Cena de 'O Arquiteto e o Imperador da Assíria'
'O Arquiteto e o Imperador da Assíria', em cartaz no CCSP - Foto: João Maria Silva Júnior

O teatro de Fernando Arrabal é ambíguo, dicotômico, caótico. E perturbador. Seus personagens oscilam entre o bom e o cruel; o inocente e o culpado; a vítima e o algoz; o humano e o desumano. O tempo é o passado, que se estende pelo presente e não há vestígios de que não se arrastará pelo futuro. Seu espaço é permeado pela solidão, pela incerteza, pela insegurança e, a despeito da imensidão, também pelo vazio. Em O Arquiteto e o Imperador da Assíria, escrito por Arrabal, todos esses elementos estão premidos, senão confinados, numa ilha deserta, onde haverá um derradeiro encontro entre um civilizado, único sobrevivente de um desastre aéreo, e um nativo desprovido de contatos anteriores com outro ser humano.

A peça com o Grupo Garagem 21 finaliza temporada presencial, com as últimas apresentações até este domingo (24) no Centro Cultural São Paulo, mas prossegue online de 28 de outubro a 7 de novembro pelo canal do CCSP no Vimeo. Se o presencial é mais impactante por cenografia e iluminação, no virtual o espetáculo valoriza o texto, a expressão em close da câmera e o jogo proposto por Arrabal. Em um quadro rápido, um assustado primitivo (Eric Lenate) e o náufrago civilizado (Helio Cícero) se encontram no início da montagem. A luz se apaga e quando voltam à cena dois anos se passaram. Agora, eles são o arquiteto e o imperador da Assíria, nessa ordem. Nesse tempo que se passou, o imperador tenta imprimir sua cultura ao bom selvagem, ainda que perceba que toda a sua bagagem civilizatória seja aquém das vantagens vividas pelo nativo.

O imperador da Assíria tem memórias, e elas não só não são boas como o perseguem mesmo que pudesse, naquela ilha deserta, zerar todo o jogo de sua vida. A tirania de que se vale é o instrumento que o fará adentrar em surreais jogos com o arquiteto, que vai perdendo a sua ingenuidade e incorpora esse jogo de faz-de-conta. Ele topará se submeter a uma tortura em particular ou ao totalitarismo impostos pelo imperador, que não esconde sua ambivalência: ora é um tirano cruel, ora teme perder sua única companhia. Nesse jogo de Arrabal, o imperador tenta impor sua “superioridade”, por julgar-se detentor do poder, quando se dá conta da inferioridade que herdou do mundo civilizado.

Peça em dois atos, O Arquiteto e o Imperador da Assíria tem um desfecho em que o arquiteto assume o papel de um juiz, num jogo lúdico, em que o imperador é julgado. Ele incorporará nesse tribunal fictício sua esposa, seu irmão, um homem cego e outras testemunhas de acusação, enquanto o arquiteto será o presidente desse tribunal e a mãe do acusado. É mais que possível traçar paralelos com a atualidade. Até que ponto a necropolítica vigente não é resultado de feridas jamais cicatrizadas? O “nós contra eles”, mais do que pressupor a existência de inimigos, alimenta o conflito eterno.

Arrabal tinha seus inimigos, a começar do general Francisco Franco. Como outros intelectuais espanhóis, ele teve de se exilar por vários anos para fugir da ditadura em seu país. Persona non grata desde 1967, ano em que escreveu O Arquiteto e o Imperador da Assíria, o dramaturgo chegou a ser preso em 1975, numa das tentativas de voltar à Espanha. Defensor da liberdade, ele foi condenado por se tornar um ferrenho opositor à repressão política e às tiranias.

O Arquiteto e o Imperador da Assíria. De Fernando Arrabal, com o grupo Garagem 21. Até dia 24 (domingo), no CCSP. E de 28 de outubro a 7 de novembro, de quinta-feira a domingo, às 20 horas, pelo Vimeo.

 

 

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