Muitos não se lembram mais, mas existiu uma década atrás uma estranha banda chamada As Bahias e a Cozinha Mineira (mais tarde rebatizada As Baías), crucial para a alteração, em várias direções, do curso da música brasileira contemporânea. O núcleo criativo era constituído por duas mulheres, Assucena e Raquel Virgínia, e um homem, Rafael Acerbi, que se conheceram como colegas de turma no curso de história da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da USP.

As duas mulheres, ambas transexuais, dividiam a função de compositoras e vocalistas principais, enquanto o homem, mineiro de Poços de Caldas, se encarregava, como o próprio nome do trio indicava, da “cozinha” instrumental. Assucena, de origem judaica, era branca e nordestina de Vitória da Conquista (BA); Raquel, a única não representada no título do grupo, era negra paulistana nascida e crescida na periferia sul, entre Cocaia, Jardim Míriam e Capão Redondo.

“Quando eu era criança via Mano Brown passando. Eu até já falei para ele que não gosto de rap”, ri Raquel, num dia em que damos de cara com o próprio, à saída do estúdio Mix, na Rua Bahia, em Higienópolis, região central de São Paulo. Raquel Virgínia convidou este jornalista para ouvir em primeira mão seu segundo álbum solo, que dá sequência ao (auto)provocativo Não Incendiei a Casa por Milagre (2025) e deve sair após o carnaval de 2027, sob o título Temporada das Estrelas Ardentes. O produtor do novo trabalho é o paulistano de ascendência japonesa Daniel Ganjaman, que desde a criação do coletivo Instituto, no início do século, acumula façanhas fora e dentro do universo do hip-hop, na produção de títulos importantes de Sabotage, Racionais MC’s, MV Bill, Negra Li, Flávio Renegado, Criolo, Nação Zumbi, BaianaSystem, As Baías etc.

A primeira banda de Raquel terminou em 2021, e ela lamenta recorrentemente um apagamento precoce resultante da ruptura. “É uma pena que haja um esquecimento, até de gente que entende de música. As Baías são zero citadas. Fico triste porque realmente acho que a gente foi importante”, afirma.

Entre as peculiaridades d’As Baías que colaboraram para uma reorientação geral dos rumos da música nacional, Raquel cita o descolamento do grupo de características típicas dos artistas LGBT fermentados nas duas últimas décadas. “Em geral a comunidade LGBT se liga a coisas muito eróticas, ou muito românticas, ou a uma militância escrachada, direta”, filosofa, observando que As Baías não seguiu nenhuma dessas estradas – nem ela nem Assucena têm seguido em suas carreiras individuais.

Como ilustração da excentricidade de Raquel em relação às convenções da música criada por LGBTs na primeira geração em que eles se colocam como plenamente assumidos diante do grande público, Temporada das Estrelas Distantes é entremeado por textos sobre morte escritos por Machado de Assis, Nelson Rodrigues e William Shakespeare. O título do álbum se refere às luzes no céu noturno do território palestino, que não são originadas de estrelas, mas de drones e mísseis. Em vez de sexo, irreverência e romantismo, seus temas centrais, por ora, são guerra e morte, o que gera uma atmosfera pré-apocalíptica às novas letras e músicas compostas e cantadas solitariamente por Raquel Virgínia.

Mais metafórica e delicada que as citações à guerra, às guerras, é a abordagem que Raquel, nascida em 1988, dá às questões de transição, de gênero ou outras. O tempo (inconcluso) de faculdade de história gerou simultaneamente uma banda, uma depressão e a transição sexual compartilhada com Assucena. “A transição é um grande abismo psicológico. É como se você estivesse nascendo”, conta. 

Também próximo à guerra, às guerras, é o DNA da violência, que Raquel afirma carregar dentro de si de modo irrevogável. “As Baías acabaram porque eu sou muito violenta, e eles são sensíveis”, afirma, transformando um terço de responsabilidade na totalidade das responsabilidades. Na conversa abaixo, Raquel Virgínia explica esse tal DNA violento e o modo como o extravasa, diferente em tudo dos canais habituais, inclusive dos canais usados pelos Racionais MC’s e pelo hip-hop na fase de transição iniciada pelo advento do rap popular brasileiro, a partir dos anos 1980.

À saída do estúdio Mix embaixo de chuva, Raquel preocupa-se ao perceber que o motorista de um carro blindado esqueceu o farol aceso, para logo a seguir entender que o veículo aguarda preparado a chegada de seu proprietário. Mano Brown surge de dentro do estúdio e cumprimenta artista e jornalista com vigorosos apertos de mão, cruzando mais uma vez com Raquel Virgínia sem demonstrar exata compreensão sobre quem ela é. Historiadora, filósofa, compositora e cantora, Raquel transborda por todos os poros a recusa ao DNA do esquecimento. A guerra está em curso, e ela não gosta disso.

Pedro Alexandre Sanches: Como é seu processo de composição?

Raquel Virgínia: Eu componho de boca. Não sento com instrumento, então não tenho uma grande noção harmônica das coisas. Faço melodicamente. Imagino a música já cantada por mim. Não necessariamente por mim, tem música que penso na Gal Costa (ri), melodicamente. Neste novo projeto, Daniel Ganjaman fez questão de seguir exatamente as minhas melodias. Isso é muito legal, porque tem produtor que se aproveita disso para mexer em coisas e deixar do jeito dele. Ganja, pelo contrário, mesmo quando estava muito difícil entender o que eu tinha proposto melodicamente, ficou dentro o estúdio com os músicos: “Não foi isso que ela propôs. Volta, ela propôs outra coisa”.

PAS: Foi você que o chamou para produzir?

“Bixa” (2017)

RV: Fui eu. O álbum anterior foi produzido pelo Moreno Veloso, que fez esse mesmo movimento do Ganja de respeitar muito minhas melodias. Ele quis também, mas eu quis muito porque amo trabalhar com Ganja. A gente já tinha trabalhado junto n’As Baías, ele produziu nosso segundo álbum, Bixa (2017), depois produziu um outro EP d’As Baías. Mas eu queria ter o prazer de trabalhar com Ganja num álbum que fosse só meu. Quando você está com uma banda são muitas vontades, muitos gostos, você se dilui ali. Estou pedindo para ele produzir alguma coisa faz tempo, mas ele estava sempre sem agenda. Amei que desta vez deu certo, porque foi até hoje o trabalho mais autoral da minha vida. É a primeira vez que todas as músicas são minhas.

PAS: No álbum anterior tinha músicas de Caetano Veloso e Rita Lee.

RV: É. Esse novo é integralmente meu e fiquei feliz por isso, por ser Ganja, que além de tudo é meu amigo. Temos uma relação de amizade mesmo, de se encontrar para jantar. Este é realmente meu trabalho mais íntimo. Sempre tenho uma questão de querer falar sobre coisas que não necessariamente se referem a mim, e esse trabalho é muito sobre mim, sobre minha vida em vários momentos. É muito confessional.

PAS: E por que ele tem esse tom apocalíptico [risos]?

RV: Você acha que é um apocalipse? 

PAS: Talvez um pré-apocalipse? Ele fala muito de morte, que pode ser algo individual, mas a gente anda coletivamente ameaçado, de fato, nestes tempos.

