Douglas Germano

O artista paulistano Douglas Germano demorou para florescer na música (tem hoje 53 anos), e floresceu num período soturno da história brasileira, principalmente a partir de uma canção-símbolo chamada “Maria de Vila Matilde” (2016), tornada histórica na voz feminista de Elza Soares: “Jogo água fervendo se você se aventurar/ (…) cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”. Bem antes, aos 20 e poucos anos, Douglas havia composto “Vida Alheia”, que mostrou no território da escola de samba Camisa Verde e BrancoArlindo Cruz ouviu e o samba acabou gravado pelo grupo Fundo de Quintal, em 1991. Não era tempo de colheita, e Douglas mergulhou na carreira de designer gráfico.

O samba parecia ser (e era) seu modo de expressão, mas não foi exatamente esse gênero que o trouxe à tona, 16 anos depois de “Vida Alheia”. Em 2007, mesma época em que Fabiana Cozza gravou seu samba “Mestre-Sala”, aconteceu o encontro de Douglas com Kiko Dinucci – um periférico de Poá encontrava um periférico de Guarulhos, para começar a mexer num reservatório que criaria, na virada dos anos 2000 para os 2010, uma nova vanguarda paulista. A parceria Douglas-Kiko se iniciou como Duo Moviola e se mantém até os dias atuais*. Gravações da obra do compositor por Kiko, Juçara Marçal Metá Metá (trio formado por Kiko, Juçara e Thiago França) começaram a atrair atenção, antes mesmo de acontecer a “hecatombe” Elza Soares.

Douglas mostra-se angustiado com o fato de sua música só alcançar o que ele chama de uma “bolha pequeno-burguesa”, a camada social que, ironicamente, abraçou a música nada fácil ou superficial desse grupo formado por artistas de origem periférica, marginal nesta sociedade de classes. Ele lamenta a indiferença de seus pais ou dos colegas de futebol de várzea em relação ao samba elaborado que elabora, e por isso mesmo acaba de lançar um disco chamado Partido Alto, em parceria com o grupo Batuqueiros e Sua Gente.

O novo trabalho contrasta com o antecessor, o maiúsculo Escumalha (2019), um álbum irado contra o bolsonarismo e contra o fascismo, que sem saber marcou com altivez a despedida do compositor carioca Aldir Blanc, seu parceiro em “Valhacouto”, morto de covid no início da pandemia. “Foi na Alemanha que a escumalha/ fez armas virarem leis/ em vales de lama onde a canalha/ roubava vidas sem talvez/ é um valhacouto: sangue e mentiras/ vitória da insensatez”, Aldir antecipou 2020 e 2021 em 2019. Douglas contabiliza 14 pessoas próximas mortas pelo coronavírus (e pelo bolsonarismo, e pela anomia brasileira).

A trajetória até então bem-sucedida do show Escumalha teve de ser interrompida pela pandemia, e Douglas diz sobreviver com grande dificuldade à impossibilidade de trabalhar a pleno vapor. A partir desta sexta-feira, 27, ele tenta amenizar a distância do palco com uma série de lives batizada Paiol, em que faz uma retrospectiva dos três álbuns-solo lançados até aqui. Toca primeiro Orí, de 2011, e segue nos dias 10 de setembro, com Golpe de Vista (2016) e 1º de outubro, com Escumalha. 

A densidade das letras de Douglas Germano e a tensão que o empurra para dentro e para fora da bolha se explicam a partir de uma origem incomum: apesar de periférico, ele veio a nascer numa casinha encravada na Rua Grécia, no coração do Jardim Europa, um dos bairros mais ricos de São Paulo. Na entrevista a seguir, Douglas conta essa história e outras que compõem o imaginário de um personagem ímpar, que tem deixado marcas importantes na música brasileira deste início de século 20.

Pedro Alexandre Sanches: Por que a live se chama Paiol?

Douglas Germano: Eu precisava dar um nome, né? É uma reunião das coisas que acho mais agudas no repertório dos três discos, e por conta disso dei esse nome, Paiol.

PAS: Lembra o “Paiol de Pólvora” (1973) de Vinicius de Moraes e Toquinho.

DG: É um pouco isso mesmo.

PAS: Também estamos num paiol de pólvora agora…

DG: Completamente. Aliás, nunca os paióis foram tão necessários.

PAS: Você está sem se apresentar ao vivo desde o início da pandemia? Como tem sido esse período?

DG: Péssimo, terrível. É terrível essa condição de trabalho, inviável. Tenho uma certa frustração porque eu tinha shows marcados para o ano inteiro. O disco Escumalha (2019) estava rolando tão bem que fui convidado para fazer a Virada Cultural. Geralmente a gente fica mandando edital, pedindo pelo amor de Deus, e eu fui convidado, ia fazer dois dias, a sexta e o sábado. Foi tudo por água abaixo. Minha última apresentação foi exatamente em 13 de março de 2020. O disco estava começando a caminhar, se a gente volta em 2022 não tem sentido voltar com um trabalho que lancei no primeiro semestre de 2019. Vou ter que ter alguma produção nova para conseguir rodar.

PAS: Paiol então já é uma resposta a isso?

DG: Seria uma muleta, na verdade. Compus algumas coisas nesse período, com muita dificuldade, porque confesso que a última coisa que eu estava com vontade de fazer era pegar o violão. Perdi pessoas próximas. Mas, no último semestre agora que a gente passou, consegui produzir algumas coisas que seriam interessantes para um novo trabalho. Algumas delas toquei no especial que fiz para a Casa de Francisca no mês passado. Eu teria já um repertório para fazer uma coisa nova, sem precisar recorrer ao repertório dos discos anteriores.

PAS: Por outro lado, seria jogar meio fora o que você tinha lançado.

DG: Ah, sim, no que diz respeito ao Escumalha, sem dúvida nenhuma. E não sei nem se vou conseguir produzir um show com aquele tamanho. Tinha uma equipe grande, projeção, cenário, luz, um monte de coisa. Aquilo tudo foi praticamente abortado.

PAS: Mas tudo que você diz nesse disco ainda está valendo, não?

DG: Está tudo valendo, sem dúvida está. O que está posto ali, aliás, parece que está bem longe de se dissipar. Mas o lance do show, aquela configuração, posso talvez pensar algumas músicas. Hoje, com as plataformas digitais, não faz sentido fazer um disco muito extenso. Se sai um disco com dez músicas, dez músicas não seguram um show, então pinço coisas do Escumalha para fazer um show. Dá para trazer o repertório do Escumalha para um show novo.

PAS: Como se sobrevive por 16 meses sem trabalhar?

