então ele teve também uma interferência na forma final dos fonogramas que eu vejo como algo que era muito necessário, na verdade, e foi muito definidor para a coisa ganhar a força que ganhou. Porque é um repertório que a gente sabe que é forte, que tem canções fortes, mas a maneira como se apresenta aquilo muda tudo, o jeito que as pessoas recebem também está muito ligado, eu acho, a essa personalidade do fonograma, e isso é uma coisa que a gente não só está muito satisfeito, mas a gente tem recebido retornos muito incríveis, já de imprensa internacional, e pessoas que estão olhando também para esse lado do trabalho.

ZR: Todos merecidos, com certeza. Uma coisa que me chamou a atenção, de cara, foram as referências: o Valter Hugo Mãe se referindo ao Criatura como a banda mais importante de Portugal na atualidade, e o próprio César Lacerda, que eu tinha entrevistado recentemente por conta do lançamento de Década, e aí depois ele me falou “olha, tu tem que entrevistar esses caras” e fez a ponte, tanto é que estamos conversando aqui, agora. Como é que vocês se sentem com essa receptividade, deles e da imprensa internacional, como você está falando, com relação a esse primeiro trabalho de vocês em duo? E aí eu aproveito para perguntar se vocês pretendem dar continuidade ao trabalho enquanto dueto?
EV: Dueto é muito bom. Inicialmente o Aiê, na nossa perspectiva, durante algum tempo, era um projeto, mas mais perto do lançamento a gente teve uma visão de que não, porque a relação é de dois, só, eu acho que é quase uma metáfora para o mundo das relações, quando entra em modo casal, às vezes mergulha demasiado na energia de casal e depois esquece cada um de si, e da força que isso tem. E nós olhamos para isso e dissemos que a melhor forma de explicar o que é este encontro é apresentarmos aquilo que eu sou e aquilo que o Luiz é. Então, hoje em dia, em vez de criar outra página, outra coisa, que foi uma ideia que eu próprio causei mais resistência ao Luiz, que falava disso há mais tempo, mas é bastante melhor isso. Porque a forma como estamos a apresentar, as nossas egrégoras individuais para o mundo, e na soma delas também, aquilo e a importância que tem o que nós estamos fazendo em conjunto. Sobre a forma como está a ser recebido pela imprensa, pelo mundo lá fora, achamos que é maravilhoso. Há uma noção de que está tudo certo, o que nós estamos a fazer não pode ser, sabemos do nível da responsabilidade deste trabalho musical, que não pode ser pretensioso, então é só gratidão quando essas coisas começam a acontecer, porque realmente percebemos que a ressonância da música, como ela se comporta em nós, até outras partes do mundo, e nós estamos a falar sobre ancestralidade cruzada. E há tantos problemas, neste momento, no mundo, sobre as ancestralidades mal cruzadas e mal compreendidas, que de alguma forma se torna cada vez mais sensível aos olhos de qualquer sítio do mundo, compreendendo minimamente a história que existe entre Portugal e Brasil, como é que é possível chegarmos a um momento em que falamos o português de Portugal e português do Brasil, cantamos juntos, soa bem, e estamos juntos, a celebrar aquilo que diz respeito à cultura ancestral de cada um dos territórios e em si no conjunto. Por um lado não me surpreende que haja esse campo de ressonância, mas por outro lado é um alívio enorme sabermos que estamos a ser escutados neste rezo.
L: Acho que também tem uma coisa que eu vejo muito pelo lado bem artesanal do trabalho. Tem um lado que a gente sabe que está fazendo uma coisa com um grau de dedicação e profundidade que transcende até a música, quer dizer, é uma pesquisa que ressoa para outros territórios da nossa vida, e isso traz para o trabalho uma personalidade que eu acho que ressoa em quem também está interessado nessas coisas e posso dizer também que é bonito pensar que, por exemplo, esse disco tem um gesto muito interessante, é um disco em que existe uma referência muito ampla no campo da ancestralidade, mas existe uma referência também específica à ancestralidade afro-brasileira, essa coisa de termos quatro ou cinco canções que estão diretamente ligadas a essa cosmovisão com os orixás, as histórias desses orixás, as interações entre eles, e enfim, composições, tipo, tem essa figura do [cantor e compositor] Sérgio Pererê, que é um camarada de Belo Horizonte, um mestre da cultura afro-brasileira, um artista incrível, que trabalha isso na arte dele de várias formas, e aí a gente fez três músicas, eu e ele, que entraram nesse disco, é o “Odé”, o “Orunmilá” e o “Águas de Oxalá”, e tem também um canto tradicional da umbanda, que é o do “Obaluaê”, e uma composição do Gustavito [cantor e compositor mineiro], que é de “Exu”. Nós dois, quer dizer, o Edgar é português, eu sou brasileiro, nós dois somos brancos, o que a gente tem a ver com isso, teoricamente? Mas na verdade é justamente esse gesto de dizer: galera, isso é muito precioso, vamos estudar isso, vamos preservar, vamos olhar para isso, vamos recriar isso, e da perspectiva poética, quer dizer, é um estudo em cima desse grande campo poético dessas cosmovisões e como é que eles podem povoar o nosso imaginário, a nossa vida e ajudar a gente a viver, porque eles são parte de ecossistemas de conhecimentos muito preciosos, muito antigos, que sintetizam muita coisa e que estão sempre sendo ameaçados, nos últimos séculos eles foram ameaçados o tempo inteiro. No fundo é isso, é simplesmente um agradecimento. Por isso que a gente fala também essa coisa um pouco do disco ser uma espécie de oferenda, ou seja, é um agradecimento, um grande agradecimento a essa herança preciosa que nós temos de todos os que estiveram antes de nós e guardaram histórias e conhecimentos e cantos. Isso é o que a humanidade tem de mais bonito e que é uma chave para tantas coisas que a gente precisa nesse momento.