RV:, Cara, vou confessar pra você que [pausa] não estou gostando de nada, sabe? Em termos de música sinto falta, é como se fosse uma ausência – e não é uma crítica a ninguém, aos artistas. Mas, pelo fato de a gente estar vivendo num extremo, acho que os artistas estão um pouco melancólicos, e sentindo pouco a guerra, as guerras. Em outros momentos extremos da história do Brasil e do mundo a música sempre se manifestou. Não estou vendo motivo para falar que sou poderosa e empoderada, pelo contrário. Estava muito sufocada, fiz esse trabalho num limite da minha linguagem, de achar tudo muito bobo. Perto do que está acontecendo, acho tudo muito bobo.

PAS: Você está respondendo indiretamente que as guerras fazem seu trabalho soar apocalíptico neste momento?

RV: Sim, total, porque estou com medo, e porque realmente me fere. Me fere artisticamente. Estou achando as pessoas muito românticas ou muito eróticas, num momento em que talvez nós tivéssemos que estar um pouco mais levantados. 

PAS: Isso tem a ver também com o avanço fascista? Você não fala tão explicitamente disso no álbum, mas estava na sua mente?

RV: Não falo tão explicitamente, mas o nome Temporada das Estrelas Ardentes é pensado numa ideia de que a gente olha para o céu e acha que está vendo estrelas, mas… Esse nome veio quando vi uma foto do céu de Israel, supercheio de cor e brilho, mas era tudo drone e mísseis voando no céu.  E o céu era bonito [ri],  a foto era bonita. Mas gente, era bomba. São estrelas ardentes. É quase como se fosse um falso brilhante

PAS: Como já dizia Elis Regina?

RV: Pode até nos iludir com alguma beleza, mas na verdade aquilo é morte, é guerra,  é a anunciação do extremo.

PAS: E aí você foi procurar textos de William Shakespeare, Nelson Rodrigues e Machado de Assis que falam sobre morte?

RV: Na verdade, fui buscar Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). Ali Machado vai exatamente na nossa pequenez, na nossa mediocridade. Por isso o álbum começa pedindo desculpas para os ouvintes pela minha mediocridade, É um texto de Machado em Brás Cubas, pedindo desculpas pela mediocridade dele, porque depois da morte ele descobre quão medíocre ele é. É isso, a gente tem uma expectativa de grandiosidade na juventude e depois vai passando um tempo e você vai percebendo o quanto é medíocre, sobretudo diante do extremo, porque na nossa vida cotidiana cada vez menos a gente consegue fazer alguma coisa. Isso nos leva também a uma grande camada de hipocrisia sobre nós mesmos. O que mais gosto nas Memórias Póstumas é que ele consegue olhar o todo, mas ao mesmo tempo ele consegue [enfatiza] se olhar. Isso me pega muito,  porque estou numa fase em que estou me achando muito medíocre, muito hipócrita, muito violenta.  O álbum cita bomba atômica e guerra nuclear.

PAS: Você fala do 11 de setembro de 2001, e não é a primeira vez, já falou antes. Por quê?

RV: O 11 de setembro me pega muito, como estudante de história. No fundo a gente não sabe o que é histórico e o que não é.  Só o tempo diz, “somente o tempo poderá dizer a eternidade das canções”. Nós não sabemos o que é a história e o que não é. Mas esse episódio não tem como, é um episódio histórico, o único que em vida eu assisti ao vivo. Nasci em 1988, tinha 11 ou 12 anos, mas lembro exatamente. Tudo que estamos vivendo pós-11 de setembro, ainda estamos vivendo por causa do 11 de setembro. O entorno daquela história é que nos move: guerra ao terror,  a forma como gente viaja e passa nos aeroportos, a forma como interagimos, as câmeras em todo lugar… O discurso de Trump para interferir no Brasil é, segundo ele, a guerra ao terror. 

PAS: As pessoas fazem questão de esquecer,  de fingir que não aconteceu? Acontece o mesmo em relação à pandemia de covid-19, que foi há tão pouco tempo.

RV: Eu estava lendo um trabalho de Eduardo Calbucci, professor de comunicação na USP, que fala que existe um projeto das mídias ao vivo pelas big techs. Elas nasceram para que o “ao vivo” domine, inclusive o próprio 11 de setembro é um episódio que a gente viu ao vivo. A questão da bomba também me pega muito, estamos vivendo uma grande dança da bomba atômica. É Trump dizendo que o outro não vai criar bomba atômica, e o outro criando bomba atômica, e uma discussão sobre quem pode e quem não pode ter bomba atômica. Na eleição brasileira, tem candidato dizendo que o Brasil tem que ter bomba atômica para ter soberania. E como pessoas que têm um projeto de vida como o meu estão sendo sufocadas em meio a isso tudo?

PAS: Qual é o seu projeto de vida?

RV: Meu projeto de vida é o que eu sou: uma mulher trans, negra, empresária, que tem a própria empresa, cria os próprios projetos, escreve as próprias músicas. De alguma forma, tudo isso vem sendo asfixiado. A autoralidade é uma das coisas que vêm sendo asfixiadas. Tudo que é autoral está sendo asfixiado. Na música, ao mesmo passo que a gente celebra porque com a tecnologia se abriu uma margem para que pessoas pudessem surgir com sua arte, se você não segue uma cartilha de como escrever música etc., você tem uma chance muito grande de ser asfixiado, de falir.

PAS: Os artistas trans são a vanguarda musical de hoje, junto com negros, indígenas, LGBTs? Acredito que é a música mais interessante do Brasil atual. A população trans jamais pôde se expressar de modo algum, quanto mais em forma de música, e sua geração faz isso, de frente. Vocês são a resistência, inclusive a resistência contra o fascismo?

RV: Eu acho também, sou otimista pra caramba. Temos um movimento muito forte, mas ao mesmo tempo temos que prestar muita atenção, porque a gente some muito fácil. Não acho que ninguém tenha que saber o que eu e Assucena fizemos, mas se você se coloca como um pesquisador e não cita nem a mim nem Assucena, vou questionar. Esses dias alguém estava escrevendo sobre artistas trans e disse que a Majur tinha feito alguma coisa, e eu pensei [ri]: não, não foi a Majur. Meu problema não é falarem que foi a Majur, está tudo certo, mas é que estão esquecendo outras pessoas. Lembro de conversar com Emicida e Fióti sobre transexualidade na música. Eles nem sabiam o era isso, até Emicida convidar a Majur para cantar, porque ela estava na casa da Paula Lavigne e eles estavam entre eles lá. Mas quem estava nas rodas explicando para Emicida e Fióti o que era trans éramos eu e Assucena, lá em 2000 e bolinha, quando nem tinha Linn da Quebrada. Liniker estava se colocando como uma pessoa disruptiva, mas também não se dizia trans. Foi um processo público que ela viveu. 

PAS: Muitas pessoas estão vivendo essa transição em público, não?