DG: Não sobrevive. Dificuldade imensa. Cai um pingado de direito autoral, que salva, dá para fazer a feira. Tive um ProAc que tinha conseguido em 2019, então espaçamos os pagamentos desse ProAc ao longo desse período, para conseguir segurar. Os prazos foram sendo prorrogados, e no final transformei esse ProAc agora nessa live. A Secretaria de Cultura do Estado teve a sensibilidade de topar isso. É uma graninha que entra aqui, um mês não entra nada, no outro entra um pouquinho. Muito difícil. Eu e minha companheira estamos aqui segurando as pontas, Tania (Viana) trabalha no Theatro Municipal, canta no Coral Paulistano, é empregada lá. O salário dela não dá conta de tudo, mas ajuda. Eu tento somar um pouquinho, e assim vamos levando, aos trancos e barrancos, cortando todas as despesas.

PAS: As lives então são a entrega do resultado do ProAc?

DG: É, uma adaptação, porque seriam shows em seis cidades e mais uns workshops de composição que eu faria nas cidades que se interessassem. É o show inteiro que eu faria, que reúne os três discos, e nas três lives vou separá-los e abordar por disco, tratar do conceito de cada um deles, Orí (2011), Golpe de Vista (2016) e Escumalha.

PAS: Na Lei Aldir Blanc você não entrou?

DG: Rapaz, eu moro em Ribeirão Pires (município a 35 quilômetros da capital paulista). Me inscrevi, mas eu não tinha como comprovar um ano de trabalho na cidade. Aqui não tem mercado, e ao mesmo tempo em São Paulo, onde trabalho mais, não podia porque minha residência é aqui. Não consegui pegar.

PAS: Mesmo com todas as dificuldades, descobri agora que você tem um disco novo. Ele foi produzido neste período?

DG: Sim. É extraordinário o resultado que a gente conseguiu com esse disco, porque cada pessoa foi para o estúdio sozinha. Imagina aquele coro no resultado sonoro do disco, cada um gravou sozinho. Eram só Henrique Araújo, que fez a direção musical, o técnico de som e o músico que ia gravar – e eu fui um dia para colocar a voz. Esse disco é o seguinte: a produtora dos Batuqueiros e Sua Gente, conseguiu um ProAc, e eles estavam com a ideia de me convidar para ser o compositor de um disco. Eu já tinha feito Escumalha e estava com a ideia, exatamente, de fazer um disco de partido alto, para tentar aproximar um pouco mais o discurso de uma vida mais real, que não essa bolha pequeno-burguesa da classe média. Com a formação que tem o grupo, foi sopa no mel. Perguntei se eles topavam nessa configuração, eles toparam, e a gente fez. Está superbonito e bem arranjado. Foi lançado hoje (21 de agosto) nas plataformas virtuais.

PAS: Como se grava um disco nessas circunstâncias? Quais as dificuldades?

DG: As bases dos arranjos foram escritas num programa de edição de partitura, Sibelius. Todo mundo recebeu, ensaiou em casa sozinho, mandou a sua parte tocando em cima. Aí aquilo foi mixado para que nós ouvíssemos mais ou menos o resultado final do que seria. Com aquilo na cabeça, foi cada um para o estúdio fazer a sua parte. É muito difícil, para você ter uma ideia o Escumalha nós gravamos todos juntos, na mesma sala, tocando, um, dois, três, vai. Esse não, foi uma de cada vez, em dias separados. Se você contar isso, a pessoa nem acredita que a gente conseguiu aquele resultado sonoro, aquela unidade e dinâmica. Foi no pico da segunda onda que a gente gravou.

PAS: Ninguém tinha experiência de gravar dessa maneira? Vocês estão inventando fazendo?

DG: Acho que ninguém nunca tinha gravado nada dessa maneira. É gente à beça, só os Batuqueiros são 19 pessoas, fora os outros envolvidos. Foi espetacular, um rito de passagem quase.

PAS: Qual o lado negativo? Não deve ser muito gostoso gravar assim.

DG: Ah, claro que não. Você quer encontrar as pessoas, falar, ou para reclamar ou para elogiar, e é tudo por esta telinha aqui. Vai ser muito legal quando a gente puder fazer show, mas é um negócio que ainda está distante da possibilidade real.

PAS: Esse método de gravação é como montar um quebra-cabeça? Quem monta todas as pecinhas?

DG: Foi o Henrique Araújo, que fez a direção musical. É um músico extraordinário, fez um trabalho hercúleo. Ele é a viga mestra do Partido Alto. Tem coisas complicadíssimas para tocar junto, que dirá dessa maneira. São muitas introduções, interlúdios, solos, e tem instrumentistas espetaculares nos Batuqueiros e Sua Gente, Allan AbaddiaGian Correia, Henrique Araújo. O disco transmite isso nos arranjos, essa turma não consegue fazer menos que aquilo. Lógico, foi um desafio maior por causa dessa forma de gravação.

PAS: E a concepção, foi antes da pandemia?

DG: Foi, foi antes. Algumas coisas eu fiz no período da pandemia. Mas não tinha vontade de fazer nada, imagina, é um caos. Você vai ficando meio deprimido, pelas condições externas, pela sua própria, trancado dentro de casa. Foi uma conquista.

PAS: Quais foram compostas durante?

DG: Durante compus “O Tempo Fechou”, “Canaviá”, “Chegou a Hora do Pau Quebrar”, “Partido da Feira”. Sem falar isto, o partido alto é uma coisa que em si já carrega uma festa.

PAS: Precisa de aglomeração…

DG: Mas, enfim, fiz o exercício de me isolar para conseguir trabalhar, cumprir a função para entregar e eles produzirem todos os arranjos, sempre num cronograma lógico e básico para a produção.

PAS: Que efeito tem a pandemia na hora de compor as letras?

DG: Olha, fiz uma música que se chama “Memorial”, fiz um clipezinho caseiro que soltei no YouTube. Minha ideia é a história de resolver a questão, não deixar isso ser esquecido, não livrar a cara dessas pessoas para que elas se fortaleçam e voltem mais fortes. São tantos absurdos diários que, se você tratar de algum pontualmente, data no dia seguinte, três dias depois então nem tem sentido mais. Então nesse “Memorial” eu fiz uma pessoa num futuro que pode ser distante contando isso que estamos vivendo hoje para uma outra pessoa. A música já abre com o seguinte: “Houve um tempo de silêncio e terror/ aflição, falta de ar”. Cara, eu escrevi isso antes da pandemia, você acredita? A aflição, a falta de ar, era aquilo que a gente já tinha com o Bolsonaro fazendo absurdos, e no final muita gente vai associar diretamente à pandemia. Mas resolvi não tirar. Resolvo isso colocando as datas das músicas, coloco data em todo encarte. Mas de resto a pandemia não está presente. Nas coisas que fiz depois, não. A própria “Escumalha” já é consequência da chegada do Bolsonaro, mas as coisas que consegui fazer depois, mais recentemente, escapam um pouco disso, não estão nessa atmosfera.