EV: É a valorização de um conhecimento que é marginalizado tantas vezes e que acontece como reflexo em tantas outras partes do mundo, inclusive aqui mesmo em Portugal, no Portugal pequenino, esse trabalho que eu já faço com a música de raiz aqui, por mais pequenino que seja, é dar valor a coisas que na autoestima da cultura portuguesa foram deixando de ser por Portugal, quando passou a fazer parte da Europa, a galera entrou só na coisa de cantar em inglês, porque tinham que ser bons a partir da perspectiva de ser como se faz lá fora, quase esquecendo o que existe aqui, com todas as heranças que existem nesse território também, a preciosidade que elas têm, e a forma como costuram as linhas da história, da ancestralidade, de tudo isso. Como eu dizia ao Luiz, existe esse respeito, essa consideração que nós temos por sabermos que estamos a mexer com uma egrégora afro-brasileira, da qual nós podíamos não ter nada a ver, não ter a coragem de querermos nos relacionar com ela, mas ao mesmo tempo olhar que, no final, onde nós estamos nesse momento no mundo, está tudo misturado, nós estamos misturados, tão misturados que, de alguma forma, se eu for tentar olhar para uma cultura que me parece muito distante e que eu diga: nunca vou perceber aquilo, mas se calhar, se eu for fazer teste de DNA, alguma parte da minha porcentagem já tem, na verdade, ancestralidade daquele sítio. Já está tudo muito misturado e é importante valorizar cada uma delas.
L: Puxando mais a corda desse assunto, porque esse assunto é interessante, para além da questão das heranças, digamos, das misturas genéticas mesmo, que realmente tem uma coisa que é cada vez mais esse lugar dessa mistura cósmica, humana, e numa cidade como Lisboa você desce a rua aqui e está num restaurante que ninguém fala português, que a galera é do Nepal, ou seja, essa presença do mundo na cidade, a África, a Ásia, o Brasil, são muito presentes, isso é uma coisa legal de referir, Lisboa é um lugar que, de certa forma, tem uma vocação histórica, ou teve uma vocação histórica, para abrigar esse grande conflito, esse grande caldeirão, essa grande bagunça, que na verdade é uma bagunça até relativamente harmônica, existe também isso na literatura sobre Lisboa, os convívios entre povos que eram tradicionalmente inimigos, e que aqui aconteciam de uma maneira especial e pacífica, sabe Deus por quê. E eu acho que é interessante, não deixa de ser uma reafirmação disso, lá na frente, de pensar que estamos falando de uma coisa que é cultura, cultura da humanidade e é valioso para todos e é simplesmente sobre isso no final das contas.
EV: Eu gostaria de acrescentar esse dado demográfico sobre Lisboa que, neste momento, um quarto da população residente em Lisboa é brasileira. Nesse momento, essa mistura, é só abrir os braços e aceitar essa união.

ZR: É um dado interessante, que eu realmente não tinha. Eu queria fazer uma reflexão, uma provocação, e saber se vocês concordam com isso. Quando a gente ouve o Aiê, o disco de vocês, uma coisa que chama a atenção, óbvio, é essa sobreposição de sotaques, o português do Brasil com o português de Portugal. Agora mais curioso ainda, porque o sotaque, tudo bem, qualquer artista brasileiro pode fazer dueto com um artista português e você vai chegar a isso que estou chamando de sobreposição de sotaques, não sei nem se não estou falando alguma bobagem. Mas o que é mais curioso é um português cantando sons que têm essa herança ancestral africana, têm esse pé no terreiro das religiões de matriz africana. Quando a gente pega, historicamente, por exemplo, a colonização portuguesa do Brasil, a catequização dos indígenas, a tentativa de dizer para um negro que um orixá não é uma divindade, que só vale cultuar um santo se for da igreja católica. Eu acho que vocês acabam fazendo uma reparação histórica na música. Vocês concordam com isso?
L: [risos] Eu acho uma leitura maravilhosa. Se metade das pessoas tiver essa generosidade, essa disponibilidade de ler por esse lado, a gente está feito. Porque no fundo aponta para isso mesmo, não que seja isso como uma intenção conceitual por trás, porque de fato não foi, e é isso que é louco. Quando também a gente se encontra nessa caminhada, digamos, que tem esse atravessamento do interesse pela matéria espiritual, mística, das religiões, das religiosidades, das experiências com plantas, eu tenho um trabalho, por exemplo, com os [indígenas] Huni Kuin, que eu trabalho já há cinco anos em conexão direta com alguns artistas indígenas e acabei trazendo isso na influência direta das coisas que eu faço por dentro, não é nem que você começa a falar daquilo na letra da música, então as coisas estão num grau de mistura que é muito endógeno, eu acho, quando a gente compartilha esse caminho, porque é um interesse por coisas que são muito amplas, se a gente for pensar, e quando a gente se aprofunda é claro que você vê que por um lado existe, digamos assim, a consciência da profundidade imensa, que é um conhecimento qualquer, de uma religião antiga, o que é, sei lá, se você for estudar o candomblé ou a umbanda, ou religiões mais antigas, o islamismo, o budismo, o judaísmo, tem tanto conhecimento, tem tanta coisa, tem os rezos, tem a poesia, tem a música, tem muita coisa na mistura, e a gente, eu acho até que a gente tem consciência de que a gente é neném nesse aprendizado, para falar de cultura afro-brasileira, quer dizer, definitivamente não é um disco orientado por uma coisa que é dentro de um conhecimento aprofundado do candomblé. O próprio Pererê fala isso: eu não sou do candomblé, mas eu sou nascido no meio disso. A casa dele, a mãe dele, Dona Fininha, para quem conhece, lá do [bairro] Glória, lá de Belo Horizonte, era uma figura que não era de terreiro, mas a casa dela era um terreiro, então o que é essa vivência para as pessoas que estão envolvidas nesse meio e o Brasil traz esse negócio na nossa cara. Eu fico imaginando que até um cara que seja um playboy do Leblon do Rio de Janeiro, que não sabe nada, ele liga a televisão, ele já tem uma informação diferente do que são as ressonâncias dessas culturas que habitam o Brasil. Eu acho que no fundo é essa tentativa de trazer essa reflexão e essa, digamos, reparação histórica, como você falou, através dessa liberdade da arte, da música, da poesia, da sensibilidade, de como a gente também trabalha e transforma essas histórias e esse conhecimento através da arte.
