Cena de Medea, na versão de Mike Bartlett, na montagem da Cia do Sopro
Cena de Medea, na versão de Mike Bartlett, na montagem da Cia do Sopro - Foto: Jonatas Marques/ Divulgação

Peça triste, Medeia, de Eurípedes, mostra como uma mulher cheia de rancor e mágoa é capaz de cometer as piores atrocidade para se vingar da traição de seu marido, Jasão. Escrita em 431 a.C., a obra é pioneira ao colocar em evidência uma história de uma dor personalíssima, ao contrário do tradicional teatro grego da época, mais dado às narrativas coletivas. Mike Bartlett, em pleno século 21, mudou a ação da Grécia antiga para a contemporaneidade do subúrbio britânico. E imprimiu à personagem aspectos de maior atrito com a vida moderna.

Em cartaz no teatro Vila Maria Zélia, na periferia da zona leste paulistana, Medea, com a Cia do Sopro, traz uma protagonista (Fani Feldman) de drama bastante conhecido numa sociedade ainda patriarcal, misógina e machista. Jasão (Daniel Infatini) não apenas trai sua Medea, como a abandona em pleno puerpério para se casar com uma mulher mais jovem. A complexidade da história original de Eurípedes e a originalidade da versão de Bartlett fazem aflorar uma série de sentimentos dúbios no espectador. Não é difícil nutrir uma simpatia pela protagonista, mas logo em seguida procuramos distância de quem anuncia o assassinato do filho.

Medea se beneficia da bela arquitetura propiciada pela sede do Grupo XIX de Teatro, onde acontece essa montagem até dia 31 de março. Num casarão tombado, os espectadores adentram na casa (mal assombrada) de Medea e, como observadores privilegiados, podem se sentir parte da história, já que na prática assistem ao espetáculo dentro do palco. Se no texto original, a construção da personagem se revela brilhante e meticulosamente concebido em torno das questões filosóficas, em Bartlett a tragédia se repete em camadas mais realistas.

Com direção de Daniel Infantini e idealização de Fani Feldman, que interpretam os dois principais personagens da peça, Medea tem ainda em seu elenco Juliana Sanches/ Vivian Bertocco (Pam), Maristela Chelala (Sarah), Plínio Meirelles (Andrew) e Bruno Feldman (Carter).

Medea. Com a Cia do Sopro. Na Vila Maria Zélia (Rua Maria Costa, 13), de quinta-feira a sábado (20 horas) e domingo (19). Ingressos a 10 reais.

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