PAS: “Valhacouto” (2019) já usa esse artifício, falando da Alemanha nazista para falar dos dias atuais?

DG: É a parceria com Aldir Blanc. Ele queria falar do presente. A intenção era essa. Aldir é complicado, muito sensível, e quando a gente estava nesse momento da parceria eu tinha dado a data de estúdio para ele e foi quando aconteceu aquele massacre aqui em Suzano, que os garotos entraram numa escola atirando,. Ali ele travou uns 14 dias. E quando retomou, já retomou com o verso “crianças matando, imitando tiras”. Ele estava querendo falar disso mesmo, olha só como eles atacam, novamente, sob as mesmas capas.

PAS: Ficou como uma parte do testamento do Aldir, que veio a morrer de covid.

DG: Isso é um negócio inacreditável, fiquei bem derrubado com essa história. É um cara que teve uma atuação, sempre se engajou, brigou, viu a abertura e viu a coisa voltar para esse buraco. Imagina o turbilhão que aconteceu na cabeça e no coração dele. É um negócio pesadíssimo.

PAS: Seu disco é um retrato deste tempo de covid antes de ele ter começado de fato?

DG: É, nesse sentido sim. É meio trágico, mas é. A gente não pode fugir da realidade, o que temos é a tragédia, vamos falar dela e tentar mudar.

PAS: E as músicas que você diz que estão prontas, vão em que direção?

DG: Eu tenho bastante parceria, acho que esse trabalho novo que eu faria teria como base parcerias. Aí a coisa já sai um pouco da direção que gosto de dar aos trabalhos. Tem muita melodia de instrumentista que coloquei letra, e cabeça de instrumentista é completamente diferente de cabeça de letrista. Muitas vezes você até tem vontade de falar sobre algo, mas aquela melodia não permite. E foi uma situação de deixar a coisa acontecer, porque as músicas são todas espetaculares, e de repente é bom experimentar uma escrita um pouco mais leve. Não vai ser, não vou deixar de ser engajado nunca, mas pode ser um pouco mais leve. Embora Escumalha tenha várias músicas que do meu ponto de vista teriam até mais importância para o debate, a música mais ouvida é “Tempo Velho”, que uso para encerrar e para transformar aquela porradaria toda em algo mais leve, para entregar um pouco de esperança. Você tem que ter esse radar também, muitas vezes vai entregar para uma pessoa algo que ela já sabe, já está cansada ou recorre à música exatamente para esquecer um pouco. Chega ali e topa com aquilo de novo. Mas “Memorial”, por exemplo, estaria.

PAS: Estou vendo no Spotify, “Tempo Velho” tem quase 700 mil audições, seis vezes mais que a segunda mais ouvida. O que explica? Como as pessoas chegaram nessa música?

DG: Não sei, Pedro, não sei dizer. Isso é um negócio importante que me coloca numa sinuca sempre que vou compor e pensando nos trabalhos futuros. É muito sintomático, é um sintoma que não dá para desconsiderar. A pessoa às vezes põe música para ir lavar louça, quer desligar quando vai ouvir música. Acho que pode ser por isso. É um ijexá, uma música leve, são intervalos melódicos quase românticos. Aquilo comove de alguma maneira, com leveza, e é isso que as pessoas procuraram nesse período todo. Não sei como chegaram a ela, não tenho conhecimento de nenhum fato que tenha levado a música, se algum figurão canta, se aparece na TV. Não, não aconteceu nada, ela simplesmente foi rolando. É a música que mais marcam, que mais republicam.

PAS: Os orixás são muito presentes na sua obra, por quê?

DG: Porque eu gosto das metáforas. As histórias são lindas. São personalidades extremamente marcantes e muito humanas. Se falo de Xangô posso estar falando de uma pessoa absolutamente injusta. Posso usar Xangô para falar de uma injustiça. E geralmente faço isso, porque minha relação não é religiosa. Não sou filho de santo. Li muita coisa, já fui a festas, gosto, sou um curioso. Esses aspectos humanos é que me chamam atenção. “Não há justiça se a gente nunca se entregar”, também gosto de jogar a questão contra quem está ouvindo. Porque senão a gente fica sempre numa situação de observação e o problema ou a causa está sempre no outro, nunca está em você. E o orixá é exatamente isso, você pode ser um vilão completo e ser um filho de Xangô. Gosto de me escorar às vezes nessas metáforas, na mitologia dos orixás. Por isso está presente, assim como o futebol e o carnaval também.

PAS: Mas é um ato político seu, porque se escolhesse os santos católicos teria outro significado completamente diferente.

DG: Ah, lógico. Tudo é política. Escolher onde você vai tomar um cafezinho é política.

PAS: O candomblé traz a questão afrobrasileira. Que lugar você ocupa no afro-Brasil?

DG: Nossa, cara, hoje em dia está até perigoso falar sobre essas coisas (ri).

PAS: Você tem falado de coisas perigosas.

DG: Eu estou como brasileiro, na condição que não seria branco em lugar nenhum do mundo, só aqui eu sou branco. Atuo com esse regulamento debaixo do braço. Estou falando da minha própria vida, não estou inventando nada. A minha vida passa por isso. Sou periférico, sempre fui. Não fiz faculdade, não terminei o colegial, comecei a trabalhar com 14 anos. A minha diversão era o baile de black music, o que seria o baile funk hoje, e o futebol. Estudei em escola pública, com as paredes todas riscadas e as carteiras todas aos pedaços. É minha condição de brasileiro. Não tenho receio nenhum, falo e se algum dia for questionado a pessoa vai ter de questionar com bastante propriedade, porque tenho meus argumentos também. Isso tudo só está servindo para nos separar e no final a gente está vendo que não passa de uma questão comercial e carreirista para alguns. Não posso botar meu trabalho a perder por causa disso.

PAS: Você conhece a mistura de que é feito seu sangue?

DG: Do lado do meu pai tem português, russo, do lado materno tem português, nordestino, uma salada. O negócio foi completamente perdido. Não sei, desse Nordeste, de onde é que vem. Está perdido na memória.

PAS: Tem que ter alguma coisa africana, não é possível.

DG: Não sei, mas aí tem a vivência aqui, né? Tem a vida aqui. Está completamente enfronhada nisso, no meu pai. Nesse sentido acho que sim. E eu gosto, na verdade, gosto para caramba de ser brasileiro. Gosto das coisas que a gente tem, do que a gente faz. Não tenho vergonha nenhuma, acho de uma grandiosidade colossal. E tenho uma frustração que confesso a você: o que eu faço não volta para quem me ensinou. Isso pesa muito para mim. O que produzo, a minha música, não volta para as pessoas com quem aprendi a ler a vida, a entender as coisas, a caminhar e pensar em música. Eles não ouvem.