EV: E através da experiência. Como é que nós nos propomos, e aí é que está essa reparação, é porque nós realmente somos dois doidões que estamos dispostos para tentar descobrir um bocado, o que realmente a minha música ia fazer como propósito, como existência de vida. E no meu caso, falando desse português, que não pisou um terreiro ainda, diz respeito, porque nós aqui perdemos nos últimos séculos a ligação à ancestralidade, em geral, a noção de espiritualidade, de práticas espirituais, de rezar. A minha geração, ninguém vai à missa, em nível católico; eu digo ninguém, pronto, há várias pessoas, mas em geral é uma coisa que está perdida, não há nada com que se identifique, para realmente haver uma consciência sobre uma existência de algo maior. E acho que esse é o trabalho que nós aqui fazemos, e quando a gente fala destas entidades com que a gente senta, que estão por perto e trabalha, é só uma coisa que a gente se digna a confiar: confia, crê, não é só tu que vais tomar controle de como as coisas acontecem, confia que faz parte de um ecossistema, onde tu és essencial para fazeres a tua função, mas o resto vai acontecer e não vai ser tu que vai provocar que as coisas aconteçam como têm de ser. E nesse sentido, eu senti, desde o início desse processo, das músicas que foram chegando, através do Luiz, das composições com Pererê, que eu queria dar suporte, eu não sei por que, mas eu preciso dar suporte para isso. Isso está a vir a meu encontro, está a pedir, a chamar por mim, e eu preciso fazer isso, exatamente por essa valorização que é necessária. Eu ainda não conheci o Pererê pessoalmente, mas basta eu ver uma foto do Pererê, basta ouvir a voz dele num áudio com o Luiz, para eu dizer: esse cara é real pra caralho. E eu quero, eu confio, vamos! Logo vamos ver o que esta música vai magnetizar e trazer na minha vida na sequência. Esse disco está saindo agora e eu vou pela primeira vez ao Brasil, dois meses e meio, de janeiro a abril, eu vou estar no Brasil. Até rima! [risos].

ZR: Tomara que cheguem aqui em São Luís, terra do bumba meu boi, terra do tambor de crioula…
L: São Luís do Maranhão, vamos organizar. Nossa! Você sabe que eu sou fascinado com o boi, eu tive muitos amigos da UFMG, a galera que ia todos os anos, a galera da Unirio, a galera da música, que ia para pesquisar, tipo, eu sou fascinado com a rebarba que chegou em mim, mas eu nunca fui, eu ainda não estive no Maranhão. Aí o próximo disco nosso vai ser todo inspiração do boi do Maranhão [risos].

ZR: Ainda há pouco vocês falaram na branquitude, mas eu penso o seguinte: essa coisa do confiar, e o Edgar traz a questão de não ter visto ainda o Pererê, mas de confiar, de se sentir à vontade, e eu me pego pensando em coisas como: você não precisa ser homossexual para combater a homofobia, não precisa ser mulher para combater o feminicídio, não precisa ser negro para combater o racismo, não precisa ser indígena para combater o extermínio dos povos indígenas ou quilombolas e assim sucessivamente. A mesma coisa é: não precisa ser negro para ser candomblecista, umbandista ou macumbeiro, num enquadramento talvez reducionista. Um sentimento meu, ao ouvir o disco algumas vezes para preparar essa pauta e a gente conversar, quando vocês cantam esse repertório eu sinto, eu falei em reparação histórica há pouco, mas ele acaba também servindo talvez para tirar a gente do armário, porque eu acho que tem muita gente que venera os orixás, como tem muita gente que fuma maconha, como tem muita gente que faz um monte de coisas e tem vergonha de afirmar que faz aquilo, então faz aquilo escondido e aí quem quiser que lute em público, porque você está numa zona de conforto que tem medo de enfrentar o preconceito, a intolerância que ainda é muito forte. O que eu quero dizer com isso? É que do mesmo jeito que talvez esse encontro de vocês seja uma reparação histórica por tudo aquilo que a gente já falou, talvez ele sirva também para fazer com que as pessoas percam esse receio, essa vergonha, esse medo de se apropriar de uma coisa que é nossa, enfim, não tem mais ninguém puro, já está todo mundo com sangue de índio, de preto, de branco, então a gente é plural mesmo, quem quer que seja a gente, europeu, brasileiro, português, enfim, e nesse sentido, essa contribuição inestimável de vocês, para trazer mais gente para isso, para se sentir atravessado por essa energia, que ao mesmo tempo que é uma música com essa carga ancestral, quer dizer, uma música de culto, nesse sentido, mas ela é também uma música de pista, para você dançar, para você ouvir no rádio. Quero ouvir um pouco de vocês sobre isso: vocês já disseram que não teve uma intenção, que a coisa meio que aconteceu por acaso, mas ouvir um pouco vocês sobre esses atravessamentos, vamos chamar assim.
L: Eu acho que volta mais uma vez nesse interesse pela matéria espiritual, na nossa pesquisa de vida e de arte, ou seja, quando isso está ativado, eu acho que existe uma curiosidade que de alguma maneira ela puxa você para começar também a tentar entender as ressonâncias em sistemas culturais que são de partes diferentes do globo terrestre. Isso é uma coisa que quem é da macumba, quem é do axé sabe também, tem um nome aqui, ali tem outro nome, mas é meio que a mesma coisa, ou não é mesma coisa, ou seja, as energias se manifestam, os conhecimentos espirituais, ancestrais, guardam sistemas de nomes, de definições sobre essas energias, mas existe um lugar onde essas coisas se encontram, e aí quem está nessa pesquisa, nessa curiosidade, cada um à sua maneira, o Edgar estava partilhando essa coisa da falta de referências de Portugal em relação à própria ancestralidade e é uma coisa muito louca mesmo, porque é um negócio que a gente, no Brasil, tem a experiência quase oposta, mesmo sendo um país de 500 anos, quer dizer, o que brotou ali brotou tão forte e é uma referência que está tão popular, quer dizer, esse catolicismo brasileiro, por exemplo, que é tipo, não vai na missa, mas vai no terreiro, vai na benzedeira, é um negócio meio misturado, o Brasil criou formas de se manifestar espiritualmente com esses mundos de um jeito muito particular. Eu acho interessante essa colocação que você faz, para a gente sair do armário, como se fosse, que é nesse sentido, cara, isso é nosso, é tudo de todos e depende muito mais da forma como você faz, entendeu? E como que você traz a ressonância das alianças reais, e quando eu digo reais, eu digo com as pessoas, mas até com as energias, vamos dizer assim, as alianças reais que têm, dando suporte ou apoiando o entorno do surgimento daquele trabalho e eu acho que isso é um lugar que a gente trabalha aí, a gente dedica energia para isso. No fundo, talvez, essa seja uma das chaves que eu acho que faz com que ele possa ser uma provocação saudável, nesse sentido, sabe? Não é sobre você ir num trabalho de ayahuasca e postar uma foto no instagram sendo que você só foi lá uma vez, mas se você tem um trabalho ali com a galera, se você está apoiando, se você está perto, se você faz parte daquilo no seu dia a dia, o que quer que seja, pode ser as cantadeiras lá do [Campo do] Gerês [freguesia portuguesa] ou pode o Sérgio Pererê e os terreiros, o terreiro da Dona Isabel de Belo Horizonte, ou sei lá o quê, não interessa o que é, mas é estar conectado a isso, é fazer parte disso na vida, e não na foto, entendeu? [risos].