RV: Sim, a Liniker, a Catto. Eu e Assucena, não, Como a gente veio do movimento estudantil da USP, já saiu com esse discurso muito amarrado. No núcleo da USP que frequentávamos, isso já estava amarrado intelectualmente, já estávamos andando com outras pessoas trans dentro da USP, que já tinham construído para a gente. Eu e Assucena transicionamos dentro da USP, durante a faculdade. Transicionamos juntas. E foi lá dentro da faculdade que a gente começou a cantar e compôs o primeiro álbum, Mulher (2015). É por isso mesmo que o nome do primeiro álbum é Mulher. A gente já saiu com o discurso de que éramos mulheres, o que para a imprensa era uma grande incógnita. Não, vocês são o quê, mulher?  Mulher? Como assim mulher? Lembro de jornalista fazer essa pergunta, e não estou falando de jornalista do Léo Dias, mas da BBC Brasil. A jornalista me perguntava: “Explica direito o que é esse negócio de trans que eu não entendi? Vocês são mulheres?”. É um discurso muito diferente de dizer “não sou mulher nem homem”. Semanticamente, para o público, incomoda mais você dizer que é mulher do que você dizer “não sou nem uma coisa nem outra”. Se você não é nem uma coisa nem outra, está tudo bem, mas, se disser “eu sou uma mulher”, é aqui que o pau quebra. Estou dizendo isso porque a gente é esquecida muito rápido.

PAS: E foi outro dia, não faz muito tempo.

RV: Foi outro dia, e a galera já perdeu. Se perguntar da contribuição da [Candy] Mel da Banda Uó, ou antes ainda,  a galera já nem sabe. E o problema disso é que a gente não consegue nunca ter tradição.  A cis-normatividade vai construindo tradições. Quem foi o primeiro em tal coisa? Foi não sei quem.

PAS: Sempre um homem branco…

PAS: …E cisgênero. No nosso caso, rapidamente se esquece quem estava lá e construiu. Fico superpreocupada do ponto de vista egóico, da minha imagem – porra, eu estava lá, eu fiz esse bagulho –, mas também fico preocupada do ponto de vista coletivo, porque, como estudei um pouco de história, sei o quanto é fácil as coisas desaparecerem.

PAS: Você terminou o curso?

RV: Não, fui jubilada [risos]. Não vou voltar, mas estudei pra caramba.

PAS: Eu diria que é uma pena, porque uma trans cantora, compositora e historiadora é muito luxo para um país.

RV: Fiquei quatro anos lá dentro, foi bastante tempo. Entrava na USP às oito da manhã e saía às 23 horas. Lá dentro é um lugar de nerd mesmo, isso é um fato. Você vai estar numa roda discutindo Marx, ou em outra discutindo Simone de Beauvoir. Esse é o papo de corredor. Esse é o papo de boteco do povo da história da USP. A gente ficava muito nessas rodas, inclusive frequentando o movimento negro da USP, as rodas de conversa feminista. São coisas que fazem totalmente parte da minha formação. Não seria quem sou sem essas conversas absolutamente intensas e complexas e difíceis que tive lá dentro. Eu tive depressão, meu Deus!

PAS: Você teve uma banda e uma depressão ao mesmo tempo?

RV: É, passei uma época que eu não conseguia nem tomar banho.

PAS: E fazia show ao mesmo tempo? Era uma depressiva funcional então?

RV: Uma depressiva artística [ri]. D’As Baías ninguém terminou o curso, porque fomos absorvidos, meio sugados. Desviou legal. Cara, depois que a gente descobriu Gal Costa… O ponto foi a Gal. Eu estava na minha quitinete na Rua Maria Antônia, vi o vídeo de Gal cantando “Da Maior Importância” (1973), aquele em que ela está com a perna aberta, com o violão, preto e branco, e falei: “Assucena, você não sabe o que eu descobri, vou te mostrar!”. Assucena pirou. 

PAS: Só um comentário, porque a gente é assim mesmo: aos 20 anos, você nunca tinha ouvido falar de Gal Costa?

RV: Não. O máximo que eu sabia de Gal era a abertura da novela Porto dos Milagres (2001), que inclusive é linda. Então eu e Assucena literalmente largamos os estudos para ouvir Gal. Verdade. Só que a gente não ouvia simplesmente. Íamos para a minha quitinete, desligávamos tudo, e era para ouvir em silêncio. Depois que acabava o álbum, ficávamos discutindo sobre ele por horas. A gente ficava louca.

PAS: Vocês já tinham transicionado nesse momento?

RV: Estávamos no processo. Gal foi um impulso. Amy Winehouse já tinha criado um certo impacto, mas menos em mim. Eu nunca fui muito da música norte-americana, nem da inglesa. Nunca fui muito da música em inglês. 

PAS: Obrigado por você existir [risos]. 

RV: Meu ouvido sempre foi brasileiro, tanto que meus melismas são brasileiros. Não gosto de cantores que cantam com melismas norte-americanizados.

PAS: Ou seja, nenhum dos reality shows musicais da Globo…

RV: Odeio, consigo ouvir por um segundo. Meu ouvido é bem brasileiro, nunca fui da galera da Mariah Carey… Eu estava sempre em Sandy & Junior, Terra Samba, É o Tchan. Quando eu era lá da favela, meu ouvido era esse. E aí entendi muito Gal. A obra dela dos anos 1970 é uma obra difícil, complexa, experimental…

PAS: …Revolucionária?

RV: Revolucionária pra caralho! 

PAS: Gal é de uma geração ambígua, que era libertária, assumida e sem segredos nos próprios círculos, mas não conseguia dizer isso explicitamente para o grande público. Hoje grande parte dos artistas fala sobre sexualidade publicamente. É um bastão que aquela geração entregou para a sua? A sua está rompendo com essa tradição? 

RV: Minha sensação é que essa galera das antigas está menos conectada com a mídia, como a nossa geração é. Nós somos muito midiáticos, tudo nosso tem que ser muito midiatizado. Sinto que essa galera tem uma divisão, “até aqui eu vou, o resto não é mídia”. Para a gente é o contrário, tudo é mídia.

PAS: É de certa forma uma prisão?

RV: Eu acho uó. Agora, com 37 anos, esperando os 38, as pessoas ficam assim: “Raquel, tem que postar, mostra sua vida, você está fazendo coisas tão interessantes, mostra”. Cara, eu não vou mostrar. Não é isso que quero mostrar. Eu ainda vou entender o que quero mostrar. Aquela galera escolhia o que queria mostrar, e a gente está numa onda de que tem que mostrar tudo. Acho que é geracional mesmo, e não acho que isso é necessariamente empoderamento da minha geração. Somos um pouco vítimas do “mostra, mostra, mostra, mostra”. Ao mesmo tempo, acho que tudo que está sendo feito e dito é super-importante. Eu mesma fiz parte de um momento importante, em que eu era muito midiática, falava sobre tudo, sobre meu gênero, mostrava para todo mundo todas as violências que eu tinha sofrido. Hoje já sofri outras violências e escolhi não mostrar. Não, vou lidar de outro jeito com isso. Não acho que fui menos combativa por isso – fui combativa, mas não fui midiática dentro do meu combate. Não sei se a galera que expõe para valer conseguiu monetizar, mas os donos das big techs com certeza monetizaram com a nossa exposição. Hoje estou fazendo a linha mais discreta, até porque agora tem bastante gente falando muita coisa. Não me sinto mais tão necessária nesse lugar.

PAS: Atualmente, toda semana descubro uma nova artista trans de que nunca tinha ouvido falar. Mas ao mesmo tempo muitos brasileiros nunca ouviram falar da Raquel Virginia. São muitos nichos e muitas camadas, uma cebola de que a casca é Anitta

RV: Acho que hoje a casca da nossa cebola é a Liniker. Ela é o grande nome midiático, que conseguiu extrapolar todas essas camadas da indústria. 

