O cantor, compositor e guitarrista Fernando Maranho. Foto: divulgação
O cantor, compositor e guitarrista Fernando Maranho. Foto: divulgação

Cantor, compositor e guitarrista lançou seu segundo disco solo e conversou com exclusividade com FAROFAFÁ

Crimideia (2021), segundo álbum solo do cantor, compositor e guitarrista Fernando Maranho, é batizado pelo delito de pensamento inventado por George Orwell no distópico 1984, infelizmente mais real e atual do que nunca.

Maranho foi guitarrista das bandas Jumbo Elektro e Cérebro Eletrônico, ambas encabeçadas por ele e Tatá Aeroplano, cujas sonoridades perpassam o pop rock inteligente e antenado de “Crimideia”.

Parceria com Daniel Ratto, “1980”, cuja letra evoca aquela década e questiona a irônica expressão “censura livre”, foi a primeira faixa a ganhar videoclipe, assinado por Thais Maranho, sua irmã, valendo-se do acervo de fitas VHS da família.

É literalmente uma viagem sonora, em que Maranho é acompanhado por Gustavo Souza (bateria), seu colega de Cérebro Eletrônico, e João Velhote (baixo), da lendária Patife Band. Também egresso da Cérebro Eletrônico, o tecladista Fernando TRZ participa da faixa de abertura, “Cabeça na terra”, inspirada na obra do escritor Ailton Krenak, uma das mais respeitadas lideranças indígenas brasileiras.

Em setembro passado, Fernando Maranho conversou com exclusividade com FAROFAFÁ. Por motivos alheios à nossa vontade, a entrevista permaneceu inédita até aqui. No dia 22 daquele mês, pela Copa Sul-Americana, o Bragantino havia vencido o paraguaio Libertad por 2 a 0.

Crimideia. Capa. Reprodução
Crimideia. Capa. Reprodução

Zema Ribeiro: Diante dos desencontros, não podia deixar de perguntar: que tal o jogo? Então também és torcedor do Bragantino [Tatá Aeroplano, que nos colocou em contato, é torcedor do time de Bragança Paulista, sua cidade natal]?

Fernando Maranhão  Foi ótimo poder voltar ao estádio “seguindo todos os protocolos”. Eu tenho enorme simpatia pelo Braga, por ser o time da cidade onde moro, apesar de ser corintiano. O Braga está bem na Sul-Americana [o time foi o vice-campeão da competição], fato inédito pro time e, consequentemente, pra cidade.

ZR: Crimideia, além da novilíngua de George Orwell, em 1984, me lembra a tese de Tom Zé em Com Defeito de Fabricação [disco de 1998], de que nós, operários do terceiro mundo, vistos lá fora como robôs de mão de obra barata, temos o defeito de pensar, e também o Raul Seixas que diz “é pena eu não ser burro/ eu não sofria tanto”. De onde partiu a ideia para dedicar um álbum ao assunto?

FM: A ideia do disco vem de um sentimento de que a arte libertária, criativa, está sendo criminalizada sob o ponto de vista de certa parcela da população. Quando você ouve um parente, por exemplo, papagaiar o famoso clichê “tem que acabar com a Lei Rouanet”, a ligação entre o momento atual e o universo de 1984 é instantânea. Uma corrente político-ideológica, ao buscar colar a ideia nas pessoas de que artista é “tudo vagabundo” e “rouba o dinheiro público”, marca, com sucesso, dois pontinhos na cartilha do autoritarismo em uma só tacada. Seleciona um grupo, que é parte crucial na formação do pensamento crítico coletivo, e o coloca como inimigo comum para a massa de manobra, os robôs sem defeito de fabricação.

ZR: A sonoridade de Crimideia é irmã de discos do Jumbo Elektro e Cérebro Eletrônico, bandas de que você fez parte. Essa semelhança é mais intencional ou inevitável? O convívio com Tatá Aeroplano e companhia foram escolas para você?