EV: Eu acho que o fato de nós conseguirmos estar a fim, e nos darmos esse disco, e nos transformarmos nesta música, é porque nós chegamos num ponto em que as relações reais da nossa vida, com algumas dessas egrégoras com as quais estamos a trabalhar, nem todas, mas em geral o reflexo disso. Quando estavas a falar sobre o sair do armário, a coisa que me vem à cabeça tem a ver com o próprio preconceito que existe com a própria espiritualidade, pelo menos da minha perspectiva cultural, aqui. É quase um tabu. Falar a palavra rezo para algumas pessoas é quase um tabu. Essa saída do armário, é difícil dizer assim: eu não sei bem quem são os meus deuses, mas eu estou buscando, eu preciso entrar nessa pesquisa. É uma coisa que muitas pessoas começam meio a apontar o dedo, coisinha sensível, mas lá no fundo, há sempre um momento qualquer na vida, ou vários, que todas as pessoas atravessam, que têm que olhar e agarrar os seus santos e rezar e pedir um milagre.
L: Vou fazer um parêntese de uma coisa que eu ouvi esses dias que eu achei muito interessante. Eu já vou fazer uma conexão, esticando muito a corda: a [artista visual] Daiara Tukano lançou uma coisa assim, há uns meses no instagram, falando que português é língua indígena. O que eu acho uma discussão maravilhosa, eu não me aprofundei no que ela disse além disso, mas essa provocação conceitual dela é maravilhosa, a Daiara Tukano é uma artista indígena, filha do Álvaro Tukano, enfim, uma artista da arte contemporânea indígena do Brasil, das mais importantes que tem agora, e quando ela fala isso, eu sinto, é tipo os áudios dos Txai, que eles mandam, “a jiboia passa por cima, a jiboia passa por baixo”, os caras se apropriaram do português, os Huni Kuin, no caso, que eu estou falando, com quem eu tenho esse contato mais próximo, se apropriaram do português, e mandam áudio de whatsapp falando uma coisa que você entende tudo, mas que ele falou de um jeito completamente diferente, é um negócio completamente poético, é uma abordagem da língua como se ela fosse uma cerâmica, é um negócio artístico já na sua manifestação. E aí eu estou falando isso, o português é língua indígena, mas a ancestralidade afro-brasileira também é tuga [corruptela de portuga, por sua vez corruptela de português], entendeu? Nesse sentido também pode ser portuguesa, eles aqui podem se apropriar disso e isso pode ser uma referência das ancestralidades que também pertencem, que também estão enleadas, à história desse território. É isso que eu acho muito interessante, algum tuga falou isso, acho que era sobre a roda de santo, que é um projeto que tem aqui em Lisboa, inclusive do [cantor e compositor] Alvinho Lancelotti, irmão do Domenico [Lancellotti, cantor, compositor e multi-instrumentista], ele mora aqui em Lisboa, e ele tem um projeto que é a roda de santo, que é um show, que é uma gira de pontos de umbanda e é um show, entendeu? Sem harmonia, igual terreiro de umbanda: agogô, atabaque, voz, mais nada. E a galera pira e bomba e o povo vai em todos, todos esgotados, a galera portuguesa chorando, canta pra Oxum a galera chora, canta pra Iemanjá a galera chora, entendeu? Claro que, por exemplo, na internet, no Brasil, tem uma coisa muito desse preconceito, do tabu sobre a espiritualidade, agora está muito na moda esse negócio no Brasil, de zoar o jovem místico [risos], que é um negócio que de fato é engraçado e tem algumas coisas que tem que zoar mesmo, mas por outro lado é um preconceito também com essa coisa de falar, cara, isso é de todo mundo, tipo por quê que a vovó, a titia portuguesa lá, de 50 anos, que trabalha no caixa de supermercado não pode se conectar pra caralho com a parada da umbanda, sendo que ela nunca foi num terreiro, mas aquela música faz ela chorar, então a gente está falando de coisas que também entram no campo do mistério e aí que é o negócio.
EV: E especificamente como é que a música traduz essas mesmas coisas? Eu vou dar um exemplo que é o seguinte: eu ainda não estive no Brasil, mas já viajei ao Peru, já senti o que é a América Latina, quase dois meses de viagem sozinho para o Peru, em 2016, e eu de repente, obra do destino, vou até El Carmen, em Chincha, onde estão os afro-peruanos, a família Ballumbrosio, e vou ter com eles, uma família de 20 irmãos e irmãs, todos filhos de um sapateiro e violinista [Amador Ballumbrosio Mosquera, o Champita], que trouxeram muitos dos ritmos afro-peruanos para lá, e no momento em que eu chego lá, a música deles, começo a ouvir, começamos a jamar [o neologismo vem de jam, sigla de jazz after midnight, reunião informal de músicos], a tocar juntos, eu a cantar coisas da Beira Baixa [província na região central de Portugal], da minha região aqui, e começamos a sentir uma cena de qualquer coisa que se cruzava ali, muito, era muito familiar, e no desvendar da conversa, eu venho a perceber que na descendência dos afro-peruanos lá vinham rituais como Angola, Moçambique, Suazilândia, que é ao lado de Moçambique. A verdade é essa: eu até posso ser, eu realmente sou branco, mas minha mãe nasceu em Angola, a minha família viveu 20 anos em Angola. Em Portugal esta é uma realidade que existe para muita gente, mas por causa da Guerra do Ultramar [a Guerra Colonial Portuguesa (1961-1974)], depois dos retornados, há muita gente que volta de Angola para cá, e há muitos da minha geração que são filhos de pais nascidos em Angola ou de pais portugueses que migraram para Angola pela guerra e retornaram, eu sou um desses casos, então na minha família e no meu sangue está também essa presença africana, e esse mistério de repente é desvendado dizendo assim: a música que traz a mensagem e o que me faz descortinar o mistério é perceber, mas vocês vieram de onde? Vieram do mesmo território onde minha mãe nasceu. É isso. Está tudo misturado, “a jiboia passa por cima, passa por baixo”, enleia todos e não para de crescer. Só acrescentar uma coisa lá atrás: quando nós estamos a falar das mitologias que estamos a trazer, são cosmovisões.
