Fernanda Montenegro como Nossa Senhora em "O Auto da Compadecida". filme baseado em obra de Ariano Suassuna

Ao rejeitar o projeto apresentado em 2007 que pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil, a Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados assinalou os equívocos da proposta. Segundo o relator, deputado Átila Lira, o proponente, deputado Victorio Galli (Progressistas), pastor evangélico ligado à família Bolsonaro, não resolvia a questão que dizia querer resolver: ao substituir a expressão “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”, Galli seguia contrapondo-se ao principio de laicidade do estado brasileiro.

“Além disso, a proposição objeto deste parecer pode ensejar ou acirrar divisões entre cristãos católicos e não-católicos, o que seria lamentável, para não mencionar a total falta de amparo constitucional para situações dessa ordem”, alertou Átila Lira. O relator foi profético: ao ser publicizada aquela antiga tentativa de se destituir Nossa Senhora do título que ostenta, os cristãos católicos entraram em modo rebelião no País todo essa semana.

Victório Galli, autor da proposta, foi assessor de Jair Bolsonaro (preso) e faz campanha para Flavio Bolsonaro, e é atualmente candidato à reeleição a deputado federal pelo Mato Grosso. “O País, por ser um Estado laico, não deve ter este ou aquele padroeiro”, afirmou Galli à época, quando era filiado ao MDB. Tem um fato curioso na ficha do deputado no TRE: ele declarou que o total dos seus bens é de R$ 3.474,40, e que esses bens estão todos depositados em uma conta corrente em espécie, cujo valor é exatamente R$ 3.474.40.

O projeto de Victorio Galli mantinha o feriado religioso de 12 de outubro. Ele sustentava que o Estado está impedido de instituir qualquer tipo de culto, citando a Constituição de 1988. Segundo Galli, a alteração proposta “deve ser considerada democraticamente útil para a promoção da igualdade entre os cidadãos brasileiros, sem privilégios à maioria de orientação cristã”. Segundo ele, a proposta foi sugerida por “cidadãos que não professam a fé católica”.

O timing da controvérsia, que atinge aliados e adeptos das teses de Galli, é perfeitamente desastroso porque, nos próximos dias, além das romarias em tributo à santa que direcionam milhares de romeiros até Aparecida, no interior de São Paulo, haverá no dia 11 de outubro o Círio de Nazaré, em Belém, evento que atrai cerca de 2,5 milhões de pessoas até a capital paraense.

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