
Livro Insurreição na Garganta, de Lígia Moreli, busca compreender a movimentação artístico-ativista encampada pela nova música brasileira, sob liderança da quase centenária cantora carioca
O livro Insurreição na Garganta (Edições Sesc), da jornalista Lígia Moreli, debruça-se sobre a obra e a personalidade da cantora carioca Elza Soares, morta há quatro anos, aos presumidos 92 anos (a data de nascimento da artista sempre foi motivo de controvérsia). Moreli pensa e escreve à luz da luta por direitos civis das chamadas minorias. Já de início, a autora expõe as cicatrizes plantadas na pele de Elza pelo racismo, pelo sexismo, pelo patriarcalismo e, em anos mais recentes, pelo horror à politização crescente de mulheres, negros, indígenas, dissidentes sexuais, esquerdistas e assim por diante. “Cantar é político! Não se canta sem as marcas ou as cicatrizes que dizem sobre um corpo, que agem sobre ele”, escreve Lígia Moreli.
É notório que uma veia cáustica sobressaltou na música de Elza Soares em suas duas últimas décadas de vida, em particular a partir de 2002, quando gravou “A Carne“, de Marcelo Yuka e Seu Jorge, do hoje histórico refrão “a carne mais barata do mercado é a carne negra”. A autora do livro mostra, no entanto, que esse ânimo é bem mais antigo na história da cantora, citando como exemplo versos como “quando nasci veio um santo/ preto e pobre como eu/ me rezou contra quebranto/ me beijou e me benzeu”, do samba “Como Lutei“, de Wilson Moreira e Nei Lopes, gravado pela cantora em 1980.
Em 2015, o álbum Mulher do Fim do Mundo marcou uma radicalização, quando Elza Soares, nas palavras de Moreli, “passou a cantar sem meias palavras sobre as temáticas ligadas ao cotidiano das mulheres, dos negros, da população LGBTQIA+ e das comunidades periféricas de modo geral”. É desse momento o célebre protesto “Maria da Vila Matilde” (composto por Douglas Germano), que denuncia e combate a violência masculina e, indiretamente, o feminicídio, entre versos como “você vai se arrepender de levantar a mão pra mim” e “jogo água fervendo se você se aventurar”. Os álbuns seguintes (e derradeiros) explicavam-se pela urgência dos próprios títulos, Deus É Mulher (2018) e Planeta Fome (2019), esse último com capa da cartunista Laerte Coutinho. “Elza denuncia o Brasil”, conclui Lígia Moreli, referindo-se à confluência dos combates assumidos pela artista em seus últimos posicionamentos, dentro ou fora dos palcos e discos. “Elza manda todo o mundo se foder, sem verbalizar”, completa.
Se o combate frontal só foi se manifestar no final da estrada, o livro mostra que os preconceitos acompanharam a artista desde os primeiros passos. Na sempre celebrada era dos festivais da canção, por exemplo, Elza também estava presente, mas se sentia deslocada e “ficava no fundo do palco” – e jamais é citada quando se refere ao cenário de advento de Elis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, etc. (outro preconceito fica subjacente aqui: formulado majoritariamente por carne negra, o samba valeria hierarquicamente menos que a dita MPB). “Foi rotulada de sambista e muitas vezes impedida de escolher outros repertórios”, lembra o livro, retratando o dilema de uma série de artistas negros que não quiseram se identificar aos símbolos de alegria e dança e festa transfigurados pelo samba (nem tampouco foram pacificamente assimilados à “MPB”), entre eles Alaíde Costa, Johnny Alf, Leny Andrade, Luiz Melodia e Zezé Motta, entre muitos. “Foi trabalhar em creche depois de ter sido uma mulher negra rica”, lembra Moreli, em referência aos altos e baixos na carreira musical de Elza, que chegou a cogitar abandonar a profissão em uma das várias fases de baixa. “Mesmo que talvez ainda não se desse conta, Elza já defendia sua posição de feminista negra”, escreve a pesquisadora, descrevendo movimentos operados pela artista desde a juventude.
Em seu depoimento, Guilherme Kastrup, um dos músicos paulistas envolvidos na feitura de Mulher do Fim do Mundo, procura dimensionar a reviravolta que o álbum de 2015 significou: “Ali acho que deflagrou uma coisa muito explícita, porque eram compositores jovens, muito politizados, num momento político muito intenso, porque eram os primeiros movimentos do golpe, aquele cerco que estava se formando para poder resultar no que deu depois, que é ascensão do fascismo no Brasil”. Ele prossegue: “Esse momento cutucou os compositores para falarem da vida da Elza e dessas questões da violência contra a mulher, das questões feministas, LGBTQIA+, as questões raciais que ela sempre defendeu”. O contexto, nunca é demais relembrar, era de preparo para o golpe que no ano seguinte removeria do poder a primeira mulher presidenta do Brasil, Dilma Rousseff.
