Cena de "Mães Paralelas", de Pedro Almodóvar
Cena de "Mães Paralelas", de Pedro Almodóvar - Foto: Divulgação

Mães Paralelas é uma história sobre a busca da verdade. Pedro Almodóvar produziu um filme político, mas sem abandonar sua assinatura de contar dramas que giram em torno de mulheres emblemáticas. O novo longa do cineasta espanhol pode frustrar tanto quem espera comédia e encontra tragédia quanto quem torce por uma narrativa lacradora para qualquer direção que fosse. Almodóvar não defende sentenciar ninguém, a priori, mas busca pela justiça que só a verdade poderá trazer.

É possível reduzir – e até criticar/condenar – Mães Paralelas como duas histórias em uma, ambas mal contadas. Almodóvar trata das milhares de cicatrizes deixadas pela Guerra Civil Espanhola e pelo aterrorizante passado fascista que permanece vivo em seu país. E elas são representadas por milhares de mulheres que perderam seus companheiros para a batalha sangrenta e se tornaram viúvas e mães solteiras. Elas não tiveram outra escolha a não ser seguir em frente. Essa é a história de fundo, mas não a única. A trama envolve Janis (Penélope Cruz), uma estilosa fotógrafa de uns 30 anos, que tem sua história cruzada com Ana (Milena Smit), uma jovem adolescente que está cru para o mundo.

Janis e Ana estão grávidas e serão mães solteiras, a primeira ciente de sua situação e a segunda insegura sobre o dia seguinte. Elas se encontram no hospital, prestes a ter seus filhos, e Almodóvar cria um ambiente favorável para que elas se conectem de imediato. O pai do filho de Janis é Arturo (Israel Elejalde), um antropólogo que investiga o caso vítimas do franquismo na Espanha. Muitos foram enterrados em valas comuns e até hoje não foram encontrados. A protagonista acredita que seu bisavô, de quem herdou o dom da fotografia, seja um desses desaparecidos.

Janis se aproxima de Arturo quando ela tem de fotografá-lo e ela encontra a chance para pedir ajuda a ele no caso do bisavô. Ambos se envolvem e têm o filho, que Arturo rejeita, enquanto Janis decide assumir sozinha a gravidez. Num encontro futuro, já em casa, o pai não reconhece o bebê e a mãe decide procurar a verdade. Com a dúvida no ar, ela pede um teste de DNA online e descobre que não é mesmo mãe de sua criança. Essa parte do drama se desenvolve mais a partir desse momento e volta a aproximar as duas mães.

“Todos devemos ser feministas”, estampa uma das camisetas de Janis. E a personagem de Penélope Cruz, que protagoniza pela oitava vez em quatro décadas um filme de Almodóvar, é forte o suficiente para representar as várias mães que lutam sozinhas para cuidar de seus filhos, e não é de hoje. E talvez seja por isso que gere certa revolta quando se vê Janis voltando a ter um relacionamento com Arturo, o mesmo que não quis assumir a paternidade. O cineasta, homem portanto, já deu provas de que suas histórias não são recortadas por interdições morais ou esperadas. Ele está interessado na complexidade dos personagens.

A história de Mães Paralelas se encerra com o desfecho da abertura da vala comum e é onde o longa cresce como nunca antes nas histórias almodovarianas. O diretor vai na jugular dos facínoras que continuar a alimentar mentiras e tocam a vida sem prestar contas à história. Ao final, a verdade prevalece e o recado foi dado, com direito a uma frase lapidar de Eduardo Galeano: “Não existe história muda. Por mais que a queimem, por mais que a quebrem, por mais que mintam, a história humana se recusa a ficar calada”.

Mães Paralelas. De Pedro Almodóvar. Nos cinemas e em streaming na Netflix.

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