A Agência Nacional de Cinema (Ancine) reabriu nesta quinta-feira, 10, o processo pelo qual tinha concedido o registro de Obra Estrangeira para a controversa produção Dark Horse, abastecida com dinheiro público desviado pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro. A agência tinha concedido o registro de Obra Estrangeira de Espaço Qualificado ao filme no dia 21 de agosto, em despacho assinado pela servidora Anna Garofalo, coordenadora substituta de Registro e Classificação da Ancine.

A reabertura do processo de registro do filme na Ancine foi requisitada pelo diretorpresidente da Ancine, Alex Braga, indicado por Jair Bolsonaro (com apoio de Soraya Santos, deputada do Centrão), cujo mandato fixo na presidência termina em 19 de outubro de 2026. A concessão de registro à produção, apesar das evidências e das investigações sobre as irregularidades em seu percurso, tinha sido feita de forma burocrática, sem o exame da direção da agência.

Como o acesso é restrito, não é possível saber a argumentação do diretor-presidente para a reabertura do processo, mas a circunstância política permite uma dedução: a quinta-feira foi o dia em que o ministro Flávio Dino, do STF, determinou a reintegração do diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e autorizou uma devassa investigativa no “sistema delitivo” encabeçado pelo deputado federal Mário Frias para realizar repasses financeiros para a produtora de Dark Horse. Frias é o produtor do filme e destinou emendas de seu próprio gabinete para o filme, além de negociar com Flávio Bolsonaro a intermediação do liquidado Banco Master para a produção. O dinheiro distribuído pelo Banco Master a aliados de Vorcaro provinha, majoritariamente, de fundos de pensão de aposentadorias de munícipios e Estados, todos eles sob domínio da extrema-direita política brasileira.

Não é praxe o que ocorreu na Ancine. O registro de obra estrangeira é um processo corriqueiro e não costuma ser reaberto, a não ser motivado por uma circunstância extraordinária. A distribuidora que se habilitou para a produção, Europa Filmes, necessitaria ter de abrir um novo processo para obter a autorização da Ancine de distribuição. Como não houve uma comunicação pública da agência, em nome da transparência, sobre o que acontece no trâmite de uma das mais complicadas produções do cinema em um século, realizada de forma quase subterrânea e sem quaisquer prestações de contas, não é possível informar com precisão sobre esse percurso.

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