“Villa-Lobos” (Rocinante, 2026), segundo álbum solo da pianista Erika Ribeiro, sucede o que ela dedicou a peças de (batizado com os nomes dos compositores) “Sofia Gubaidúlina, Hermeto Pascoal e Ígor Stravinsky” (Rocinante, 2021) — entre eles, realizou ainda álbuns em duetos com a cantora Tatiana Parra (“Entre luas”, 2023) e a violinista norte-americana Francesca Anderegg (“Navigator of silences”, 2024).
“Com quatro anos eu já estava tocando algumas coisinhas. Eu não tenho uma primeira memória de quando eu comecei. A minha sensação é que eu sempre toquei piano, é muito engraçado. Foi ali ao longo da minha adolescência que eu fui sentindo que isso era um desejo muito sério e eu não conseguiria tocar minha vida sem estar perto da música”, contou-me a artista em entrevista ao Timbira Cult (Rádio Timbira FM, 95,5MHz) de terça-feira passada (14).
“Foi mais ou menos nessa época mesmo que eu já conheci Villa-Lobos (1887-1959), comecei a tocar algumas das composições. Ele tem uma obra para piano gigantesca, maravilhosa, porque ela abarca desde o pianista menos experiente, com algumas obras para iniciação, até obras super complexas, como o “Ciclo brasileiro”, o “Rudepoema”. É muito bonito esse pensamento do Villa em relação ao piano, em relação ao jovem músico, e foi assim que eu também já me apaixonei pelo repertório e nunca mais parei de tocar e de ouvir principalmente toda a produção de Villa-Lobos. A produção dele para orquestra é uma coisa maravilhosa, é um monumento brasileiro, a gente tem muito do que se orgulhar”, confessou.
Disponível em vinil e streaming, “Villa-Lobos”, o álbum, vai além do óbvio, seja na escolha do repertório, seja nos arranjos e na própria forma de Erika Ribeiro encarar o instrumento. “A gente tem o piano num lugar do ideal romântico e o piano é um instrumento muito amplo, a gente tem muita coisa para fazer quando você é pianista. Ainda bem. Eu sou muito apaixonada pelo meu instrumento”, disse, deslocando o piano, ampliando suas possibilidades.
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QUERO APOIAR“New York skyline” e “Feijoada sem perigo” — composta em 1955, esta tem, neste álbum, apenas sua segunda gravação (a primeira, de 2008, é da pianista Sonia Rubinsky) — estão entre os lados b que Erika escava, para além da superfície de temas mais conhecidos, como Choros nº. 5 (Alma brasileira) e “Bachianas brasileiras nº. 4 (Dansa: Miudinho)”.
Erika Ribeiro (piano e Wurlitzer) divide a direção artística com Sylvio Fraga e a musical com Marcelo Galter (Wurlitzer, arranjos e produção musical); seu grupo se completa com Natália Mitre (marimba e berimbau), Reinaldo Boaventura (percussão) e Ldson Galter (contrabaixo). Em “Viva o carnaval!”, faixa que abre “Villa-Lobos”, desponta um naipe de enxadas (percutidas por Marcelo, Reinaldo e Ldson), o que explica o uso de verbos como cavucar e escavar nesta resenha.
Mais de 65 anos após sua morte, o compositor e maestro Heitor Villa-Lobos segue sendo um dos nomes mais importantes da música brasileira em todos os tempos, inclusive pelo modo com que conseguiu se equilibrar na linha (tênue) entre música erudita e popular, não raro subvertendo seus limites. É incontestável a perenidade e relevância de sua obra, já abordada, com as mais diferentes nuances, por grandes mestres como Egberto Gismonti, João Carlos Assis Brasil (1945-2021), Tom Jobim (1927-1994) e Turíbio Santos, constelação de primeira grandeza ao qual Erika Ribeiro se junta com maestria.

Ouça “Villa-Lobos”:





