Teresa Cristina enfrenta no álbum Tudo Que Eu Tenho uma realidade que é bem conhecida, mas muito pouco abordada: a má vontade geral com a qual costumam ser recebidas as mulheres que, além de cantar, optam por compor as canções que interpretam.
Seu novo trabalho, que tem sido caracterizado como o primeiro 100% autoral em 24 anos de trajetória discográfica, interrompe uma década de relação, percalços e litígio da cantora e compositora com a produtora Uns e Outros, de Paula Lavigne (e Caetano Veloso). Firmado em 2015, o contrato de gerenciamento artístico foi rompido por Teresa em 2020, ou seja, no ano 1 da pandemia de covid-19 e no auge do sucesso das lives político-musicais promovidas pela artista em confinamento.
Teresa não conseguiu reverter na Justiça o acordo, assinado em 2017, segundo o qual transferia para a Uns e Outros os direitos patrimoniais sobre a totalidade das obras que criasse até 2027. Foi um obstáculo de tamanho considerável, uma pedra que a própria Teresa colocou no meio de seu próprio caminho, e que truncou por cerca de uma década sua atuação como compositora. À espera de 2027, o álbum Tudo Que Eu Tenho traz ainda a marca da Uns e Outros Produções como editora de suas dez canções.
Após um começo em tempo de maracatu (provável alusão ao fato de o Nordeste ter salvado o Brasil nas eleições presidenciais de 2022), a faixa-título burila o tom habitual do samba vibrante da autora Teresa, com versos que podem remeter à situação limítrofe que o país enfrenta, sempre à beirada do abismo neofascista. A novela política se prorroga desde o processo golpista contra a presidenta Dilma Rousseff, iniciado em 2013 e desfechado em 2016, um ano espremido entre o do contrato de gerenciamento artístico e o da cessão dos direitos autorais de Teresa à produtora de Paula Lavigne.
“Tudo que eu tenho/ excelência quis levar, levou/ levou engenho/ e o riacho por detrás/ queimou aldeia/ fez voar os passarinho/ me tirou cedo do ninho prometendo proteção”, a letrista explica o estado de coisas em “Tudo Que Eu Tenho”, remetendo num só fôlego a golpes de Estado, a tentativas golpistas, à ameaça neofascista, à estrutura de casa-grande e senzala que fincou os alicerces do Brasil e repercute até os dias de hoje, ao mito farsesco de cordialidade e democracia racial encetado desde Gilberto Freyre e antes.
“Me solte em qualquer rua, eu canto/ impeça meu cantar, eu grito/ também posso calar/ se assim eu desejar/ eu quero é concordar comigo”, diz “Tudo Que Eu Tenho”, passível de ser interpretada como uma reação, por que não?, à metodologia de casa-grande e senzala aplicada também nos contratos com Paula Lavigne (e Caetano Veloso). O final do samba é o vislumbre da liberdade logo ali adiante: “Ganhei a rua, fui ouvir a voz do povo/ e olha eu aqui de novo/ eu daqui saio mais, não”. A luta por liberdade, a propósito, é a senha central do álbum.
Outro recado reto de Tudo Que Eu Tenho está no carnaval cálido de “Meu Bloco“, um acúmulo de diversas camadas de tensão (política, racial, de gênero etc.): “Meu samba não é chapa branca nem dá sermão/ nasceu embalado nas mãos da mulher/ cansei da sua pirraça, sem tempo, irmão/ meu samba eu canto onde eu bem quiser”.
Depois de citar (não inocentemente) o Planalto Central do Brasil, Teresa conclui “Meu Bloco” peremptória, oscilando entre o temerário “ele não” (que há oito anos redundou em pavoroso “ele sim”) e outros “eles”: “Meu estandarte é negro, é tupiniquim/ sou batuqueira, sim/ sou brasileira, sim/ e no meu bloco ele não toca tamborim”.
Uma compositora bissexta?
Retomando o fio da má vontade disseminada contra mulheres compositoras – e, em particular nesse caso, contra a mulher, negra e compositora Teresa Cristina –, convencionou-se repetir constantemente que sempre foi pequena a presença da artista carioca hoje com 58 anos nesse território. Trata-se de uma meia-verdade, se não for uma mentira deslavada plantada pelos inimigos patriarcais/patrimonialistas de sempre. Vejamos.
Teresa Cristina está presente no cenário musical como compositora desde pelo menos 2000, dois anos antes de ser lançada como intérprete no álbum duplo A Música de Paulinho da Viola (2002), ainda sob a assinatura artística de Teresa Cristina & Grupo Semente (o primeiro álbum se assumindo como artista solo só aconteceria 14 anos depois, em Teresa Cristina Canta Cartola). De uma ponta a outra, agentes do mercado musical apostaram (com aceitação da artista) no discurso da Teresa-intérprete, enquanto ela seguia compondo seus sambas secretamente, ou nem tanto.