Outro desses músicos, Kiko Dinucci, evoca a reação de Elza à coleção de canções que lhe foram apresentadas naquele momento. “No meio da audição ela começou a falar ‘é difícil cantar em cima disso’ e a gente pensou: fodeu. Aí parou a música e ela falou assim: ‘Eu vou pra um spa com essas gravações, vou dar uma estudada e vou comer com farinha essas músicas’. Ela usou bem essa expressão. E não foi uma promessa, foi uma ameaça. Ela se sentiu desafiada”. Os títulos das canções que a não-sambista encampou daí por diante falam por si: “Luz Vermelha”, “Pra Fuder” (2015), “O Que Se Cala”, “Exu nas Escolas”, “Eu Quero Comer Você”, “Língua Solta”, “Hienas na TV” (2018), “Não Tá Mais de Graça”, “Não Recomendado”, “País do Sonho”, “Libertação” (2019). “Ela leva o cartucho na teta/ ela abre a navalha na boca/ ela tem uma dupla caceta/ a traveca é tera chefona”, vociferava “Benedita” (2015), história sobre uma mulher trans negra usuária de crack, que quase parecia ser Elza Soares falando de Elza Soares.
Lígia Moreli enumera as palavras de ordem de Elza durante o show que fez no Rock in Rio em 2019 (ou seja, no primeiro ano de vigência do bolsonarismo), entre brados por justiça a Marielle Franco: “Chega de perseguir os negros! Chega de perseguir os pobres! Mulher preta, coragem! Pra frente! Mulheres, pra frente!” ou “Mulheres! A história agora é outra. Gemer só de prazer! Chega de sofrer calada! Denuncie, por favor! É 180 neles! Machistas não passarão! E não é não!”. A autora contrasta o papel histórico de Elza Soares naquele período com bordões de tez neofascista que se alastravam a partir da direita e da extrema direita, tipo “escola sem partido” e “ideologia de gênero”. “Ao receber as vocalistas da banda As Bahias e a Cozinha Mineira, ambas mulheres trans, gritou: ‘Viva as travestis!!!'”. É perturbador constatar que, passados sete anos, o Brasil vive uma explosão de casos de feminicídio, ao mesmo tempo em que nove entre dez candidatos de direita e extrema direita dedicam seus horários eleitorais para discursar em defesa das mulheres e contra o feminicídio.
Para decifrar o gesto artístico-ativista adotado pela última Elza Soares – e compartilhado com um grande número de jovens artistas da música brasileira –, a autora recorre às palavras da psicanalista e crítica de arte Suely Rolnik, escritas no momento imediatamente anterior às jornadas de junho de 2013, à Mulher do Fim do Mundo de Elza Soares, à deposição de Dilma Rousseff: “Muitos artistas têm se dedicado a práticas que fazem da problematização desse estado de coisas a matéria-prima de sua obra. (…) tais práticas tendem a transbordar as fronteiras do campo da arte para habitar uma transterritorialidade onde se encontram e desencontram com práticas ativistas de toda espécie – feministas, ecológicas, antirracistas, indígenas, assim como os movimentos dos LGBTQ, os que lutam pelo direito à moradia e contra a gentrificação, entre outros”.
Um exemplo eloquente é a fala da cantora e compositora Teresa Cristina em 2020, em meio à pandemia de covid-19: “Elza é a mulher do século, que nos leva à ação. Elza, você defende nossos corpos com a força do seu cantar. Nós, mulheres negras, saímos às ruas com sua couraça”. Enquanto isso, Elza ia às suas redes sociais elogiar e chancelar cantoras jovens como Liniker, Larissa Luz, Xênia França, Luedji Luna, Pabllo Vittar, Gloria Groove… Numa dessas manifestações, passou seu calejado bastão para Liniker: “Guerreira resistente, usa sua arte para promover a igualdade social, derrubar o preconceito e ensinar a tolerância. Cantamos juntas, gravamos juntas, lutamos juntas. Somos todas Liniker/somos todas Elza!”. Em 2023, Liniker se tornou a primeira mulher trans a assumir uma cadeira na Academia Brasileira de Cultura, a de número 51. A ocupante anterior era Elza Soares.
Não à toa, a trincheira de combate ativada por Elza sobrevive sob ataque cerrado, não somente à direita. Seus opositores procuram desqualificar essa nova forma de agir politicamente expressando uma suposta repugnância ao que batizaram, pejorativamente, de “identitarismo”, um nome também novo para o mesmo velho conjunto arraigado de preconceitos raciais, de gênero e de classe. Elza Soares – Insurreições na Garganta, de Lígia Moreli, reúne evidências suficientes para concluir que a cantora utilizou seus últimos anos de vida para atuar politicamente, com P maiúsculo.

(Texto publicado originalmente no site Opera Mundi.)
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