PAS: Quem, por exemplo?

DG: Ah, o exemplo dentro de casa mesmo, meu pai e minha mãe. “Maria de Vila Matilde” (2016) eu fiz para a minha mãe. Ela não fez a menor ideia daquilo, Pedro. Ah, mãe, a Elza Soares gravou uma música minha, aquela música que eu fiz para a senhora. “Ah, é, filho? É mesmo? Que legal, ela era mulher do Garrincha, né? Nossa, ela fez tanta plástica, né? Tó, come, filho.” Meu pai é a mesma coisa, quando mando alguma coisa ele diz: “Achei legal, mas você umas palavras que tem que pegar o dicionário para saber, pô”.

PAS: Será que sua mãe não ouve escondidinho e pensa no que você está querendo dizer?

DG: Imagina. É aí que está, essa é a grande questão. Não é só a minha mãe. Muitas outras pessoas com quem tenho contato também. Minha mãe se informa pelo rádio de manhã, por esses programas sensacionalistas à tarde, à noite ela assiste uma novela e vai dormir. Essa é a vida dela, e não é agora, sempre foi, 72 anos. Tem uma parcela enorme da população nessas mesmas condições, gente que não sabe direito mexer no celular e não tem 72 anos, tem 45, 50. E essa é a camada da população de onde eu saio. Faço questão de falar como uma reverência mesmo, porque é uma coisa que eu amo, a escola de samba. Mas se eu resolver sair no carnaval do ano que vem, vou chegar lá e vão fazer uma peneira como qualquer um. Ou seja, é um rompimento que eu não sei onde se dá. Às vezes eu paro e falo: poxa, para quem eu estou falando? Quem está ouvindo o que eu digo? Onde chega? Porque quando eu falo da escola eu quero que a escola saiba, que a escola ouça. Não, não chega. Está numa bolha jovem, classe média. Por isso inclusive eu tinha a ideia de fazer um disco de partido alto. Você pode fazer uma música espetacular querendo abordar, por exemplo, a luta de classes. Faz direito, vai lá, mas aí você toca aquela música no botequim e não acontece nada. Aí chega alguém e canta o seguinte: “Você sabe o que é caviar?/ nunca vi nem comi, eu só ouço falar”. Pronto, ele resolveu numa frase. A gente não pode se desgarrar tanto do que a gente é. Quando um elemento hega de volta à população através de uma música, um disco, um filme, alguma coisa na TV, aquilo ganha uma importância porque a pessoa pode se sentir representada, se identificar. É um elemento de auto-estima muito importante. E essas coisas estão se perdendo. Ao longo da pandemia, a gente rodeado de mortos, um cheiro de cadáver, com gente sequer podendo cumprir o luto, você olha essa quantidade de lives enormes com gente girando a taça de vinho e cantando música. Em que mundo a gente está? Eu morro de medo disso. Se você me vir fazendo alguma coisa assim pode tacar pedra.

PAS: É uma contradição, muitos artistas que têm origens como a sua ficam ricos e saem da origem para nunca mais voltar.

DG: Foi nesse sentido que falei. O lance identitário tem um negócio carreirista perigosíssimo, a turma está se perdendo um pouco nisso. E não adianta Maju Coutinho apresentar o Jornal Hoje, a polícia está entrando na favela do mesmo jeito, e vai continuar, mesmo se a filha da Maju assumir o posto dela. A gente não pode perder essa chave.

PAS: Por que você acha que sua música chega mais nessa bolha que em quem você mais queria que ela chegasse?

DG: Não sei, acho que tem a questão tecnológica, do consumo, uma galera que está inserida nessas possibilidades, principalmente as tecnológicas. Mudou completamente, né? Tenho amigos aqui no futebol de várzea, gente que gosta de samba e tudo. Está saindo o disco hoje, adoraria mandar, mas por que vou mandar para eles? Você tem Spotify aí? “Não, o que é isso?” A tecnologia serviu para apartar mais ainda as pessoas. Claro, tem muita coisa envolvida nisso, questão de classe mesmo. Não sei como dar essa volta, talvez com o show chegando mais perto.

PAS: Orí só foi lançado em versão virtual, não foi? O fato de o formato se desfazer também influencia?

DG: Foi, em 2011. Ainda tinha a pirataria, nesse sentido a pirataria era legal, você ia ali na barraquinha e comprava tudo. Agora, nem CD se faz mais. Orí ainda estava no período do CD, eu poderia ter feito, mas não fiz porque não tinha grana para produção. Inicialmente saiu só no YouTube. Agora, recentemente, foi para as plataformas. Fiz CD do Golpe de Vista, tenho duas caixas fechadas. Quando vende, vende um pouco em shows. Não são muitos, o CD já está entrando no rótulo fetiche. Um monte de coisa se perde, o roteiro do disco, o encarte, os recadinhos que você manda ali, os textos. No Escumalha tem um textão superbacana do Luiz Antônio SimasEscumalha tem em CD, e o produtor Fábio Giorgio**, do selo Boca de Lobo, tem a intenção de fazer LP também. Ele tem a ideia de fazer os três discos em LP, mais para a frente, quando for possível. Partido Alto saiu nas plataformas e vai sair só em LP. Para quem quiser ter algo físico, vai ser só o LP.

PAS: Douglas, onde você nasceu?

DG: Eu nasci na rua Grécia, você conhece a rua Grécia?

PAS: No Jardim Europa?

DG: Rua Grécia, número 360, 15 metros à direita da casa do Eduardo Suplicy. Ele morava, nem sei quem vive lá hoje. Era a casa da minha avó, que veio para cá de Portugal. Meu avô era taxista, minha avó lavava roupas para fora, e eles compraram um terreno ali, quando aquilo tudo era um charco. Compraram com moedas, e construíram uma casinha de quarto e cozinha, uma casa que nem cimento tinha, era só cal e areia. E depois aquilo virou o Jardim Europa. Nasci nessa casa. E logo depois, quando eu estava próximo de completar 2 anos, meu pai conseguiu um financiamento e comprou uma casinha em Poá, aqui na região metropolitana. Saímos de lá, viemos morar em Poá. Minha primeira infância e o começo da adolescência todos foram aqui em Poá, e minha avó seguiu morando lá, naquela mesma casinha, até 2004, quando faleceu. Para você ter uma ideia, em 2004 o banheiro ainda era fora da casa. Privilegiado quintal, cheio de jabuticabeiras. A gente eventualmente ia lá para visitar minha avó, mas aí comecei a vida em Poá. Depois fui morar sozinho, em Santa Cecília, depois na 9 de Julho, na zona sul, Tucuruvi, Saúde. Morei na cidade inteira quase. Foi quando meu filho nasceu que resolvi sair de São Paulo. Mudei primeiro para uma chácara em Mogi das Cruzes, depois vim aqui para Ribeirão Pires, que também é um lugarzinho bem tranquilo.