L: Cosmovisões é uma palavra melhor, porque mitologias…
EV: Exatamente. Mas as diferentes mitologias que existem, todas elas partem de cosmovisões, é uma visão cósmica, uma visão que não contempla só as características que a concebem, mas uma ideia de uma cosmovisão geral, todavia, com a tendência a projetarmos figuras mais similares a quem está a conceber essa cosmovisão, toda a parte que foi concebida, os orixás, todas as figuras são mais negras, mas tu vais para outros sítios, onde as cosmovisões têm as características, na Grécia Antiga, dos deuses gregos, como eram, mas de alguma forma, é visão, é importante, o lugar delas é universal, e às vezes a gente tende a esquecer isso e este universal, no caso, é o que nos interessa, é descobrir quais são essas entidades que nos cruzam e cruzam com a universalidade. No final, estamos a falar de uma coisa só, que é o oneness [união], é o que o [cantor e compositor jamaicano] Bob Marley fala: “one love”, é tipo, oneness, é ver a terra de um sítio de fora, de onde o [psiquiatra suíço] Carl Jung [1875-1961] viu e dizer assim: no final é só aquele pontinho e ali está todo mundo junto.

ZR: Eu não sei como é a realidade em Portugal, mas aqui no Brasil a gente virou a chave agora, de um período muito trevoso na política, de retrocessos, de neofascismo, de destruição sistemática de políticas públicas, sobretudo no campo da cultura, e também de violência contra terreiros de matriz africanas e seus representantes. Como é que vocês têm acompanhado este noticiário? As coisas mudam um pouco de figura, com a derrota de Bolsonaro, o retorno de Lula, enfim, mas ainda acontece, infelizmente. Vocês têm acompanhado esse noticiário?
L: Vou te falar na sinceridade: eu acho que aqui em Portugal ninguém sabe de nada disso, isso não está no noticiário, porque a pauta internacional e a pauta do Brasil que chega é muito reduzida, porque na verdade tem essa coisa, em Portugal a cultura de terreiro é um mistério, as pessoas não sabem o que é, porque elas não têm aqui. Agora já tem alguns, na verdade, tem brasileiros aqui que estão fazendo terreiros, que tem giras e tal, mas é um coisa ainda bem inicial, talvez daqui a algumas décadas já exista um ecossistema aqui, como a gente sabe que tem no Brasil. Eu, assim, que tenho um atravessamento na minha vida com um terreiro de Belo Horizonte, eu tenho uma ligação especial a essa casa, apesar de, enfim, eu moro em Lisboa, não frequento mais as giras, mas eu tenho uma ligação com essa casa, o que eu acompanho é a realidade deles, que é sempre um perrengue, é sempre uma luta, é sempre uma resistência, e a rede de suporte que está conectada está ali sempre segurando, está mandando um dinheiro, comprando uma rifa, compartilhando um negócio, mandando, ajudando uma ponte, eles vivem dessa força também de quem sabe que o trabalho que eles estão fazendo é muito importante e precisa ser sustentado, basicamente. O que eu sinto em relação à permanência disso no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, na verdade, é uma coisa que está agora se manifestando também com essa guerra, que está estourando no Oriente Médio, e outras guerras que estão por aí, sempre com alguma espécie de justificativa no final, que é uma justificativa de olhar o outro como algo que não é, como é que eu posso dizer isso, essencialmente igual a nós, ou seja, é perder essa dimensão do oneness da qual o Edgar está falando, e olhar o outro, seja ele asiático ou negro ou aborígene australiano ou Huni Kuin ou branco ou, olhar esse outro como algo que não ressoa dentro do que nós somos todos nessa experiência nesse planeta. E aí é que está o grande problema, que é o negócio que o bolsonarismo e essas ideologias todas, extremistas, estúpidas, elas apontam o barco para esse lugar, não sei se por uma falta de sensibilidade mesmo ou por um sadismo, qual é o parafuso que falta nessa gente, mas é uma coisa incompreensível para nossa perspectiva, então por isso que também essa coisa do rezo, essa coisa de olhar para todo esse ecossistema e todo esse contexto de uma perspectiva também espiritual e tentar trabalhar, tentar acionar essas teias e mobilizar apoio, principalmente para quem está mais avançado nessa pesquisa. A verdade é essa: nosso disco, nosso trabalho, é como você disse, é para as pessoas saírem do armário, para as pessoas se sensibilizarem e aceitarem que está tudo bem, que isso ajuda a gente a viver e vamos nessa, isso é nosso, mas quem está segurando o BO [boletim de ocorrência] mesmo é o cara que está lá trabalhando no terreiro, fazendo a gira para 15 pessoas de graça, atendendo gente, segurando uns BOs sem tamanho, e a gente conhece, eu conheço a realidade desse terreiro, aqui, é essa desde sempre e vai continuar sendo, ou seja, é um trabalho que é uma noção de serviço, no final das contas, que essas pessoas fazem. E é honrar isso, agradecer isso, dar apoio para isso, fazer parte disso de alguma forma. Eu acho que no fundo é sobre essa vontade também.
EV: Só pontuar várias coisas do que o Luiz também falou: essa coisa de não vermos o outro também como sendo nós, é este conceito da alteridade, que é muito importante, a gente bateu muito com essa identidade, mas este conceito de identidade, por si só, é um problema constante, porque identidade nunca se materializa verdadeiramente, nunca é uma coisa que se cristaliza, ela está sempre em transmutação no tempo e no espaço, então na verdade a alteridade é uma coisa que, nós próprios, eu amanhã vou ser outro, então vale muito mais tentar trabalhar a minha alteridade do que trabalhar a minha identidade e isto é uma coisa, é esse parafuso que muitas vezes falta, como se reeducam as pessoas nesse sentido? Como sendo o outro és tu, essa coisa. Depois a gente também tem uma coisa que o Luiz estava falando e da tua questão, realmente aqui em Portugal, neste momento com todo o espaço midiático ocupado por tudo o que está acontecendo no Oriente Médio, antes disso a guerra Ucrânia-Rússia, e por aí afora, não tem havido assim um espaço tão grande para perceber como está o Brasil; todavia o fato de a população brasileira crescer tanto torna inevitável o Brasil ser um assunto constante para a gente; nesse sentido, mesmo tendo tido grandes repercussões quando veio cá, por exemplo, no último 25 de abril [aniversário da Revolução dos Cravos, ocorrida em 1974], a vinda do Lula foi uma coisa enorme, o que aconteceu; o fato de a vinda do Lula ter os protestos do Chega, que é o partido de extrema-direita aqui de Portugal, os protestos anti-Lula acontecerem à porta da Assembleia [da República, órgão legislativo português] num dia que costuma ser uma celebração pacífica do 25 de abril, entrarem em choque com isso, e eu sei disso porque o Coro dos Anjos, que eu fundei, sou o regente, estava atuando na celebração oficial do 25 de abril e foi tenebroso ver essa energia entrar, ao mesmo tempo tendo um Chico Buarque [cantor, compositor e escritor] a receber o Prêmio Camões pelas mãos do Lula, que teria sido entregue pelo Bolsonaro e não foi porque ele não quis, mas toda essa dimensão do que está acontecendo nesse sentido cultural é muito forte. Essa destruição dos terreiros, essa coisa que está acontecendo deste lado, aqui, o reflexo que eu sinto que ainda existe e vai continuar a existir durante muito tempo, e que está a reavivar na memória do povo daqui vai render para a caça às bruxas. Porque a lenda está presente e porque as mulheres estão a empoderar-se muito, então é trazer novamente e lembrar a força da bruxa, a força da boa bruxaria, quem tem o poder realmente de comunicar com o invisível e fazer também coisas acontecerem, coisas se manifestarem. Isso sempre foi um problema enorme para quem governa as nações.
