Seguem algumas notas aleatórias (ou não) sobre Bacurau, depois que assisti ao filme pela segunda vez, agora junto a uma plateia, no CineSesc de São Paulo (da primeira vez tinha visto numa sessão para jornalistas, com som ruim e sala quase vazia).

– É vermelha a mala que Teresa (Bárbara Colen) carrega pelas ruas de terra de Bacurau e que depois passa de mão em mão entre os bacurauenses. A mala carrega vacinas contra doenças comuns do subdesenvolvimento.

– No cortejo fúnebre do início do filme, a população bacurauense canta em coro “Bichos da Noite” (1967), de Sérgio Ricardo, o homem que quebrou o violão no festival. Diz a letra: “São muitas horas da noite/ são horas do bacurau”. Bacurau é um pássaro noturno, suponho que difícil de se deixar aprisionar. O paulista de Marília Sérgio Ricardo, além de compositor, é cineasta (de A Noite do Espantalho, 1974, com os músicos pernambucanos Alceu Valença Geraldo Azevedo). A letra de “Bichos da Noite”, toda rimada em “au”, norteia muitas das cenas de Bacurau, au, au, au.

– É belíssimo o discurso de Plínio (Wilson Rabelo) durante o velório. A morta deixou em sua descendência médico, arquiteto, pedreiro, puta e michê – só não deixou ladrão. A dinastia bacurauense de daqui a alguns anos é filha (para o bem e para o mal) das políticas sociais de Luiz Inácio Lula da Silva Dilma Rousseff.

– Há um “lost in translation” na minha entrevista com os diretores e no meu texto da CartaCapital. Ao ouvir Juliano Dornelles falar sobre a faixa litorânea que os sudestinos apreciam no Nordeste, acreditei que alguma cena mostrava o litoral nordestino anexado ao Brasil do Sul. Isso não está no filme.

– Rodger Rogério, o cantador Carranca, é cearense, do Pessoal do Ceará. Só no gogó, dá uma goleada de 7 a 0 nos sudestinos branquelos das motocas.

– Há muitos passarinhos cantando ao fundo em muitas cenas do filme. Serão alguns deles bacuraus? Haverá bicos de pica-pau em Bacurau?

– É vermelho o caminhão que despeja livros para a população de Bacurau, em nome do prefeito da sede do município, Serra Verde. É doloroso (embora inevitável) que, para filmar e alegorizar o fascismo, a arte precise também destruir livros.

– Lunga (Silvero Pereira) é Lula e é Dilma. É um trans-salvador. É o futuro não muito distante. Silvero Pereira é cearense feito Rodger Rogério.

– Carmelita (a pernambucana Lia de Itamaracá) foi caso de Domingas (a paranaense Sonia Braga), como Carol Almeida notou brilhantemente.

– Carol descreve, também brilhantemente, paralelismos entre Bacurau Os Sertões de Euclides da Cunha (sudestino) e Os Sertões de Antônio Conselheiro (nordestino). Sulista, eu acrescentaria aí os desvalidos da Guerra do Contestado.

– Já me corrijo: antes de Carol, foi Ivana Bentes quem traçou o paralelo com Canudos, Euclides da Cunha, a terra, o homem, a luta. As mulheres têm goleado de 7 a 0 os homens héteros brancos subalternos no comando da análise crítica de Bacurau.

– Ainda Ivana: “Magníficas as cenas de um devir índio dos personagens que andam e vivem nus nas suas casas de barro, falando com as plantas, vivendo em uma temporalidade estendida, donos de poderes mágicos e de uma cosmovisão”.

– Os discos voadores são a mais maravilhosa das sacadas. Demais, demais, demais.

– A escola pública dos pequenos bacurauenses se chama João Carpinteiro – ou seja, John Carpenter. Os sintetizadores de Bacurau são demais, demais, demais.

– Falta água em Bacurau (no Nordeste), mas a terra ainda é verde, para espanto dos gringos (e dos sudestinos?). Chove gostoso em Bacurau.

– São poucos, mas maravilhosos, os cachorros em cena. Demais, demais, demais. Au, au, au.

– O gringo que mata a Forasteira (Karine Teles) se chama Joshua (Brian Townes). A Forasteira (diz que) se chama Maria. O Forasteiro (Antonio Saboia), João. O nazista alemão (o antológico Udo Kier) se chama Michael.

– Ela é carioca, a Karine Teles. Não é paulista, como pensa o gringo. Hahaha.