PAS: Você não acha que em blocos, sem individualizar, vocês fizeram um barulho formidável e impuseram um discurso que não havia antes?

RV: Sim, é que tem uma questão do espírito do tempo. Talvez a gente estivesse ali exatamente no momento em que a sociedade meio que queria isso… Quando a gente lançou Mulher, Elza Soares estava lançando A Mulher do Fim do Mundo, Karina Buhr [atualmente a artista, não-binária, assina simplesmente Buhr] estava lançando Selvática. Exatamente em 2015 saiu uma matéria da Rolling Stone com As Baías, Elza Soares e Karina Buhr. Liniker tinha aparecido com o EP zero, romântica como sempre, mas uma figura muito emblemática. Era um espírito, tinha uma coisa acontecendo, naquele momento teve um cruzamento. Não acho que tenha sido um movimento, mas foi um cruzar de desejos.

PAS: Acho que vocês podem não ter a dimensão completa disso, mas é um movimento, sim.

RV: Mas foi, né? Tanto que Luciana Rabassallo foi muito feliz com essa matéria que escreveu na Rolling Stone, porque botou assim: esta é a galera que está dando a letra do que a gente está vivendo. E estavam lá As Baías, Liniker, Elza, Buhr, Ava Rocha. Foi um momento muito legal da minha carreira e um momento muito maneiro também da música. Tinha mensagens muito importantes na mesa.

PAS: Me parece que as gerações mais velhas ainda não assimilaram, por vezes nem sequer ouviram vocês como um movimento. Reclamam que a música brasileira não é boa como era, mas nunca ouviram nenhum de vocês. 

RV: É tudo projeto, né? No final, talvez o projeto seja não conhecer mesmo. Mas realmente, se você coloca Gal, Maria Bethânia, Elza, dá uma diferença, Aquele é um momento áureo da música brasileira. Isso acontece mesmo. Tem gerações que podem dignificar um pico e talvez nunca mais a gente bata ali. 

PAS: Eu era criança nos anos 1970, mas sei que na época não se tinha dimensão da grandeza de Gal etc. Era o que existia na época, simplesmente.

RV: Já me falaram isso também, pode ser que um dia… Caetano Veloso foi ficar popular mesmo nos 1990.  Tem um trabalho que não é só dos artistas e não é só do público, é do mundo corporativo. As grandes distribuidoras e gravadoras de hoje não estão querendo que essa galera apareça.

PAS: Mas no mínimo estão tendo que admitir a existência. Sempre embarreiraram, não deixariam você gravar um disco nunca. Essa porteira não se fecha mais, mas parece ser o que você teme, é o que você está falando no seu álbum.

RV: É o que eu temo. Tenho medo, tanto que a última música se chama “Lápide dos Esquecidos”. Porque é fácil ser esquecido. Ou nem ser lembrado. Estou acostumada a ser ignorada, na vida. 

PAS: Como você dialoga com isso?

RV: De ser ignorada? Na vida? É um trauma psicológico. Tenho uma história de abandono. De abandono e violência. Meu pai não me criou, minha mãe me criou como mãe solo. Sou paulistana, do Cocaia, do Jardim Míriam e do Capão Redondo. Quando eu era criança via Mano Brown passando. Eu até já falei para ele que não gosto de rap [risos].

PAS: Você não gosta, sério? De nenhum?

RV: Eu gosto, mas lá dentro não gosto. Me fazia mal aquela palavra. Porque o rap, para mim, que era uma criança afeminada, nos lugares onde eu vivi, era violento. Era uma música de macho, entendeu? Era “porra, tu não gosta de música de macho?”.

PAS: Mas mesmo essa frente está sendo atacada, existem Linn da Quebrada, Rico Dalasam, Quebrada Queer, Irmãs de Pau

PAS: Mas aí eu já era adulta, já estava traumatizada. Não é que eu não gosto, mas não sou tão tocada pelo rap. Cresci nesses bairros, então tem uma questão de a gente se acostumando com abandono, com violência, com as pessoas te ignorarem. Estou um tanto quanto acostumada. Mas gosto de trazer a arte para isso, de fazer com que isso se torne uma obra de arte. Nessa obra eu trouxe muito o abandono, a solidão, a melancolia, o esquecimento.

PAS: Suas letras falam bastante de violência, “fuzil” é uma palavra recorrente.

RV: Sim [ri], eu tenho uma história pessoal de violência. Não tenho algo específico para contar, mas o DNA da minha vida é esse.

PAS: E mesmo assim você vira uma intelectual, o que também não acontecia até algumas poucas décadas atrás. Como aconteceu?

RV: Ah, por causa da minha mãe. Ela me criou falando que eu tinha que estudar. Eu poderia ter estudado outra coisa, engenharia, medicina – inclusive eu fui bastante pressionada.

PAS: Teria sido mais difícil formar uma banda chamada As Bahias e a Cozinha Mineira na faculdade de medicina.

RV: Mas eu sempre fui sensível ao meu entorno. Minha história estrutural, minha base, é violenta. Eu sou violenta, sabe? As Baías acabaram porque eu sou muito violenta, e eles são sensíveis. 

PAS: Essa é uma avaliação sua ou de todo mundo?

RV: De todo mundo. E eu concordo, eu sou violenta. Sou uma pessoa verbalmente violenta. Fisicamente nunca agredi ninguém, mas sou verbalmente violenta, dura. Sou paulistana, da favela. Cresci vendo muita violência, tanto dentro quanto fora de casa. Mesmo que a minha criação também tenha sido amorosa, mas foi amorosamente bruta, sabe?

PAS: Em que sua mãe trabalhava?

RV: Trabalha em hospital, sempre. Mas também sempre fui sensível, sempre tive uma sensibilidade de artista. E tenho um certo costume de ser abandonada, de ser deixada para trás, de viver esses extremos. Eu quis estilizar isso. Foi o que eu pensei em algum momento da minha vida: o que eu posso fazer com tudo isso? Não é que eu não possa mudar, eu mudo o tempo inteiro, mas esse DNA não vai sair de mim, o DNA da violência.

PAS: E você canaliza essa violência de outras maneiras que não as tradicionais, entre aspas, certo?

RV: Estou tentando canalizar como artista. Mas sei que a minha alma é totalmente suja [ri]. Talvez o que eu consigo ser é honesta, uma honestidade no sentido de dizer: gente, é isso mesmo, não vai ter jeito. E eu tenho muita raiva. Sou uma pessoa que tem raiva. Tenho raiva mesmo, do ponto de vista racial, de classe… Por isso o nome do meu primeiro álbum é Não Incendiei a Casa por Milagre (2025) [gargalha]. É isso aí, se nunca taquei fogo dentro da minha casa, é um grande milagre. Por incrível que pareça, na rua eu fico mais atacada. Dentro de casa sou mais tranquila, mesmo quando percebo o poder do homem dentro de casa. Tenho uns ataques de fúria com os homens da família. A estrutura machista da minha família é muito permanente. Por mais que minha família tenha mudado pra caramba, o homem ainda está naquele lugar de conforto e de folga. Não sei nem se é conforto. Tudo isso pra dizer que eu acho que eu tenho um DNA violento, raivoso, magoado, e tudo isso precisa virar arte. Não sei se vou um dia conseguir fazer algo leve. Mesmo nesse álbum, quando faço uma música romântica, vou lá e falo: “Amor, nos encontramos na sarjeta” [ri]. 