L: A inquisição é outra parada muito forte, a gente está, Portugal e Espanha, mas acho que até mais Portugal, a inquisição foi um negócio muito forte. E também é, de certa forma, se a gente for puxar essa corda, é um dos lugares de apagamento que rolou do conhecimento que as mulheres guardavam, muitas coisas que estavam nas mãos dessas bruxas. Quem são essas bruxas?, é isso que foi apagado.
EV: Isso representa tanta coisa nesse território, que precisa ser acordado, e depois vamos ver, sabe?, é muito curioso, olhar para isso e quando há esta relação Portugal-Brasil há esta ideia de um território que é colonizador sobre o outro, mas depois vais ver que o território de Portugal é um território que foi tantas vezes já colonizado e que não deixa de continuar a ser, o fato de se tornar europeu de uma forma colonizada nos dias que correm, do fato de Lisboa e Porto serem centros turísticos tornados museus ultimamente, onde a gentrificação, a malta em Portugal não tem como viver neste momento quase, com as rendas que existem, isso tudo faz parte de um processo de colonização que é muito maior e que está a acontecer constantemente a toda hora e esta caça às bruxas vem de conhecimentos ancestrais que derivaram de diversos povos que aqui se concentraram e que foram passando conhecimentos, que alguns deles fundiram, e que de repente Portugal é um ponto de passagem que passa e que leva gente de um sítio para outro no mundo, infelizmente não das melhores formas, mas é impressionante como é que isso aqui mexe conosco neste momento de uma ressonância tal, como é que o que está a acontecer na Amazônia continua a ter uma ressonância verdadeiramente de coração, com tanta gente aqui, sabe? É impressionante.

ZR: Voltando a Aiê, não que a gente tenha saído, porque eu acho que tudo isso atravessa, mas como é que está a agenda de lançamentos do álbum, shows, inclusive para futuro, essa vinda ao Brasil, como é que está essa negociação de datas?
L: Agora a gente tirou da frente esse grande monstro que era o chefão da fase um, que era esse show de lançamento, que foi ontem [esta entrevista foi concedida em outubro passado], a gente está inclusive muito impactado ainda, essa entrevista hoje é muito engraçada, porque eu acho que nós dois estamos muito emocionados, porque também ontem foi uma descarga de energia muito louca, a gente fez um concerto aqui no Teatro da Trindade lotado praticamente, numa terça-feira à noite, com chuva, presenças assim muito importantes, pessoas muito importantes ligadas também à música brasileira, à música africana, à música portuguesa, porque também Lisboa tem esse negócio de que é um caldeirãozinho de encontros de artistas desses três lugares, vamos dizer assim, África, Brasil e Portugal muito forte, Lisboa é um lugar que tem muitas pessoas que estão aqui, principalmente da música, mas produzindo arte, e ontem foi particularmente um público, não era só um público que encheu o teatro, mas era um público de pessoas muito específicas, então ver a ressonância do trabalho, aonde que ele está batendo, quais são os reflexos disso, foi muito impactante, eu acho que a gente está muito nessa energia ainda. Mas a gente está construindo devagar, porque também é isso, como tudo no projeto, é uma coisa que vai acontecendo a partir da nossa própria demanda e da demanda do universo por ela também, que é tipo isso, a gente agora quer fazer, vamos ter outras coisas agora, esse mês, esse próximo mês, cada um vai fazer outras coisas, a gente se encontra por acaso em Berlim, provavelmente devemos fazer um concerto lá que ainda não está marcado, temos que marcar, um concerto de apresentação também um pouco com esse argumento do álbum, mas só nós, os dois, no formato sem banda, porque temos essa label [Ajabu!], que é uma label sueco-alemã, que é meio baseada em Berlim, meio em Malmö [cidade sueca], enfim, esse cara, o Pether [Lindgren, diretor artístico da Ajabu!], é um cara que está lá em Berlim, tem um escritório lá, estamos construindo com ele essa possibilidade de fazer um concerto pequeno lá, de apresentação, com o mote do disco, e na volta, em Portugal, no final do mês de novembro, início do mês de dezembro, vamos correr algumas datas também nesse campo de do in antropológico, como dizia o [cantor e compositor] Gilberto Gil no Ministério da Cultura, que é essa coisa de ir fazer os lugares, ativar as comunidades, um pouco por fora do circuito mais oficial, nós mesmos fazendo isso acontecer, também direcionando para comunidades que a gente sabe que estão mais conectados a essas pautas também, que é uma coisa que acaba que ressoa muito também, ou seja, a maneira como o trabalho se desenvolve também tem a ver com alimentar essas comunidades desse tipo de energia, de conteúdo, de arte, de reflexão. É isso, pro final do ano é meio isso que nós temos, acho que pro ano que vem a gente vai fazer mais coisas, queremos voltar a fazer coisas com o formato banda, e no Brasil também é isso, não temos nada marcado ainda, mas a gente está a fim de construir algumas situações para levar esse trabalho para o Brasil, porque naturalmente isso vai acontecer, não tem como não acontecer.