PAS: A especulação imobiliária pressionou muito sua avó?

DG: Não tanto, ali a coisa mais eram os bacanas do redor, que queriam ou estender seu terreno ou construir algo para os filhos ficarem perto. Vira e mexe, batia palma gente lá para fazer proposta para minha avó. A casa era muito velhinha, ela poderia perfeitamente ter vendido e vivido os últimos anos num lugarzinho mais confortável, mas era aquela coisa de velho, “só saio daqui morta”. Quando ela morreu foi quando meu filho nasceu, e aí três meses depois meus tios venderam tudo.

PAS: A casinha não existe mais então?

DG: A casinha eu não sei, a pessoa que comprou queria incorporar a casinha para o projeto que tinha para o terreno. Só que não pude confirmar isso, agora a pessoa fez um muro muito alto, não dá para olhar. Eu só sei que uma das jabuticabeiras dá para ver, ainda está lá.

PAS: Essa origem coloca você com cada pé em um mundo oposto?

DG: Total. Quando era garotinho, tinha a moça que trabalhava na casa da frente, era empregada na casa da frente. Ela vinha na casa da minha avó e a gente ficava brincando ali. Era meio a creche, olhando hoje. Ela deixava o garotinho, ele me fazia companhia, enquanto ela estava lá trabalhando.

PAS: Os filhos dos moradores não eram seus amigos? A luta de classes estava em vigor ali?

DG: Não. Estava total. Não tem vida ali, é curioso. O cenário que vejo hoje, com mais de 50 anos, e o cenário que eu via nas minhas visitas, dos 7 em diante, é exatamente o mesmo: aquela rua vazia onde passa carro de vez em quando. Não se vê gente na rua, não tem uma molecada brincando. Nunca teve nada disso ali. O vizinho de parede era o Ferreira Netto, lembra?

PAS: Por que o samba virou sua expressão principal? Onde ele fica no quebra-cabeça?

DG: Foi acontecendo, mais por causa do meu pai. Era uma linguagem com que eu brincava desde muito criança.

PAS: Ele tinha um grupo de samba?

DG: É, ele fazia parte de um grupo chamado Acadêmicos da Guanabara, no formato dos Originais do Samba, sabe? Era aquela coisa sem harmonia, só aquele sexteto de percussão que canta as próprias músicas. Tocava no Sandália de Prata, numa casa legal na São Gabriel chamada Urso Branco. Outro dia falei disso com Arrigo Barnabé, ele conheceu. Era bico para o meu pai. Faziam muito baile de carnaval, na época de carnaval ele sempre ficava feliz porque ganhava um troco extra tocando em matinê e à noite. E tinha muitos instrumentos em casa, eu brincava com eles. Ele gostava muito, até hoje ele é aquele que põe um disco para tocar e pega um instrumento, fica acompanhando. Esse momento do rompimento é que eu não entendo como acontece. Quando tinha festa na casa de alguém, sempre tinha alguém tocando samba, um surdo, alguém com um violão. Depois, no futebol de várzea, a mesma coisa. E aí, para fechar essa roda, o crooner desse conjunto dele era o Armando da Mangueira, que foi puxador do Nenê de Vila Matilde. E eu acabei indo parar lá depois. Esse universo todo era muito natural para mim, não tinha questão nenhuma. O que foi estranho foi quando saí desse lugar e vim morar em São Paulo. Aí chegava sexta-feira de carnaval, eu estava empolgadíssimo porque ia ter o desfile e as pessoas em volta nem entendiam do que eu estava falando (ri).

Acabei me envolvendo com design gráfico, que na época não era design gráfico, era past-up. Eu fazia past-up, e o top do trampo era chegar a ser diagramador, que ganhava mais. Cumpri todas essas etapas, depois Page Maker, InDesign, Photoshop. Trabalhei em jornal, revista, editora, agência de classificados. Meu último emprego, agora, foi em estúdio que produz todas as publicações do Museu Afro Brasil. Trabalhei lá cinco anos e parei com essa área em 2015, para me dedicar só à música, viver só de música. Eu dividia prancheta com alguém que vinha da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), eu era o completo bichinho fora da casinha. É curioso, porque exatamente essas pessoas são meu público hoje.

PAS: Como o Fundo de Quintal descobriu você e gravou sua música em 1991?

DG: Não me descobriu, esses movimentos não são gratuitos. Nesse período aconteciam alguns movimentos interessantes aqui em São Paulo, que reuniam pessoas interessantes. Muita gente – eu também – acabou se envolvendo mais com pagode, depois conseguiram se estabilizar e resolver a vida. Em 1991, acontecia um negócio na quadra do Camisa Verde e Branco chamado Botequim do Camisa. Era uma reunião de compositores, em que gente que tinha música podia subir no palco e cantar. Era uma válvula de escape. Tinha eu, Luizinho SPPaqüeraMiltinho ConceiçãoCaricaLeandro Lehart sempre passava por lá. Esses momentos começam a chamar atenção, Zeca Pagodinho Arlindo Cruz iam muito no Camisa. E esse contato se deu porque o Arlindo ouviu esse samba sendo cantado lá e procurou o contato imediato que ele tinha, o Carica, que é o meu parceiro nessa música (Douglas aparece como autor sob o codinome Cuca), e resolveram gravar. Era um período muito difícil para mandar música para alguém, o mercado estava completamente dominado pelo É o Tchan, o sertanejo explodindo. Era um quilombinho de compositores, vamos dizer.

PAS: Então aos 20 e poucos anos você já cantava e compunha?

DG: Sim, mas sem saber que estava cantando e compondo. Era um desafio, sabe? Hoje em dia não tenho parceiro assim, mas aquela turma era amiga muito próxima, o cara chegava e dizia: “Fiz essa cabeça aqui, termina você”. Alguém fazia um refrão, te entregava, em cima do refrão você desenvolvia, e às vezes saía um samba legal. Era todo mundo junto, não era um movimento isolado. Aquilo fortalecia, porque você subia com seu parceiro para cantar. Era muito gostoso, auto-estima, você vai criando ali uma identidade coletiva diante de uma produção. Depois, olhando com distanciamento, você vê que já tinha coisa interessante ali. E não deixa de ser uma escola, dali certamente ia sair gente.

PAS: Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz iam lá também para buscar música?

DG: É, iam.

PAS: Mas o Carica era seu parceiro mesmo, ou entrou de nome?