PAS: Romantismos à parte, é bonito que a Liniker represente isso, o direito de ser romântica, não?

RV: Acho foda, sério. Mas realmente eu não consigo. Quando escrevo “resolvemos nos casar”, coloco que “resolvemos nos casar/ compartilhar toda a sujeira desse mundo imbecil” [ri]. Esse é meu jeito de ser romântica. Porque eu, Raquel, nunca tive nenhum romance convencional. Nunca tive um amorzinho, nunca consegui ter. Acho foda quem tem, mas eu nunca tive amorzinho, não sei o que é. Esses dias mesmo um menino se apaixonou por mim, ele tinha acabado de sair de Bangu 2 por tráfico, e estava apaixonado [ri]. E eu: “Cara, não vou conseguir ficar com você. Você estava preso, eu estou com medo”. Só que eu estava louca por ele também, e a gente pegando no meio de uma lavanderia onde levo a roupa para lavar, no Rio. Falei para o menino que vai fazer meus clipes que quero fazer um clipe assim, quero o diálogo no clipe. “Você quer falar que ele estava preso por tráfico?” Aham.

PAS: A história não progrediu?

RV: Não consegui.

PAS: Olha só que explicação fantástica você deu para a dificuldade de ser romântica. É porque é difícil mesmo?

RV: Esses são os caras que gostam de mim, e eu correspondo [risos]. Acabo atraindo esse tipo de cara. Não atraio o cara certinho, nunca atraí homem certinho. Porque, sei lá, devo passar uma energia de ser da pá virada também. Os da pá virada se encontram [ri]. É sério, impressionante, é sempre o cara mais torto que vai querer se aproximar e viver alguma coisa comigo. Então não tenho esse repertório romântico.

PAS: Mas o menino era…

RV: Lindo [ri]!

PAS: …Não, quero dizer gentil, carinhoso? 

RV: Tudo isso [ri]. É muito difícil. Fiquei nesse dilema: meu Deus, avanço com esse garoto ou não? A história de vida dele é super forte, “quando eu tava preso, minha mãe morreu e não consegui enterrar minha mãe”.  Caramba, cara. É esse tipo de história que circula minha vida. Tento sempre traduzir isso poeticamente, porque no final do dia para mim tudo é poesia. Gente, tudo isso tem que virar metáfora.  É aí que Machado de Assis entra para mim de uma forma muito especial. Ele lapida tudo. 

PAS: Machado de Assis jamais foi esquecido, mas durante muito tempo se “esqueceu” que ele era negro. O esquecimento também tem várias camadas…

RV: Tem várias camadas, por muito tempo a gente ficou perguntando se Capitu tinha traído ou não. E com certeza não, coitada. A grande questão do Machado é o deboche que ele faz da elite brasileira. Ele é um grande debochado, está zoando com a elite brasileira o tempo inteiro. E ele zoa a elite brasileira usando as ferramentas da elite brasileira, que eram a palavra e o eruditismo. Ele manipulou o erudito para zoar com a cara de todo mundo. É isso que acho espetacular.

PAS: Você leu Aluísio Azevedo? É o que ele faz também, não?

RV: Li O Cortiço (1890). Aluísio de Azevedo é escancarado, escrachado. Ele fala. No Machado nada é escrachado, inclusive tem gente que chegou a me dizer que Machado não era tão combativo. E eu tipo assim: meu amor!

PAS: Isso é analisar o passado com os olhos de hoje?

RV: Não tem como, Memórias Póstumas é deboche atrás de deboche. É você conseguir entrar na elite, falar para a elite de um jeito que a elite gosta de ouvir, mas no fundo você está fazendo a elite tomar água com veneno. Acho isso fantástico. Esse apreço que Machado tem pelo polimento talvez seja onde eu mais quero focar na minha vida: polir, polir a minha própria arte muito. Talvez essa seja a maior delicadeza.

PAS: E também zoando a elite [risos]? 

RV: Também, tem que zoar. A elite brasileira tem que ser zoada. Que gente escrota. Os caras não deixam passar o metrô porque não querem a galera circulando no seu bairro. Aí vão para Nova York e a primeira coisa que elogiam é o metrô de Nova York, que vai para todos os lugares. Como vocês são trouxas, como são idiotas [risos]. Vocês vão lá para fora para elogiar uma coisa que amarram aqui.

PAS: Como você chegou na USP em termos de sexualidade?  Fala um pouco sobre essa metamorfose, digamos.

RV: Cara, eu cheguei na USP sendo um garoto, muito afeminada.

PAS: Um garoto gay?

RV: É, um garoto gay. Na verdade, um garoto nada. Eu não falava que eu era gay, nunca falei que sou gay. Mas cheguei na USP e na primeira semana já estava grudada com Assucena, que também entrou como um garoto. E é muito maluco aquele lugar, mexeu muito comigo.

PAS: A USP era um lugar que não tinha negros, dá para dizer que isso mudou bastante?

RV: Na minha época não tinha ainda. Não peguei a USP com cotas. Briguei por cotas dentro da USP. Ajudei, mas a briga já estava no final. Peguei o rolê na fase final da implementação do que viria. Mas não entrei por cotas, porque para mim não tinha. O que tinha de cotas eram as federais, mas eu queria muito USP. Mas entrei e já fui direto brigar, tanto que tem uma foto minha na capa da Folha de São Paulo apontando o dedo num episódio em que a Polícia Militar entrou na faculdade de história. Aí pegou fogo. Entrei brigando pela treta das faxineiras terceirizadas, que a USP demitia sem pagar. Bem no meu primeiro semestre, as faxineiras resolveram fazer greve. Na faculdade de história tem a galera reaça também, e virou uma grande treta lá dentro, uma parte dos alunos queria ter aulas. Como assim, vocês não estão vendo que as faxineiras estão tomando um golpe? E eu na porta da sala com uma vassoura na mão: “Não vai entrar aqui, você quer ter aula de Brasil colônia nessa situação?”.

PAS: E quanto à transição, vocês foram bem recebidas pela USP em geral? 

RV: [Pensa.] Fomos. Acho que eu fui. A transição é um grande abismo, você não presta muita atenção no resto. É um abismo psicológico, é como se você estivesse nascendo. A gente não sabe como nasceu, se doeu, se não doeu, como foi respirar a primeira vez, o que as pessoas estavam fazendo em torno da gente quando a gente nasceu. Para mim é meio isso, tenho um apagão na minha memória. Tem coisa que as pessoas me contam e eu não lembro. E tem as coisas muito bonitas, que é você se descobrir, descobrir as primeiras coisas. E tem as coisas horrorosas também, que é sofrer muitas violências. Não acho que sofri violência dentro da USP, não. Foi uma época em que as pessoas estavam muito combativas lá dentro, inclusive nesse sentido de proteção. 

PAS: Você não acha que as violências ficam meio escamoteadas nesse tipo de ambiente?

RV: É, mas acho que eu até me sentia mais protegida, porque o fato de você ser uma aluna da USP é uma proteção. Eu me sentia um pouco protegida, até do ponto de vista familiar.

PAS: A banda também ajudou como fonte de proteção?