EV: A ideia é essa e só acrescentando, sobre ontem, o que se passou aqui, é importante dizer como um dado, um disco que saiu há pouco mais de uma semana, nem duas, de repente em Lisboa em outubro, numa noite de chuva, 400 e tantas pessoas num teatro presenciando isso que está a acontecer e toda a energia que foi movida, as pessoas, a egrégora que está junta, nós dois, mais a banda que é composta por dois percussionistas, um brasileiro, o outro português-angolano, um baixista cabo-verdiano-português, e também depois o Coro dos Anjos, que faz parte também de toda essa história que nós estamos também a tecer aqui juntos, também juntar-se, o Gil Dionísio, que vem da parte também do Criatura, o Gustavito que vem dessa relação toda também, que já vem com o Luiz, ou seja, foi mesmo uma grande celebração de uma aliança a muitos níveis e foi muito forte, energeticamente, o que aconteceu para nós, para o público, havia gente depois a dizer que parecia que tinha saído do osteopata, por se sentir tão mexido por dentro, que realmente foi mexido a sério mesmo e o que aconteceu ontem acho que vai reverberar e acho que vai fazer com que várias coisas possam acontecer daqui em diante. Nós estamos com estas datas e a vontade de ir no interior do país, de Portugal, por vários sítios juntos, há também possibilidade de ainda este ano fazermos mais concertos com essa formação de banda, queremos muito fazer render, porque é uma banda incrível mesmo, de groove, é incrível e todo o trabalho que pusemos para levantar este show também merece ser dada continuidade. Brasil, como disse o Luiz, estou aí, contem comigo, estou super disponível.
L: Alô, Brasil, contem com ele [risos].

ZR: Contem com vocês! Para terminar, é uma coisa que eu sempre comento e sempre lamento, que é o seguinte fato: o Brasil ouve muito pouco a música de seus vizinhos sul-americanos, é mais fácil a gente ouvir rock inglês ou americano do que a gente ouvir música paraguaia, argentina, uruguaia, enfim, e eu sinto algo parecido também na nossa relação com Portugal. Me parece, eu posso estar enganado, que Portugal conhece muito a música brasileira, inclusive tem vários artistas brasileiros morando aí, vocês falaram do Alvinho, tem a Bárbara Eugênia, e acho que Portugal consome bem música brasileira, mas a recíproca não é verdadeira: o Brasil ouve pouco música portuguesa. A gente conhece [a cantora] Carminho, [os cantores e compositores] Antonio Zambujo, Sérgio Godinho, uma coisa ou outra. Nesse sentido, eu queria saber de vocês o seguinte, tanto em se tratando de música brasileira quanto de música portuguesa, eu queria ouvi-los sobre influências, aquilo que formou vocês como músicos, e também sobre novos nomes que chamam a atenção.
L: Eu posso falar como brasileiro que frequenta Portugal há 13 anos e na condição de morador há uns quatro anos, pelo menos, que de fato esse lance da cena musical portuguesa, eu não diria nem portuguesa, mas que acontece em Portugal, isso também é uma coisa interessante de pensar, como Lisboa principalmente, mas Portugal de forma geral, se tornou um destino de muitas diásporas retrocoloniais, digamos assim, ou seja, esse caso que o Edgar estava falando, Angola, Moçambique, os cabo-verdianos, os brasileiros que estão aqui, enfim, existe uma música que se produz aqui hoje que é muito misturada, é muito crioula, como se diz, é muito mestiça, o crioulo dentro dessa ideia de mistura mesmo, e não por acaso, muitos dos artistas, até mais populares de Portugal, nesse momento, em termos de números, são artistas afro-portugueses, que têm família cabo-verdiana, ou que são de Cabo Verde mas moram aqui, então tem essa coisa de que aqui, para além do próprio território, e dos, digamos, portugueses originários desse território, tem uma diáspora muito grande e eu acho que isso é muito interessante na música, como aqui se manifesta, porque Portugal parece que está com as antenas apontadas para o mundo há muito tempo também, ou seja, existe já uma presença de tantos povos por aqui há tanto tempo, que isso fez com que se desenvolvesse aqui uma espécie de atenção e abertura para muitas coisas, de uma maneira eu diria até meio parecida com o Brasil, nesse sentido, de processamento de muitas coisas dentro da manifestação musical. Claro que isso mais recentemente fica mais visível, por exemplo, nos cruzamentos até com a canção popular brasileira, muitos artistas que hoje são compositores de canção em português, artistas, por exemplo, que cantam em português daqui, mas que tem muita influência claramente da música brasileira, mas que reprocessam isso de um jeito muito especial. Por exemplo, se eu for dizer um artista português fora da nossa [interrompe-se], porque enfim, tem o Criatura, tem as bandas do Edgar, que obviamente eu acho que todos têm que conhecer [risos], e os meus outros trabalhos também, todos têm que conhecer para entender melhor essa história, mas para dizer alguém de fora do nosso círculo, eu diria que tem um grupo que é o Cordel, que é o João Pires e o Edu Mundo, são dois compositores que compõem canções mas que você sente ali uma coisa da música popular brasileira atravessando o que eles fazem, mas de um jeito muito diferente, porque não é aquela coisa de o cara cantar emulando o português do Brasil, não tem nada a ver com isso, mas tem a ver com as harmonias, com o jeito de fazer, e não só da música brasileira, claramente também da música portuguesa tradicional, da música africana, são coisas que estão muito presentes nesses caras, por exemplo, quando a gente vai pensar no Zeca Afonso [(1929-1987), cantor e compositor português], que é uma referência inevitável, eu acho, para mim, pelo menos na música popular portuguesa, que é um cara muito historicamente ligado à música de intervenção, então as pessoas associam muito ele ao 25 de abril, pelo teor político e formador das coisas que ele cantava, mas era um puta artista também, era um cara que artisticamente tinha uma visão muito avançada e estava usando coisas de ritmos africanos lá atrás, quando ninguém pensava nisso ainda aqui, e ao mesmo tempo é um cara que tem um pé no fado de Coimbra, tem um pé em outras coisas, ou seja, essas misturas são muito interessantes, as que aconteceram desse lado daqui. Esse grupo, por exemplo, o Cordel, eu acho que é um negócio interessante de dizer, falando mais desse aspecto da canção mesmo, da composição, e não sei assim, o Zeca, para mim é uma referência importante de música portuguesa mais antiga, que está presente, sim, eu acho, nas influências nossas para esse álbum, de alguma maneira, mesmo que de forma mais espiritual até do que musical, talvez, porque tem a ver com esse gesto também de olhar em direção às coisas e as tradições e abraçá-las e devotar amor para elas e acho que o Zeca era um cara que tinha muito amor pelas coisas que ele cantava e isso está presente também. E de música brasileira aí é muita coisa que a gente pode falar, eu fui criado, graças a Deus, numa casa com muita referência, com muita pesquisa musical, e sou muito grato à oportunidade de ter acesso a essas coisas que sempre vão se ampliando. Eu acho que para esse disco assim, teve uma referência que a gente achou, obviamente, que agora está muito na modinha, mas na época nem estava tanto ainda [risos], que é Os Tincoãs, que é um grupo incrível de música afro-brasileira com toda essa bagagem do conhecimento dessa cosmovisão e dos cantos e dos rezos, que sem dúvida em relação até ao trabalho de harmonias vocais também é uma influência pra gente. Não por acaso seu Mateus Aleluia, que inclusive está aqui em Portugal agora nesse momento, que é o remanescente que está na ativa dOs Tincoãs, alguns anos atrás ele gravou, ele participou de uma gravação do “Águas de Oxalá”, que é uma música que está no nosso disco, que é uma parceria minha com o Pererê, uma menina de Sergipe, uma cantora chamada Héloa, registrou essa música e convidou o seu Mateus para cantar. É muito doido que até isso no fio louco da história toda nos liga e é mais uma bênção, mais um presente nessas sincronicidades bonitas com esse repertório, com esse trabalho.