DG: Era meu parceiro, amigo. Carica, Luizinho SP, essa turma que fundou o grupo Sensação. Eles embarcaram na onda do pagode, do lance meio romântico. Eu nunca gostei dessa coisa, não era muito a minha praia. E eu tinha aquela coisa, você vê como é a cabeça do oprimido, eu ficava ligado na hora, porque no outro dia ia trabalhar. Tinha que estar cedo na agência. A minha vida, digamos, séria não estava na música, estava em outro esquema. Eu tocava dessa maneira, fazia música em casa, ia guardando, às vezes mostrava, às vezes não. Levava essa vida de peão, deixa eu ir embora que eu trabalho amanhã.

PAS: Esse período afastou você da música, de ficar conhecido como artista logo na juventude?

DG: É. Você não tem apoio, conversa, não tem formação, não tem nada. São movimentos espontâneos que são cultivados enquanto aquele grupo permanece. Tanto que essa turma dispersou, acabou, o próprio Botequim do Camisa acabou. Eu poderia ter soltado um disco antes dos 50 anos (ri), talvez pudesse ter feito, porque tem coisa que já tinha há bastante tempo e gravei nesses três discos que saíram. Mas parece que o mundo da arte não é para você. É de uma outra camada da população. Você não faz parte daquilo. Aí você vai amadurecendo, envelhecendo, vai vendo. Primeiro você se reconhece. Mesmo que ninguém tivesse ouvido música nenhuma que eu tenha feito, eu ia continuar fazendo. É intrínseco, natural, fácil. Mas hoje estou pouco ligando, ainda mais com essas maneiras de produção que baratearam e são mais possíveis. Dá para gravar um disco em casa, sozinho. Assim foi o Golpe de Vista, por exemplo. Mas isso não só no meu caso, conheço muita gente boa para caramba que não virou nada, nem lembra mais o que fez. A gente joga contra, o país joga contra si mesmo o tempo todo.

PAS: Será que a música que o Fundo de Quintal gravou nem seria lembrada se você não tivesse virado o Douglas Germano que é hoje?

DG: Não sei. As pessoas citam, mas ninguém associa muito a música a mim, e eu também nunca cantei, nunca apresentei ela. Mas está no currículo, então as pessoas acabam dizendo, reproduzindo, e vai ficando. Inclusive o cara que canta é o Ubirany, que infelizmente faleceu recentemente. Ubirany não era muito solista, cantou algumas músicas em todos os discos, e nessa ele é o solista.

PAS: O Fundo de Quintal lhe deu uma assinatura? Porque ser sambista de São Paulo já é outra questão complicada…

DG: Nossa, sem dúvida. Esquece. Teve um período em que eu já tinha bastante coisa produzida e as pessoas falavam: “Pô, você precisa fazer alguma coisa”. Eu não sabia o que significava fazer alguma coisa. Para mim, era pegar aquela música, escrever para algum figurão e oferecer. Nossa, Pedro, as pessoas não atendem telefone. Não tinha e-mail na época, as pessoas não respondem carta. Eu procurava o nome das pessoas na lista telefônica. “Fulano foi tomar banho, liga daqui a pouco.” “Ah, agora ela já saiu do banho, mas agora está se trocando, liga daqui a pouco.” “Ai, agora ela se trocou e saiu, dá para deixar seu telefone?” Esquece. É uma ilusão. Silvio Modesto, um sambista, falava para mim: “Você mandou a fita? Esquece. Se você mandar a fita, o avião vai e a fita cai no mar” (ri). Não tem saída, não acesso, tem a questão de ser de São Paulo.

PAS: E o que foi que aconteceu para mudar essa trajetória?

DG: Teve um período que falei: bom, já que vou fazer isso, vou fazer de alguma maneira interessante, vou tentar contribuir para alguma coisa. É difícil fazer música aqui no Brasil, tem muita gente boa, violonistas e letristas espetaculares. O que vou fazer? Ou começo a fazer a sério ou não vou fazer. Não fazer eu não ia, porque eu me impus. Então comecei a estruturar uma maneira, a tentar criar uma assinatura para as minhas coisas. Fernando Faro foi super-importante, de uma gentileza absurda, nesse mesmo período em que eu ligava para as pessoas e elas não atendiam. Ele me atendeu, falei que não queria fazer o Ensaio, queria uma interlocução, queria discutir o que estou fazendo, falar com alguém. Fiz uma fitinha com quatro músicas, ele ouviu, Pedro, me ligou e comentou uma por uma, verso por verso. Me deu dicas, “vá por aqui”, “ouça isso”, era o que eu queria. Depois nunca mais tive oportunidade de falar com ele, mas guardo isso com o maior carinho.

PAS: Quando foi isso?

DG: Foi em 1992, 1993, 1994, por aí. E aí comecei a fazer mais a sério, comecei a ter uma produção que eu achava razoável. Depois disso fui tocar no Ó do Borogodó, fiz parte do Bando Afromacarrônico junto com Kiko Dinucci. E eu e o Kiko começamos a compor juntos e resolvemos fazer um disco, porque o que a gente compunha não dava para tocar no Ó. Lá você tinha que botar música para dançar. Aí fizemos o disco O Retrato do Artista Quando Pede (2009, como Duo Moviola) e fomos para o palco, eu e ele. Para mim era uma situação já diferente, e funcionou. Eu conseguia fazer aquilo com alguma tranquilidade.

Uns anos depois, eu já tinha feito o Orí, mas não tinha feito show de nada, e o Rubão (Rubens Amatto), da Casa de Francisca, perguntou se eu não queria fazer show lá. Eu, fazer show? Fiquei naquela e resolvi fazer, meu primeiro show solo foi lá, na casinha ainda. Foi ali que ganhei força, as pessoas gostaram, acabei fazendo mais um. Depois fiz o disco Golpe de Vista com a grana da saída do trabalho no estúdio, já pensando em fazer show. O Orí foi finalista do Prêmio da Música Brasileira, e para mim isso é um mistério, porque eu não inscrevi o disco. Nem passava pela minha cabeça. O Golpe de Vista também foi finalista na APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), ganhou prêmio de um monte de coisa, e veio a “Maria de Vila Matilde” junto, uns prêmios por causa da música, indicação ao Grammy como melhor música em língua portuguesa, o que eu acho um absurdo, mas…

PAS: Por que um absurdo?

DG: Acho que a música tem significado, mas não é uma música para entrar numa categoria de melhor música em língua portuguesa. Acho que não. É tudo coloquial, tem gíria, é outro barato, não sei. Não tem trato literário, nem poético. É muito direto. Mas, enfim, eu aceito e agradeço, claro, né? Algum motivo tem para isso acontecer. Aí chamei os amigos, montamos a banda e começamos a oferecer o show do Golpe de Vista. E foi dando certo, comecei a ser mais gravado. Em paralelo a isso tem toda a contribuição que foram os trabalhos do Metá Metá e da Juçara Marçal, que gravaram as primeiras músicas e fizeram muito sucesso com elas. Enfim, o que me deu força foi que as pessoas gostaram do meu trabalho sem saber como era a minha cara. Isso é muito bom, te dá uma credibilidade e uma certa tranquilidade para fazer. Também havia a curiosidade de ouvir pela versão do autor. Tratei de tocar mais, ensaiar. Não me considero um cantor, dou conta do recado, faço o que dá para fazer, mas faço com a maior honestidade possível. Quando vi eu já estava completamente absorvido, e a vida de 2015 para cá começou a ser essa.