RV: Sim, ainda mais porque a gente teve a sorte de o primeiro álbum ser extremamente bem recebido. As pessoas amavam. Honestamente falando, e agora sendo bem prepotente, acho que não surgiram coisas muito mais interessantes que aquela composição de duas mulheres trans com aquela linguagem. Ok, duas mulheres trans juntas, mas naquele lugar de linguagem que Mulher e Bixa propõem… Em Mulher as letras são absurdamente complexas. A gente estava numa fase bem hermética. Dentro da USP, a gente estava compondo enquanto discutia teoria da história. Muitas das nossas composições estavam em torno das aulas de (José Luís da Silva) Grespan, um professor de teoria da história. As aulas dele me davam até pesadelo [ri], no sentido de as teorias serem muito profundas. A teoria da história é uma coisa muito assustadora. A gente estava muito imerso naquilo tudo, e o primeiro álbum é muito pesado. É nada comercial aquele projeto, e mesmo assim as pessoas absorveram super bem. Eu nem ouço aquele álbum.

PAS: Também foi assim com a Liniker? Acho a música e as letras dela difíceis também.

RV: Você acha? Não acho, não. Ela sempre foi muito popular. Hoje ela é mais popular, mas sempre achei ela bem popular. As Baías, não. As Baías sempre foi uma banda hermética. Quando a gente tentou ser popular, o público detestou [risos]. Foi quando cantamos com Luísa Sonza.

PAS: Qual era a intenção ali?

RV: Era ser popular. Mas ninguém gostou.

PAS: Vocês estavam querendo fazer uma outra transição, digamos?

RV: Aquilo foi muito capitaneado por mim, mas todo mundo queria. Não foi uma imposição, todo mundo queria.  Mas eu estava muito em crise de só cantar para brancos da USP. Gente, a gente tem que abrir isso aqui. Não dá.  Não aguento mais cantar só para galera de Pinheiros.

PAS: Como é a Raquel solo, em relação a isso?

RV: Agora eu quero só cantar para galera de Pinheiros [ri]. Ah, cara, tem coisa que você tem que entender que é o que você é. Não sei ser popular na minha composição. Já tentei, fica chato, ruim. Não sou boa disso.

PS: E quanto à recepção na USP sobre a questão racial? Muita gente narra como é difícil, para pessoas negras, a chegada na universidade. Você também sentiu isso? 

RV: Dificílimo. A pior dificuldade para mim foi ficar. Uma coisa é acesso, outra é permanência.  Permanência é que é o bagulho. A estrutura da USP, de novo, é foda, foi construída para que negros não fiquem. A bibliografia,  o jeito que os professores dão aula, os debates como são construídos, o recorte de raciocínio, o recorte intelectual mesmo. Uma vez eu estava numa aula de América colonial e queria discutir a revolução do Haiti. Para mim talvez seja um dos momentos mais fundamentais da história da América. É ela que faz a leitura racial do que estava sendo discutido do ponto de vista do Iluminismo. Todos os princípios universais de liberdade e felicidade que estavam sendo discutidos em Europa do ponto de vista iluminista quem faz a tradução racial na América é a revolução de Haiti, que inspira os Estados Unidos e o Brasil. Ali é um epicentro intelectual negro revolucionário a partir das ideias iluministas. E não tem um curso dentro da USP sobre isso. Não tem debate sobre isso, nem bibliografia. Tudo isso foi me deixando muito louca. Eu pirei. Pirei, pirei.

PAS: A depressão que você citou teve a ver com isso?

RV: Tudo isso foi a minha depressão. Isso é a minha depressão. A minha depressão é a falta da revolução. É a faxineira fazendo greve, o aluno querendo estudar a Grécia, o eurocentrismo da faculdade…

PAS: O Iluminismo era universal, mas só para brancos europeus.

RV: …Esse racismo estrutural, e até o fato de por que as pessoas da USP se pegavam e eu não pegava ninguém dentro da USP. Você sabe quem foi meu namorado dentro da USP? O vendedor de maconha da favela. Negro. Foi meu namorado, namoradinho, a gente transava quando ele estava mandando droga lá para a galera. Aí a gente ia para algum mato lá da USP e transava (ri). Isso também é uma construção. 

PAS: Você é afrocentrada, em termos sexuais?

RV: Eu? Eu não, eu pego todo mundo (risos). Um pouco antes de entrar na USP, patriarcalizei com a elite paulistana. Meus grandes amigos todos tinham apartamento pela região central. Eu lembro de ficar chocada porque a galera brindava. “Vamos brindar”, como esse povo brinda (ri)! Tudo para mim era um choque. Por isso falo que sou uma pessoa selvagem.

PAS: Dado todo esse contexto, como é se aventurar ser uma artista solo?

RV: Cara, difícil, porque sou bem insegura. Sempre acho que não estou entregando. 

PAS: Esse uso do verbo entregar é tipo um vício capitalista, não?

RV: É, e eu nunca acho que estou entregando. Sempre acho que estou devendo alguma coisa, artisticamente falando. Porque estou devendo mesmo. Eu, Raquel, prefiro assim. Não ia achar legal achar que sou boa.

PAS: O que você sente na hora em que está ouvindo o seu disco, com um jornalista do lado?

RV: Ah, acho que está ruim. Vou sempre achar que está ruim, não só pela reação, também eu ouvindo. Tenho vergonha. Tenho que ser artista porque não vou conseguir ser outra coisa, no sentido da felicidade. Esse é o meu lugar feliz. Mas também é a minha tortura. E tem que tentar superar isso. Mas tem limites financeiros, esse álbum é totalmente independente, paguei tudo dele. Eu sofro [ri], meu Deus, como sofro, como me acho horrível. É difícil, mas eu também não achava fácil n’As Baías. Mesmo em grupo, nunca achei fácil. Sempre achei Assucena muito melhor cantora que eu, e sofria por isso. Eu tinha raiva dela por isso [risos]. Não sei se ela era minha rival, mas eu era dela [risos]. E tinha inveja. 

PAS: Uma banda com duas vocalistas é bem incomum.

RV: E duas vocalistas com personalidades muito fortes, embora Assucena sempre tenha sido mais leve – até o nome dela, uma açucena, eu sempre fui lida como o canhão da banda.

PAS: Ela provavelmente com mil questões também, o preconceito contra pessoas nordestinas…

RV: É, e tinha uma questão judaica também, que ela sempre trouxe. A gente sempre teve muitas questões.  Aquela banda ali era um caldeirão. É uma pena que haja um esquecimento, até de gente que entende de música. As Baías são zero citadas. Fico triste porque realmente acho que a gente foi importante.

PAS: Você está falando dentro do universo LGTB?

RV: Também, mas não só. Tenho nenhuma teoria, de que a banda As Baías foi menos importante para a causa LGBT e mais importante para o que a gente estava construindo musicalmente. Musicalmente a gente também quebrou muita coisa, até do ponto de vista da poesia que tava sendo cantada, da dificuldade que a gente assumiu. Também acho que a gente foi esquecida no universo LGBT. 

PAS: Não sei se concordo. Uma coisa importantíssima ali é a confluência. N’As Baías tinha mulher, negra e LGBT. O mundo só vai ter alguma esperança quando as três pautas caminharem juntas. E ainda tinha um cara na banda.