Foi o sambista carioca Ernesto Pires quem gravou, em 2000, no álbum Novos Quilombos, a canção ilustrativamente batizada de “Samba do Esquecimento“, assinada por Teresa e dois parceiros masculinos, história de um provável encontro (ou colisão) de amor: “Tavam sentados debaixo de um viaduto/ um tava de branco, outro tava de luto/ um galinha frita, outro pão dormido/ (…) um era de berço, outro mal nascido/ um tava no cio, outro tava em luto/ (…) um rezando terço e o outro na encruza/ (…) tavam debaixo da vida com a cara no mundo/ tavam afiando os cascos, pisando mais fundo/ era tão junto seu rastro que os dois eram um só/ tavam com a cara sofrida que até dava dó”.
Daí por diante, a pré-Teresa Cristina assinou uma composição para o bloco Bangalafumenga, “Bate Palmas” (2001), e debutou na voz da dona (mas em coro com todo o elenco) a canção-título e canção de anunciação do espetáculo e álbum coletivo O Samba É Minha Nobreza (2001), parceria com o histórico Hermínio Bello de Carvalho e com Luciane Menezes: “O samba é uma grande escola/ dia de amor e beleza/ o samba faz parte da natureza”. No mesmo projeto, Teresa canta, solo, seu samba em levada de candomblé “Candeeiro” (que regravaria em estúdio em 2004).
Também em 2002, enquanto gravava o cancioneiro de Paulinho da Viola, ela apresentou “Amém” (“você cansou/ e eu também/ nosso romance acabou/ amém”), escrita e cantada em dupla com o veterano Argemiro Patrocínio, que debutava em disco solo num projeto de gravações de luminares da velha guarda da Portela pelo selo Phonomotor, de Marisa Monte.
A mesma Marisa assina agora com Teresa uma composição estritamente feminina, a mais luminosa de Tudo Que Eu Tenho, “Pode Acontecer“. Melodia tipicamente Marisa, versos plenamente Teresa, o samba equipara os acasos da vida humana à natureza: “Pra vir a chuva o céu escurece/ cigarra canta e anuncia o calor/ a noite cansa, o dia amanhece/ na maré cheia a lua mudou/ posso cruzar com você numa esquina/ a qualquer hora pode acontecer/ eu posso até me perder de você, paciência, é melhor deixar pra lá/ mas se eu cruzar meu olhar com o seu/ você seguir e depois se virar/ eu posso até me perder com você, paciência, é melhor deixar rolar”.
A Teresa-compositora aflorou no segundo álbum com o Grupo Semente, A Vida Me Fez Assim (2004), em que assinou oito das 15 faixas, inclusive as bonitas “Acalanto” (“em todo samba que faço/ tem espaço, eu ponho o mar/ mãe Oxum, me dá licença que eu gosto de navegar”), “A Borboleta e o Passarinho” (“de galho em galho vai voando o passarinho/ que de mansinho é que chega a liberdade/ de folha em flor a borboleta vem sorrindo/ e não se fala de outra coisa na cidade”) e “Pedro e Tereza” (“fazenda velha, cumeeira arriou/ levanta, negro, cativeiro acabou/ se negro soubesse o talento que ele tem/ não aturava desaforo de ninguém”), todas compostas exclusivamente por ela.
Como se percebe, o clamor por liberdade sempre esteve presente, em cada linha, e “Pedro e Tereza” já investia com valentia no confronto com as teorias de “democracia racial” dos inventores do sistema casa grande & senzala.
Solitariamente ou em parcerias variadas, Teresa prosseguiu fornecendo sambas floridos, peraltas e/ou reflexivos para gravações de Cordão do Boitatá (“Marcha das Flores“, 2004), Tia Surica (“Cafofo da Surica“, 2004), Mariana Baltar (“Vai com Deus”, 2006), Pedro Miranda (“Cumplicidade”, 2006), Arlindo Cruz (a oração afro “Oferendas“, 2011)…
Parcerias 100% femininas começaram a surgir, com Joyce Moreno (“Sem Poder Dançar“, 2012, gravada por Joyce), Katia B (“Armadilha“, 2012, lançada por Katia) e (Karina) Buhr (“Vagalume“, 2013, gravada por Camilo Frade).
As composições próprias abundaram nos álbuns seguintes, ao vivo ou em estúdio: “Pra Cobrir a Solidão” (2005), “Senhora das Águas” (2005), “Cordão de Ouro” (2005), “Cantar” (2007), “Delicada” (2007), “Se a Alegria Existe” (2007) e uma cachoeira em 2010, com “Poesia”, “Um Samba de Amor”, “Má Impressão”, “Couve É Nome de Maria”, “Guardo em Mim”, “Lembrança”, “Convite à Tristeza”, “Capitão do Mato”, “Morada Divina”, “Trégua Suspensa”.
Em 2013, Teresa inverteu expectativas e arejou o samba com um mimoso álbum devotado às canções de Roberto Carlos, assinado por Teresa Cristina + Os Outros, em que a equação Teresa mais Os Outros resultava em pop, rock e… samba de MPB.
E então aconteceram os encontros, desencontros e complicações com Uns e Outros (outros outros, não Os Outros). A produção autoral minguou, pode-se especular que por emburramento da artista ou por sua recusa a seguir dividindo o suor do próprio trabalho com quem não compôs uma vírgula.