PAS: Quem começa a gravar você, a partir do Kiko, é um pessoal que a gente poderia chamar de vanguarda, e você se torna um cara do samba que está no meio dessa vanguarda. É meio incomum, não?

DG: É, é incomum, mas o samba é um negócio extraordinário. O que mais fez mal ao samba é o próprio sambista. Tem gente que comemorou o samba ser tombado, para mim isso é uma morte, um crime. Você tomba uma coisa que não tem mais condição de caminhar para lado nenhum. O samba é genial, cara. Qual é o gênero musical que apresenta tantas roupagens tão distintas quanto o samba? 90% da obra do Chico Buarque é samba, do Tom Jobim também, do Zeca também, do Paulinho da Viola também. Aí tem a mão pesada da indústria cultural, que pasteurizou o gênero e a forma dele. Para a maioria do público, um show de samba é um show do Zeca Pagodinho. Mas na verdade um show de samba também é um show da Leny Andrade, ela e o piano. Olha como o samba vai longe. Esse vigor eu não consigo identificar em outros gêneros musicais, em outros países. É um negócio que incomoda muito.

Não foi uma coisa pensada, mas o que acho que acabou acontecendo é que os temas que passei a abordar chamaram atenção dessa rapaziada. Se eu tirasse todas as minhas letras e letrasse essas mesmas melodias com “iaiá” e o terreiro de não sei onde, não ia acontecer nada. Porque não tem mais iaiá e terreiro, o negócio agora é outro. No Golpe de Vista tenho uma música que se chama “ISO 9000” e uma outra que se chama “You S/A”. As duas são samba. Agora, tenho certeza que tem gente que sai do meu show e não sabe que foi assistir um show de samba, porque tenho lá um baixo de pau, não tenho um surdo, um cavaquinho, uma cuíca. Mas poderiam estar também. Acabou acontecendo esse espraiamento, mas o que eu faço é samba. Até tem outros gêneros que gosto, as coisas nordestinas, o ijexá, adoro, quero me arriscar nas milongas agora. Mas é muito natural, é chegar e fazer um samba e tentar dar para a melodia o impacto que quero para aquela letra.

PAS: O encontro com Kiko foi um marco, não? Como aconteceu?

DG: Foi. Para mim e para ele. Nós temos o nosso jeito de tocar. Eu tenho meu jeito de tocar meu violão, meu cavaquinho, ele tem o dele também. Agora, quando é que um garotinho lá de Guarulhos e outro aqui de Poá vão achar que nosso violão é que é legal? Não, bicho, você tem que tocar violão igual o Egberto Gismonti. Seu violão tem que ser o Guinga. Tudo leva você a acreditar nisso. Quando se junta, você ganha força. Eu dou um pouco mais para ele, ele dá um pouco mais para mim. E a gente resolveu experimentar, fazer outros temas. Tinha todo um subtexto cinematográfico, o duo se chama Moviola por causa disso. A gente fez “A Loira do Banheiro”, “Caderninho de Vergonhas” e tudo mais. Falamos: vamos fazer do nosso jeito. Fomos para estúdio, tocamos, cantamos e arranjamos tudo, apresentávamos só nós dois, sem banda. Foi legal porque a gente se deu força para fazer da nossa maneira. Nesse sentido é um marco, sim, porque talvez sem o Duo Moviola eu não tivesse feito o Golpe de Vista, que é disco que fui para o estúdio só com um violão e uma caixa de fósforo. O Kiko também talvez não tivesse feito o Rastilho (2020) ou outros discos que ele fez mais atrás sozinho, com o violão, ou a estética musical do Metá Metá, que também se estende um pouco para o Passo Torto. O Moviola é seminal para a gente.

PAS: E você considera que ele foi percebido na época? Confesso que eu não percebi.

DG: Não. Passou batido. O público gostava do show, porque a nossa performance também era bem ousada, vamos dizer, mas a gente ia na onda meio Tangos & Tragédias, tirava muito sarro, fazia muita piada, muito texto de improviso, cínicos, de terno e tênis, tomando vinho. Era um cinismo absurdo. Mas era música, chegava ali e tocava para valer. No geral, na crítica, não saiu nada, nada. Se você procurar Duo Moviola não tem nada, provavelmente só flyer de apresentação.

PAS: Então aconteceu outra virada depois, quando vocês passam a ser percebidos. Houve um momento, ou foi aos poucos?

DG: Ah, o Metá Metá primeiro, né?, eu depois. Eles começaram a ir para todo lado, tocavam de graça, iam fazer discotecagem numa festa e faziam um baita show no outro dia. Juçara é uma querida, uma pessoa muito séria. Thiago França também é muito competente no que faz. Acredito que o movimento que acontecia no Moviola entre eu e o Kiko aconteceu também ali no Metá Metá: nós temos que fazer desta maneira, nosso som é este aqui, e se não for este aqui nós vamos procurar e vamos levar sem fazer concessão nenhuma, porque agora é possível, por conta do acesso à tecnologia. Eu comecei a ser notado primeiro por causa do Metá, por causa de algumas músicas minhas que eles apresentavam, as pessoas gostavam, e eles me davam crédito como autor. Na rabiola disso, o Criolo gravou “Padê Onã”, uma música que o Metá não gravou, mas tocava nos shows. Estou falando das coisas de maior impacto, mas muita gente gravou: Juliana AmaralKarina NinniFabiana Cozza. Depois, na sequência, veio a hecatombe da Elza Soares, no meio de tudo isso. Não faço parte da produção do disco dela, não tenho envolvimento nenhum, simplesmente fui um compositor convidado a enviar música. Fiz uma peneira, como fizeram todos os outros.

PAS: Mas a sua “Maria de Vila Matilde” (2016) caiu como uma luva para ela.

DG: É, foi. E depois veio “Credo” (2018), que acho um pouco subestimada. Eu gostava mais ainda que de “O Que Se Cala”, uma coisa que é completamente contra o identitarismo, mas o identitarismo absorveu a seu favor.

PAS: Por que você diz que é anti-identitário?