PAS: A gente falava para caramba disso, não nos álbuns, que sempre foram mais metafóricos. Mas em entrevista éramos muito militantes. Tanto que depois eu até fui uma das pessoas que falei: gente, vamos tentar ser menos militantes, mais legais. 

PAS: E tem como?

RV: Hoje não tento mais. Uma coisa que aprendi é que a gente é o que a gente é. Tem uma parte que sim, dá para montar uma persona. Já tentei fazer a linha “eu sou leve”. Não dá, velho. Eu era muito combativa, até com jornalistas. Eu era uó [risos], dava patada nos jornalistas.

PAS: Quando eles mereciam, ou também quando não mereciam?

RV: Eu dava patada geral. Essa jornalista da BBC mesmo foi um caso que levei bronca de todo mundo. Ela falou “explica como é ser trans”, eu falei: não. Cara, eu não vou te explicar. 

PAS: Isso não é uma patada, tem um sentido educativo até.

RV: Você sabe que jornalista é sensível [risos]. Se tu mete um “não vou te explicar isso, não”, o cara pega ranço de você e já era. Aprendi isso na raça. Uma vez eu disse: “Pô, você não estudou nem um pouco a pauta?”, tipo “você só sentou aqui na nossa frente e começou a perguntar?”. Eu era desse jeito. Teve uma vez que não era entrevista, o jornalista estava no camarim, antes de um show, dentro do Theatro Municipal. A gente ainda não tinha se apresentado, e aquela pessoa estava ali toda hora trocando o gênero da Assucena. Teve uma hora que aquilo me ofendeu, mesmo que ele estivesse falando só com Assucena. Levantei e falei: “Chega, sai do camarim [risos]. Você está trocando gênero, está confuso demais. Sai daqui. Eu preciso me concentrar para fazer um show e você está me atrapalhando. Vai embora”. Todo mundo me achava uó.

PAS: Isso aqui é o que você chama de ser violenta? Na verdade não é, você está se defendendo de violências.

RV: Gratuitamente eu nunca fui violenta, isso posso dizer. Não é que ela acordou e decidiu jogar canivetes. Mas nos meus 20 e poucos anos eu era uma pessoa muito reativa. Hoje sou muito menos, a gente se transforma, e vai entendendo o jogo do mercado também, o trabalho das pessoas. Você vai entendendo até o mercado da outra pessoa. Às vezes a pessoa não estudou a pauta porque está cheia de pauta, ganhando mal, obrigaram a ir ali fazer essa entrevista, nem estava a fim de fazer essa entrevista. E você também tem que ser gentil com essa pessoa, né? A gente nem foi tão agredida assim pelos jornalistas. Pelo contrário, olhando hoje daqui para lá, a imprensa foi bem legal com a gente. Muito do que a gente chegou onde chegou foi graças a muitos jornalistas, a jornalistas de verdade. Teve muito trabalho da imprensa em colocar a gente para a frente, “isso aqui é muito bom”. Talvez hoje isso tenha diminuído um pouco.

PAS: Voltando ao tema da guerra, esses avanços todos que estamos conversando deixaram os reacionários alucinados? Eles foram para a guerra, de fato. 

RV: Sim. Porra. Teve uma eleição que o tema era a gente. Trump subiu ao poder dessa última eleição, e o discurso dele foi contra pessoas trans. Não é que numa entrevista ele falou mal das pessoas trans. Ele falou no discurso de posse que homem é homem e mulher é mulher e que no governo dele essa “aberração” de trans não existe. A gente é importante a esse ponto? 

PAS: Por mais terrível que seja, é uma reação a alguma coisa nova que aconteceu. Ele não precisaria se importar se vocês estivessem quietas e escondidas nos seus cantos.

RV: Sim, é uma reação do caramba.

PAS: A reação no limite do perigo, de um cara que pode apertar o botão se quiser. E aí temos Raquel Virginia preocupada com o apocalipse. Se o apocalipse acontecer, vai ser pelas mãos de um homem branco desses?

“Não Incendiei a Casa por Milagre” (2025), de Raquel

RV: É interessante a sua leitura, de que é meio apocalíptico [ri]. A gente está lutando, tomara que dê tudo certo.  Estou ansiosa para ver o resultado, saber que as pessoas vão achar. Não Incendiei a Casa por Milagre foi totalmente ignorado. Tudo bem, a estratégia teve vários erros, mas mesmo assim, foi super-ignorado. 

PAS: Você e Assucena não se falam mais?

RV: Não, porque foi ruim para todo mundo. Eu não sei o que ela está fazendo. Tomara que esteja dando tudo certo, porque se não estiver dando certo para ela pode ser que não dê certo para mim. No final do dia, relativamente nós temos o mesmo peso. O que sei, do que acompanho mais de perto, é que nos principais festivais ela não está, o que acho ruim. Para mim e para ela. 

PAS: É preciso distinguir não estar “dando certo” do fato de vocês serem contra-hegemônicas, contra a corrente, não? 

RV: É, e também tem o fato de que quando o público estava engajando a gente foi lá e cortou.

PAS: Velhos amigos brigam, mas também se reconciliam às vezes. Você acha isso possível para vocês algum dia? 

RV: Como banda? Ah, cara, não vou ser a pessoa que vai falar que não, nunca, mas… Esses dias alguém procurou para fazer o vinil de Mulher nos dez anos de lançamento. Fiquei feliz, porque a gente nunca teve vinil de nada. Eu topei e Assucena topou. Só que Rafael [Acerbi] não topou. Sei que eles dois fazem coisas juntos, mas comigo não há interação. Rafael não topou, e eu fiquei triste. Pô, que merda, é um trabalho que já é pouco visibilizado. 

PAS: Você supõe razões para a recusa dele?

RV: Não sei. Acho que porque não quer ter nenhum tipo de interação comigo, com a obra.

PAS: Com uma obra que também é dele.

RV: A obra também é dele, ele é tão importante quanto eu e Assucena. Ele compõe, pra caramba. 

PAS: A banda tinha uma estrutura totalmente incomum, duas vocalistas, um homem que fica mais recuado. No rock’n’roll isso não existia. 

PAS: Cara, a banda era muito legal. Esteticamente falando, a banda é muito legal. Sem querer ser presunçosa, eu realmente acho que a gente foi um dos projetos mais interessantes que aconteceram naquele momento. Do ponto de vista de irreverência, talento vocal, expressividade artística, muitos projetos incríveis apareceram. Mas do ponto de vista de proposta intelectual na música, ninguém chegou perto. É só ouvir. Era um projeto muito foda.

PAS: A história de Assucena e você se parece de algum modo com a da Liniker e da Linn, que também estudavam juntas, não foi?

RV: Sim, em uma escola de arte, mas elas não eram uma dupla. E tinha uma coisa da academia. Sem querer comparar, Caetano Veloso foi um estudante de filosofia, e não à toa as músicas dele são daquele jeito. No caso d’As Baías, nós éramos uma faculdade de filosofia, porque a história é uma faculdade de filosofia. Não à toa estávamos dentro da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Letras, filosofia, sociologia, antropologia, geografia, era todo mundo ali numa mesma loucura. Por isso acho que conceitual, estética e filosoficamente As Baías é um trabalho único. 

PAS: Politicamente também?