EV: Até mesmo o [baterista e produtor] Juninho Ibituruna, um dos nossos percussionistas do concerto de ontem, dois dias antes veio aqui, foi também o percussionista e baterista do Mateus Aleluia, no concerto que ele deu em Portugal, em Coimbra, agora neste fim de semana que passou, então já vem trazendo a poeira aqui para perto de nós. Aqui do meu lado também, mais referências indo lá atrás, primeiro, como disse o Luiz, o Zeca Afonso é incontornável, e também quem estava com ele nessa altura, o José Mario Branco é incontornável, o Fausto Bordalo Dias [cantores e compositores] também é incontornável por perceber esta narrativa que existiu na música popular portuguesa nesses anos gloriosos que foram também os anos 70, 60, vêm muito exatamente também, parece que há mesmo quando existe aquela emergência do artista pela necessidade mesmo de existir, e vêm com tudo. O Zeca para mim foi uma das primeiras pessoas a fazer quase esta espécie da ideia de lógica de world music em Portugal, mas muito bem decantada, muito bem peneirada, que realmente interessava na relação realmente ancestral que faz sentido enraizar aqui.
L: Era um bruxo, o cara era um bruxo, um bruxão, vale a pena mesmo.
EV: Vale a pena todos os discos do Zeca ou uma boa parte das coisas. Ele é essencial nesse sentido. Há várias outras coisas no percurso que vem a acontecer, mas dando um salto para também não encher demasiado, eu quero deixar-te aqui, assim, quais são os projetos que eu faço parte, porque nesta parte aqui do trabalho com a ancestralidade e renovação, ressignificação, Criatura e Bandua, Criatura é uma banda misturando tudo, trazendo tudo e muito através da palavra adaptado ao contexto social atual; o Bandua já traz uma proposta que é da fusão da tradição e de eletrônica, e curiosamente meu companheiro de Bandua, que é um duo mesmo, eu e o Bernardo Addario, é luso-brasileiro, é descendente de brasileiro também. E além disso, aqui nesse momento, se eu pudesse enumerar artistas que eu acho que estão a ser muito importantes naquilo que estão a fazer, eu diria A Garota Não [nome artístico da cantora e compositora portuguesa Cátia Mazari Oliveira], é foda, e está a trazer essa coisa do artivismo, a acontecer em tempo real, é incrível, subir assim de dia para dia, de semana para semana, no imediatismo que começa a ter, semana passada ganhou um Globo de Ouro [na categoria melhor intérprete de música], que enfim, daquelas coisas, prêmio de televisão, mas foi lá receber e fez um discurso incrível que ficou assim estampado em toda manchete no dia seguinte, é uma pessoa muito importante. E além disso, como estava a falar o Luiz, na egrégora que existe também dessas diásporas, muito a ver também com a descendência e com a relação com a África, é incontornável enumerar o [músico e compositor] Dino d’Santiago, que está há alguns anos por aqui, e se tornou uma espécie de embaixador quase, de muitas coisas de movimentos essenciais a acontecerem, da palavra sempre no momento certo, sem dúvida esta referência e tem também uma referência que eu posso dizer daquela música ousada, do artista ousado que está aqui a remexer coisas também importantes que é o [cantor, compositor e produtor] Conan Osiris, que eu não sei se já chegou aí, mas é importante também buscar o Conan, que é um artista muito importante neste momento. Há vários outros que eu poderia mencionar. Se eu fosse o Valter Hugo Mãe eu teria dito Criatura, mas eu não vou dizer, mas quem sabe, sabe.

ZR: Ele já disse. E basta.
L: Eu acho que esse contexto é legal, de dar, porque essa coisa que o Valter Hugo Mãe fala, de fato é verdade, não é um exagero ele dizer isso, e inclusive eu já digo isso há alguns anos, só que eu não sou o Valter Hugo Mãe [risos], mas é isso, o Criatura é a banda mais importante, não é nem uma questão de falar só da questão artística, da música, do show, o show do Criatura é um negócio explosivo, tem várias dimensões que a gente pode enumerar, mas existe essa coisa do gesto artístico do Criatura, que é muito potente, que ele simboliza, ele sintetiza, de certa forma, uma vontade geracional, eu acho, os portugueses que perderam os deuses, entendeu? Uma das músicas, inclusive, a música de abertura de muitos concertos, que é “Anunciação”, tem essa frase, tem essa pergunta, que é [os versos] “rezai por nós/ que a gente já não sabe/ como se fazia antigamente/ pra falar com quem não mora cá/ com o lado de lá”. Essa é a pergunta, na verdade, que é uma pergunta geracional, então é muito interessante ver como é que isso se encontra com todo tema do que nós estamos conversando. Ontem, por exemplo, o concerto, mais uma vez, não é por acaso que é o Edgar do Criatura, é isso, é a sincronicidade do texto que precisa ser dito e nós somos só aqui os fantoches ajudando a história a acontecer para esse lado, ou seja, empurrando a carroça para esse lado, que é tipo um atravessamento da nossa vida, do nosso sentimento, do nosso coração.

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Ouça “Aiê”:

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