Na década e meia de hiato, 2011-2026, apareceram pouquíssimas composições próprias: “Ouvi Dizer” (2017) e “17 de Janeiro” (2021), gravadas por Mart’nália; “Natureza e Fé” (2018), por Moacyr Luz; “Velha Senhora”, por Marina Íris e Fabiana Cozza; “Awurê” (2021), pelo grupo homônimo; “Gatilho” (2021), pelo quarteto Alfredo Del-Penho/João Cavalcanti/Moyseis Marques/Pedro Miranda.
Sob jugo de Lavigne, Teresa limitou-se a batucar na mesma tecla, realizando shows e álbuns inteiramente devotados às obras do preto Cartola e do branco Noel Rosa, esse sob direção musical de pai Caetano. Já livre do contrato, Teresa apimentou a saga da intérprete no início deste ano, com o álbum Jessé – As Canções de Zeca Pagodinho.
Tudo que ela tem para mostrar
Tudo Que Eu Tenho, portanto, não é um trabalho de exceção, mas a consolidação da verve autoral, cujo abre-alas, emoldurado por sons de orquestra, mora na melancolia serena de “Notícia Boa”: “Cansada de remar contra a maré/ a vaga embala o que restou de mim/ sem porto pra chegar/ sem ter onde agarrar/ o acaso me deixou tão triste assim/ nem sempre a vida dá o que se quer/ que plano o criador traçou pra mim?/ não quero descansar/ sem antes explorar/ a chance de encontrar felicidade/ deixo a maré levar/ que a onda vai trazer/ uma notícia boa”
Conciliando como sempre tons melancólicos e alegria, Teresa-autora se espalha pelo álbum nos tons nordestinos de “Nostalgia”, no samba bêbado-entorpecido “Quando a Onda Passar” (“onda”, curiosamente, é uma palavra recorrente em seu cancioneiro), na tensão-casulo entre lagarta e borboleta (“Taturana”) e, na reluzente reta final, nos cantos afro-indígenas para orixás femininas (“Yabá”), caboclos tupinambás (“Bate pa Ó”) e as várias manifestações do orixá da guerra (“Canto para Ogum“).
“Eu quero é paz e alegria”, conclui o “Canto para Ogum”, depois de evocar Ogum de Ronda, Ogum Marinho, Ogum Malê, Ogum Megê, Seu Matinata, Ogum da Lua, Ogum Menino, Ogum Yara, Ogum de Lei e Cavaleiro de Aruanda. O recado aqui é: não mexe com Teresa, que ela não anda só.
Se Teresa Cristina é compositora ausente, secreta, caudalosa ou inspirada, é matéria para julgamento de nós, os de má vontade. Por ora, em Tudo Que Eu Tenho, ela ora por liberdade – e pode, por ironia, eventualmente se queixar da liberdade dos outros, como faz no canto alegretriste de “Nostalgia”: “Passarinho na gaiola, ele só quer voar/ só quer voar, só quer voar/ quando canta é de saudade e sopra a dor no ar/ sopra a dor no ar, sopra a dor no ar, o cantador/ canta a dor que há, o cantador/ deixa a dor pra lá/ foi-se embora o passarinho e me deixou aqui/ ganhou toda a liberdade e não quis dividir o meu amor/ não quis dividir o seu amor/ deixei ele ir”.
Na clave pândega, “Quando a Onda Passar” embaralha letras, palavras e ideias na tropeguidão de “quando a onda passar/ e a cachaça bater/ a coragem, cadê/ pra dizer que o amor terminou/ se esse amor terminar/ quando a onda bater/ a cachaça cadê/ nosso tempo acabou”. O refrão em pique de samba do esquecimento consuma tudo, cíclico, contraditório e dialético como a própria natureza: “Por mais que eu não queira partir, não dá pra ficar/ perder pra ganhar/ lutar pra vencer/ o amor tá tentando insistir/ mas deixa pra lá/ prefiro tentar te esquecer”.
Quando a onda passar
E a cachaça bater
A coragem, cadê
Pra dizer que o amor terminou
Se esse amor terminar
Quando a onda bater
A cachaça cadê
Nosso tempo acabou
Se o tempo acabar
É só vida que segue
Não se tem compromisso
De lembrar mais ninguém
Como brisa no ar
Esse amor me persegue
E por mais que eu me entregue
Não me sinto esse alguém
Por mais que eu não queira partir
Não dá pra ficar
Perder pra ganhar
Lutar pra vencer
O amor tá tentando insistir
Mas deixa pra lá
Prefiro tentar
Te esquecer
Uns e Outros 2015, gerenciamento artístico e produção de shows; em 2017 Teresa transfere diretos patrimoniais sobre a totalidade das obras criadas por ela até 2027; litígio começa 2022; relação começa a azedar em 2020, junto com sucesso das lives, e contrato de gerenciamento é rompido (Teresa paga multa); Uns Editora fica com 25% do arrecadado; Paula ganha em primeira instância 2022, segunda instância anula; em 2025 Teresa perde

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