RV: Não, tem bastante gente com posicionamentos políticos, mas estético e filosófico, com música, As Baías é um fator único. E é por isso que me dói o fato do apagamento. Ninguém fez um trabalho que mesclou intelectualidade e música como As Baías fizeram. No mundo LGBT, não. Talvez até por isso a comunidade LGBT tenha estranhado. Em geral a comunidade LGBT se liga a coisas muito eróticas, ou muito românticas, ou a uma militância escrachada, direta.

PAS: Vocês não estão em nenhum desses lugares.

RV: A gente não está em nenhum desses lugares. Baías não era erótico. Só no final, quando a gente foi cantar com Luísa Sonza, aí estourou a boca do balão. Os três primeiros discos, Mulher, Bixa e Tarântula (2019), são um caso único dentro do universo LGBT, de filosofia, estética, história. Porra, em Mulher tem uma música chamada “Josefa Maria“, que narra uma retirante nordestina. “Comida Forte” narra a construção de Brasília. “Apologia às Virgens Mães“, que é da Assucena, narra toda a contradição filosófica da maternidade em relação a Jesus Cristo. Desculpa, é uma parada muito única. Eram duas travestis cantando sobre a construção de Brasília, duas travestis cantando sobre uma retirante nordestina de 1930.

PAS: Era um disco de história?

RV: Era um disco de história, é por isso que eu estou dizendo.

PAS: Mas uma observação: a questão do esquecimento começa em vocês mesmos, se alguém do trio não quer o relançamento da obra, não? Se não resolverem isso entre vocês, não vai se resolver.

RV: Sim, eu também acho. Agora é uma questão nossa. Memória também é uma coisa que você precisa criar. Do lado deles, vai ter que ter um empresário ou alguém com essa cabeça. Eu tenho essa cabeça, sou a minha empresária. Também tive muita raiva d’As Baías, falava que não quero nunca mais saber deles. Mas hoje, passado o trauma, passado o tempo, também acho que a melhor coisa para nossas carreiras seria evidenciar As Baías. Porque, no final do dia, foi a banda que nos trouxe até aqui. Nem sei o que eles estão fazendo, mas tenho certeza que As Baías são um tema deles também. Tenho certeza que se um jornalista sentar com eles vai falar sobre As Baías. Não tem um jornalista com que eu converse que em algum momento não passe pel’As Baías.

PAS: A questão trans também? Ter que falar sempre sobre isso incomoda?

RV: Não, cara, é o que eu sou, é o que as coisas são. As coisas são o que são. Era melhor usar isso para nosso favor. Até porque foi muito dinheiro, muito tempo. Ali é a tradução de muita dor, de muita energia intelectual. Foram noites e noites e noites e noites e noites e noites e dias trabalhando em cima daqueles projetos, para ficarem escondidos, subvalorizados. Hoje nós estamos subvalorizados porque as pessoas nem sabem que existiu, e as que sabem que existiu talvez nem tenham ouvido direito.

PAS: Em seu modo de ver, qual é o papel da Pabllo Vittar em todo esse contexto?

RV: Da Pabllo? Ela é uma figura que popularizou pra caramba a conversa, principalmente de popularização e de um lugar chamado entretenimento, que é um ponto fundamental também da nossa cultura. Entretenimento também educa, e acho que a Pabllo educou. Muita gente na época chegou em mim e falou: “Pô, fiquei mais sensível porque vi a Pabllo falando tal coisa”.

PAS: Aquele momento em que ela beija o Diplo na boca foi inédito, não?

PAS: É, tem momentos dela no Fantástico, que muita gente comentou. A Pabllo é importante pra caramba para a cultura popular brasileira.

PAS: Mas ela não é trans…

RV: Não, ela é drag, e um menino gay. Ela é uma pessoa que pode estar passando aqui por nós de garoto. A drag tem o que a gente chama de montação, montar ou desmontar. Uma pessoa trans não se desmonta, não é uma montação. Pode montar também, mas a identidade trans é permanente daquela pessoa.  Todo mundo performa alguma coisa.

PAS: Até uma ou duas décadas, pessoas trans não podiam ir além de fazer dublagem e show de humor caricato em inferninhos gay. Sua geração mudou tudo, é tão bonito que não seja mais daquele jeito.

RV: É mais um motivo de por que acho As Baías tão importantes. Também é uma quebra nisso. É uma banda que trouxe um tom de seriedade para tudo, e de intelectualidade. As coisas se esquecem, se diluem, as importâncias vão ficando para trás. E vou te falar, coisas acontecem também no futuro. Pode ser que daqui a 30 anos digam: “Gente, como assim, vocês não valorizaram As Baías?”.

PAS: Só conheço um artista que não permitiu que uma banda bem sucedida voltasse: Rita Lee. Em algum momento todo mundo volta, só ela não voltou nunca aos Mutantes. A banda voltou, mas ela não foi. Há uma chance, talvez daqui a 30 anos?

RV: Minha questão não é nem voltar ou não, é não deixar algo que foi construído sumir. Acho difícil voltar, mas a maior questão para mim é: por que que não deixou a parada de dez anos vir? Ia ter uma galera que ia descobrir o projeto, ia dar uma alavancada nas carreiras individuais. E vou te falar, eu nem gosto tanto do álbum Mulher. Acho minha voz horrível (ri). Não é meu álbum predileto. Meu álbum predileto d’As Baías é o mais escondido de todos, que é o… Esqueci o nome do álbum [risos].

PAS: Ah, não é possível, se nem você lembra…

RV: Esqueci. Foi até indicado ao Grammy, assim como Tarântula foi indicado ao Grammy. Amo esse trabalho. Sou ruim de nome, espera [ela abre o celular e consulta]. É Enquanto Estamos Distantes (2020).

PAS: Ah, mas esse não é um EP?

A arte pop da capa de “Tarântula” (2019)

RV: É um EP, mas para Grammy ele é um álbum. Amo esse trabalho, mas ele é mais bobinho, mais romântico. De álbum, o que acho mais legal de todos é Tarântula. O que não gosto de Tarântula são só as artes.

PAS: Era já vocês caminhando pra querer ficar mais pop? 

RV: Era. Bixa eu também acho super bom.

PAS: De “mulher” passa para “bixa”, que passa para “tarântula”, isso foi programado?

RV: Foi programado. Foi programado dentro do USP. 

PAS: Deram os nomes dos álbuns antes de eles existirem?

RV: É. A gente já sabia que a banda ia acabar.

PAS: Na verdade, todas as bandas acabam. Menos os Rolling Stones.

RV. A gente programou que a banda ia acabar no terceiro álbum. O que não sabíamos era que ia ter indicação ao Grammy, gravadora, essas paradas todas. A gente não sabia, mas na nossa cabeça acabou no terceiro álbum. Aí foi continuando, vieram Enquanto Estamos Distantes, Drama Latino (2021). E termina em Drama Latino

PAS: Com Luísa Sonza.

RV: Com Luísa Sonza, Xand Avião, Kell Smith, Cleo. E Linn da Quebrada, em “Onça“, uma música da Céu, que pedi para ela.

PAS: São combinações estranhas.

RV: É super estranho. E ninguém gostou (risos). Ainda teve dois singles, “Mãe” (2021), com Ivete Sangalo, e “Primeiro Beijo” (2021), com Péricles.

PAS: Alguma delas foi bem tocada?

RV: A com Luísa, por causa dos fãs da Luísa, que vão com ela onde ela for. Nossa banda era muito respeitada pelos artistas, isso é um fato.

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