Marcelo Galter - foto: Diego Bresani/ divulgação
Marcelo Galter - foto: Diego Bresani/ divulgação

Em múltiplas frentes — pianista, compositor, arranjador, produtor — Marcelo Galter vem gozando merecido reconhecimento como um dos maiores músicos de sua geração. Artista talentoso, seu nome figura, entre estes tantos papéis que desempenha com maestria, ao lado de nomes como Daniela Mercury, Ilessi, Érika Ribeiro, Bernardo Ramos, Mocofaia (trio que integra, ao lado do guitarrista Sylvio Fraga e do percussionista Luizinho do Jêje) e, agora, Dorival Caymmi (1914-2008).

Após o merecidamente elogiado “Bacia do cobre” (Rocinante, 2021), o músico acaba de lançar “Marcelo Galter investiga a beleza sem fim de Dorival Caymmi” (Rocinante, 2026), de título autoexplicativo, longe de ser pedante: é literalmente uma investigação sobre a beleza da obra consistente e sempre comovente do conterrâneo, influência confessa.

O piano de Galter tem marcas que tornaram-se características suas, ao longo de sua trajetória: a elegância, a transposição de outros instrumentos para suas teclas, cordas e martelos, e, por falar nestes, certo grau de percussividade. O encontro com o velho Dorival, se não era inevitável, foi acertado.

A obra de Caymmi é essencial: nem grande nem pequena. Há quem ache que produziu pouco para os mais de 90 anos que viveu. Há quem faça as costumeiras piadas sem graça com a preguiça invariavelmente atribuída aos baianos. O fato é que, mesmo diante de um repertório “pequeno”, “curto”, escolher no que mergulhar não foi fácil, admite Galter, diante de um legado em que nada escapa ao rótulo de obra-prima.

“A seleção de repertório foi bastante desafiadora. Uma relação afetiva foi muito imponente na hora de escolher. A gente tentou revisitar algumas fases da música de Caymmi: a fase das canções praieiras, dos sambas sacudidos e das melodias sobre temas populares/folclóricos. A única fase em que não se mergulhou foi a dos sambas-canções, por uma questão de direcionamento: a gente quis trabalhar aspectos da música dele que nos ligassem à cultura da Bahia”, revelou o artista em entrevista a Christyan França e este resenhista no Timbira Cult do último dia 1º. de setembro, na Rádio Timbira FM, de São Luís do Maranhão.

A única faixa autoral é “Promessas” (Marcelo Galter, Ldson Galter e Reinaldo Boaventura), “feita em torno de alguns fragmentos melódicos reconhecíveis em toda a obra de Caymmi, que navegava por influências diversas, desde os pregões de rua. Na faixa há algumas saudações, por exemplo, a Iemanjá, citada em “Promessa de pescador””, que abre o repertório do álbum, revelou também.

Galter está acompanhado do mesmo grupo de “Bacia do cobre”: Ldson Galter (contrabaixo), Reinaldo Boaventura (percussão) e Luizinho do Jêje (percussão) — que alia o sagrado dos terreiros de religiões de matriz africana a instrumentos feitos com panelas, por exemplo —, e conta ainda com a participação especial do instrumentista, cantor e compositor guineense Mû Mbana, que comparece a três das oito faixas do álbum, com flauta e voz — a de Galter também vira instrumento em algumas faixas, desmontando barreiras e hierarquias entre música cantada e instrumental.

O resultado da investigação de Marcelo Galter é um disco absolutamente livre, que apresenta uma leitura extremamente original da obra de Dorival Caymmi, com suas doses de ousadia, inovação, experimentação, renovação e, para repetirmos uma palavra que consta do título, beleza.

"Marcelo Galter investiga a beleza sem fim de Dorival Caymmi" - capa/ reprodução
“Marcelo Galter investiga a beleza sem fim de Dorival Caymmi” – capa/ reprodução

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Ouça “Marcelo Galter investiga a beleza sem fim de Dorival Caymmi”:

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