FM: A semelhança é inevitável, natural. Eu convivo com o Tatá desde meus 16 anos. A primeira banda de música autoral de ambos foi o Gorpiava, formada aqui em Bragança. Em seguida, montei com ele o Cérebro Eletrônico como um duo. Fizemos o primeiro disco, Onda Híbrida Ressonante [2004], entre a sala do apartamento dele e a lavanderia do meu em São Paulo, de uma forma muito rudimentar. O Tatá foi o grande responsável por me abrir novamente a cabeça para a música brasileira ali no começo dos anos 2000. A gente sempre trocou muita informação sonora nessa fase em que tínhamos bandas, eu certamente aprendi muito com ele, aprendemos muitas coisas juntos e, de verdade, fica muito difícil para eu saber o que parece ou não com o Cérebro ou com o Jumbo, porque fui parte ativa nos dois projetos.

ZR: “1980” ganhou um delicioso videoclipe, feito com imagens de acervo das fitas VHS de tua família. Ter sido criança na década de 1980 também ajudou a te formar enquanto artista, tendo acompanhado a cena do rock brasileiro que então dominava rádios e TVs?

FM: Completamente. As minhas memórias mais antigas residem na sala da nossa casa na zona norte de São Paulo, ouvindo Rádio Cidade e Transamérica e pirando nos LPs dos meus pais. E eu não ouvia só rock, o que definitivamente moldou o jeito com que eu faço música. Passei por uma fase exclusivamente roqueira ali nos anos 1990, por motivos de adolescência [risos], mas, durante a minha infância e vida adulta, eu sempre escutei um pouco de tudo. Mas é engraçado como a estética dos anos 80 nunca foi embora, de certo modo, né? O som, o lance visual, a moda, e até mesmo as letras que marcaram os 80 sempre retornam em ciclos. Tem som novo que eu escuto que, às vezes, fico na dúvida se não é alguma gravação perdida do Human League ou do New Order.

ZR: Em que medida Crimideia é uma reação à pandemia, ao isolamento social imposto por ela e a este triste estado de coisas que nós brasileiros estamos vivendo?

FM: Não sei se foi uma reação ou se foi algo simplesmente inevitável pelo contexto em que todos estamos vivendo. Um exemplo prático foi a canção “Serpentes”. Eu comecei a escrever a letra dela pensando na história do Jeff Buckley, que é um artista que admiro demais. Um gênio dos anos 1990, músico sensivelmente completo, e que morreu, de forma acidental, afogado no rio Memphis. Ou seja, a letra não tinha, inicialmente, nada relacionado à pandemia. Porém, entre os versos que escrevia inspirado na história do Buckley, o afogamento acabou se relacionando, querendo eu ou não, com a questão sufocamento causado pela pandemia tanto no sentido metafórico como no literal. O que, de fato, a pandemia determinou no disco foi que a forma remota com que ele acabou sendo, em grande parte, gravado. O Gustavo Souza gravou as bateras na casa dele em Piracaia, eu gravei guitarras, vozes e synths aqui em casa, o João Velhote veio um dia aqui com máscara e matou todos os baixos em um só dia e o Renato Cortez [ex-baixista da Cérebro Eletrônico que tocou e masterizou Hipercubo, disco solo de estreia de Maranho, lançado em 2016] mixou e masterizou tudo lá de Carmo de Minas. Até mesmo as participações do Fernando TRZ em “Cabeça na terra” foram gravadas na casa dele e as vozes do Daniel Ratto e Charles Paixão, presentes em “1980”, vieram via whatsapp mesmo. Foi uma experiência muito diferente, nesse sentido.

ZR: Crimideia já está disponível nas plataformas digitais de música. O álbum terá edição física? Você, enquanto consumidor de música, tem preferência por formato? Ou na hora de ouvir, tanto faz?

FM: Eu gostaria muito de fazer vinil. Porém, estava conversando com o Tatá, e ele me disse que o valor de custo dobrou nas fábricas. Ficou inviável no momento atual, infelizmente. Como consumidor de música, ando comprando e escutando bastante vinil. Adoro garimpar no Sebo Bragantino e, também, compro alguns novos no Mercado Livre. Eventualmente, também pego algo pra ouvir da minha coleção de CDs, mas, na maior parte do tempo, eu acabo escutando músicas no Spotify.

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Ouça Crimideia:

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