– Um dos gringos, não sei qual, chama Damiano (Carlos Francisco) de “Pablo”. Quando falam de nós-brasileiros, eles-os-gringos usam expressões em espanhol, “hombre”, “mujer”. De Toni Tornado Gisele Bündchen, somos todos latinos (“cucarachas”, baratas matáveis com uma chinelada) para os Estados desUnidos da América (e a Inglaterra, e a França, e a Alemanha, e a Itália…).

– A escola dos pequenos poderia também se chamar Quentin Tarantino.

– Quentin Tarantino é o José Padilha dos americanos do norte, os (des)unidos. Há filmes de esquerda, de centro e de direita. É necessário ver através do nevoeiro, enxergar à noite, ser bacurau. Bacurau e The Intercept juntos dá curto-circuito.

– A característica mais notável de Bacurau é o senso de comunidade e de unidade dos moradores de Bacurau. A representatividade, naquele povoado, é resplandecente. Todos integram o mesmo grupo de WhatsApp e se movem por um objetivo comum. Trata-se de uma utopia, ou o Brasil ainda irá oferecer isso ao mundo? Falta muito, ou está chegando?

– Há semi-protagonistas – Lunga, Domingas, Michael, Teresa, Pacote (Thomás Aquino) -, mas não há protagonistas em Bacurau. O protagonista é a coletividade, o que inclui até mesmo os gringos (Michael trai o próprio discurso supremacista e acaba por também matar um dos seus homens).

– Os humanos e os caninos de Bacurau me evocam Os Saltimbancos de Chico Buarque. “Todos juntos somos fortes/ somos flecha e somos arco/ todos nós no mesmo barco/ não há nada pra temer”. Utopia ou distopia? Au, au, au.

– O que os forasteiros sudestinos pensam dos nordestinos é o mesmo que os gringos pensam dos nordestinos e sudestinos. Assim como os forasteiros sudestinos são pequenos funcionários públicos, também os gringos exercem funções subalternas (caixa de supermercado, agente penitenciário) em suas pátrias natais. Os chefões dessa gente toda não são retratados em Bacurau, ao menos não explicitamente.

– Eu tomei um barato psicodélico, ou um personagem maravilhoso de Bacurau chama o Che Guevara de bicha? Hahaha.

– “True” (1983), do Spandau Ballet, toca no radinho de pilha durante o encontro épico entre a personagem de Sonia Braga e o personagem de Udo Kier. A letra de “True” fala sobre um comprimido sob a língua e sobre comprar um tíquete para o mundo.

– Além de cinéfilos, Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles são musicófilos. Não é possível (re)conciliar “Não Identificado” de Caetano Veloso e “Réquiem para Matraga” de Geraldo Vandré impunemente. Se alguém tem que morrer, que seja pra melhorar (?).

– O desconforto paulistano é palpável no oxigênio do CineSesc. A tão falada catarse das plateias não acontece ali, ou então acontece para dentro, como implosão de barragem. Os aplausos finais são tímidos, protocolares. A julgar por uma sessão lotada de terça-feira à noite, São Paulo veste muito a carapuça, demais, demais. Tomara que também os gringos dos Estados desUnidos da América (etc.) a vistam.

– Depois de um grande embate, o alto-falante de Bacurau enumera as baixas de guerra (no jargão), os bacurauenses mortos em combate. Há uma Marielle. Há uma Marisa Letícia. Não é possível ser mais explícito.

– Todo sudestino é Karine Teles para Bacurau. O bullying é merecido, a desforra nordestina é maravilhosa. Demais, demais, demais.

– Se algum 17 for a Bacurau, que venha na paz.

P.S. (que estava esquecendo de comentar): outra cena espetacular é a do triângulo entre Udo Kier, Sonia Braga e a espetacular Luciana Souza (a crente fanática de Ó Pai Ó); não vejo ninguém comentar, mas Sonia e Luciana formam um casal lésbico (assumido) maravilhoso em Bacurau. Na cena em questão, a Isa de Luciana afaga o rosto do Michel de Udo e diz algo como “ele deve ter sido bom em alguma época da vida”. Sonia retruca, cúmplice da esposa: “Teve mãe”. Hahaha.

P.S. 2 (as lembranças não param): vários amigo(a)s tuiteiro(a)s estão confirmando a cena em que Che Guevara é chamado de bicha. Até agora não consegui levantar os nomes do ator e do personagem, mas na minha memória é um dos companheiros exilados de Lunga, aquele que noutra cena dança capoeira sem berimbau. Aliás, outro espetáculo à parte é dos personagens gordos do filme, demais, demais, demais.

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