Mel Lisboa é protagonista de Dogville
Mel Lisboa é protagonista de Dogville - Foto Ale Catan

Quando Dogville foi lançado nos cinemas, as resenhas não pouparam o diretor dinamarquês Lars Von Trier. O seu filme foi retratado como apelativo demais, um dramalhão machista que explora o sofrimento de uma mulher vulnerável e críticos disseram até que o cineasta não tinha autoridade para falar de gângsteres por nunca ter pisado nos Estados Unidos. Mas é indiscutível que a produção cinematográfica de 2003 consistia em um trabalho provocativo, tecnicamente bem realizado e inovador na linguagem. Dogville foi um experimento formal em teatro filmado, cuja fórmula jamais se repetiu com a mesma potência. Eis que surge agora a peça, no Brasil, com o sinal invertido. A montagem teatral, sob direção de Zé Henrique de Paula, recorre a recursos cinematográficos para dar uma nova vida à história.

Depois de iniciar a temporada em São Paulo, a peça entra em cartaz dia 28 de novembro no Centro Cultural Banco do Brasil, em Belo Horizonte. Ela toma como base o roteiro do filme quase na íntegra. A história de Lars Von Trier se passa em uma pequena cidade na época da Depressão nos Estados Unidos, e foi filmada em um palco gigante cujos imóveis são marcados no chão com giz. Na montagem de Zé Henrique de Paula, seria impossível dar visibilidade a esse recurso cênico para a plateia. Mas aí entram outras soluções inventivas, como a de filmar o grande elenco com duas câmeras escondidas (são 16 atores no total, incluindo Rodrigo Caetano, Eric Lenate, Fernanda Couto, Alexia Dechamps, Marcelo Villas Boas e Munir Pedrosa) e projetá-los, como num filme, sob os telões. Ou usar personagens filmados, como os policiais, para contracenarem com os atores no palco.

Grace, interpretada por Mel Lisboa (e no cinema por Nicole Kidman), é uma fugitiva misteriosa que chega a esse lugar pacato, no qual os moradores aceitam, ainda que relutantes, escondê-la em troca de pequenos afazeres. Conforme a procura pela fugitiva se intensifica, os habitantes de Dogville exigem mais e mais até que a relação se torna perversa e sórdida. Com requintes de crueldade, eles acabam revelando mais de si mesmos, o fundo sujo de suas almas. A heroína, que é vista como ameaça, precisa ser destruída ou domesticada. Cenas de estupro, que no filme chocam, acabam sendo atenuadas na peça. Dividido em nove capítulos, a montagem de 100 minutos voa e se encerra com Grace dando um basta definitivo na exploração que sofria. 

Sob a sombra do fascismo nos rondando, a dolorosa narrativa se firma como uma crítica contundente ao mundo contemporâneo, abordando temas como xenofobia, intolerância e as relações mercantis desumanas. O figurino, assinado por João Pimenta, faz os moradores de Dogville vestirem-se de tons de cinza, exceto Grace. É uma clara alusão ao lado cinzento e oculto das comunidades que, sem precisar de metáforas, todos sabemos existirem mais perto de nós do que gostaríamos.

* Publicado originalmente na edição 1040 da CartaCapital. Houve troca de alguns membros do elenco nesta temporada

Dogville. Direção de Zé Henrique de Paula. No CCBB de Belo Horizonte, de 28 de novembro a 23 de dezembro. De quinta-feira à segunda, às 20 horas. Ingressos a 30 reais.

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