DG: Porque as perguntas todas que faço ali vão no sentido contrário. Eu já começo com “pra que separar?/ pra que desunir?/ por que só gritar?/ por que nunca ouvir?”. São perguntas que seriam diretamente voltadas para as instâncias de poder, não entre nós. Se a gente não perceber que está todo mundo no mesmo barco, que tem que fechar e juntar contra uma coisa que é maior, contra esse capitalismo absurdo que joga todo mundo nessa objetificação, vai chegar um momento em que eu vou ficar sozinho num quadrado, no quadrado dos carecas, reclamando o meu reconhecimento. A música ia se chamar originalmente “Lugar de Fala”, mas eles acharam melhor não.

PAS: Essa turma – não sei se dá para chamar de turma, mas é um pouco -, indo do Criolo, passando por você ao Kiko, Juçara, Rodrigo Campos, é um grupo de periféricos que entrou na bolha?

DG: É, talvez sim. Acho que sim. Tudo bem, a torre de marfim é autossuficiente, mas chega um momento em que a plebe (ri) quer outra coisa, quer ouvir um outro barato, algo que também faça sentido na vida dela. É aí que essa turma atua. O Criolo acho que não dá para colocar no mesmo elevador, porque ele vem com a potência do rap, que é outra parada. Teve um negócio que eu achei sensacional: meu filho tem 17 anos hoje, eu tenho vários instrumentos, estou sempre ouvindo música, e vi meu filho experimentando um teleco-teco no tamborim ouvindo o disco do Criolo, cara! Olha que ótimo! Você vai ligando os pontos, é fascinante. Chama atenção no Criolo o violão de sete cordas. Falei: “Gui, o violão de sete cordas aí é o Gian Correia, é esse aqui, ó, olha ele aqui”. Essa turma é muito da batalha, Rodrigo, Kiko, Jussara, Thiago, Romulo Fróes, que ia sempre lá no Ó do Borogodó ver a gente tocar. Não frequento muito, minhas parcerias e minha amizade mais próxima são com o Kiko e um pouco mais com a Juçara, mas acho muito legal, porque é uma turma que resolveu fazer da sua maneira. A gente tem que louvar isso, esses esforços. E é uma turma que agrega, não está preocupada em fazer panela. Muito pelo contrário.

PAS: Em geral eles têm uma coisa que a gente costuma chamar de sofisticação – não sei se é uma palavra boa – que deixa a origem periférica menos visível. Vale para você também?

DG: Claro que vale, eu era um empregado até 2015. Fazia minhas músicas sexta-feira à noite e sábado podia dormir até mais tarde. Você não tem eco. Tenho muitos amigos envolvidos com música, e você sempre consegue detectar coisas interessantes aqui e ali. Às vezes um diamante bruto faz algo que você diz: se isso continuar vai arrebentar. E todas as informações que você recebe são contrárias a isso. Você ouve um figurão falar que hoje em dia não tem mais ninguém que faça música, que tem que regravar mesmo os mineiros. Pô, bicho, o que você faz? Um dia a tecnologia, a internet, o mp3 possibilitou tudo isso. Vejo aqui o meu filho, ele gosta para caramba de rap, trap, ele ouve umas figuras que você não vê em lugar nenhum, e os caras têm zilhões de ouvintes e seguidores.

PAS: Além da tecnologia, tem o dado de vocês terem um senso coletivo que uniu todos e, como você disse antes, tornou cada um mais forte do que seria sozinho.

DG: Sem dúvida. Como eu disse, minha aproximação é mais com o Kiko, tanto que não faço parte dos outros movimentos que eles promoveram. Mas é assim, um vai gravar no disco do outro, o outro canta, faz o arranjo, se precisa de uma bateria vai esse, tem um amigo que tem estúdio, é todo mundo junto. Não fiz parte disso, toda a minha batalha foi em paralelo, muito suada, tirando dinheiro do bolso. Mas é um troço fantástico, até porque você consegue traçar uma unidade – unidade não é a palavra, mas uma linha estética que une esses trabalhos, um diálogo que é estético. E não é acidente. É pensado, discutido, trabalhado, eles são muito sérios no que fazem. E tem produções importantes, não dá para dizer que esses discos da Elza não são importantes. O trabalho do Kiko com o Jards Macalé depois, também.

PAS: Ou seja, você não é exatamente desse grupo, mas eles gostam das suas músicas?

DG: Se se a gente se encontrar, todo mundo se abraça, mas eu não faço parte. Para passar a régua numa síntese fria, sou amigo e parceiro do Kiko. E da Juçara, que conheceu a maior parte das minhas músicas no Ó do Borogodó, quando ela ia às vezes dar canja. Quando rolou o repertório dela, primeiro em apresentações, depois no disco, minhas músicas foram sendo gravadas. Hoje em dia até faço coisa pensando na Juçara. Ela vai soltar um disco agora que tem uma música minha. Ela deu voz para coisa muito legal, como “Damião” (2014). Devo muito a essa turma, consegui ser ouvido por causa dessa turma. E Rubão também, a gente não pode deixar de citar esses espaços, o Ó do Borogodó, a Casa de Francisca. No Ó do Borogodó, às vezes você está tocando e aparece o Yamandu Costa para dar uma canja, ou um cubano que veio fazer som aqui tira o pistom e começa a solar. É fantástico, não dá para não citar a importância desses espaços. Rubão não só acolhia, ele ligava para te convidar, “vem fazer show aqui, tem data daqui a três meses”. É e foi fundamental, na trajetória dessas pessoas todas.

PAS: E a pandemia interrompeu essa parte do encontro…

DG: Interrompeu completamente. Pelo menos está todo mundo bem, com saúde.

PAS: Você falou antes que perdeu pessoas para o covid?

DG: Sim, parentes, família, amigos próximos, gente querida. O produtor do Golpe de Vista, por exemplo, faleceu, um cara superjovem, com filhos (Nandu Valverde, técnico de som do disco, morreu em 29 de dezembro de 2020, aos 44 anos***). Eu e Tania traçamos aqui, ao todo perdemos 14 pessoas do nosso convívio. Ela, incluindo pessoas do trabalho – a própria Naomi Munakata, que morreu logo no início da pandemia, era maestrina da Tania, trabalhava com ela diariamente.

PAS: Responsabilidade do Bolsonaro também?

DG: Completamente, imagina. A gente ficou sabendo depois, né?, que o trabalho foi todo feito no sentido de protelar a vacina. Olha o que aconteceu. A gente não teve teste. Moro numa cidade que a gente pode classificar naquela categoria da cidade-dormitório. Acordo cedo para acordar o filho para fazer o EAD dele, saio para comprar pão, passo na estação de trem, a estação está lotada no sentido Brás. E não está hoje, está ao longo da pandemia inteira, e você vê esse cretino fazendo rodízio das 11 da noite às 5 da manhã. Agora vai abrir tudo, e não é a primeira vez, em outros momentos críticos também abriu. Esse cretino fazendo o lobby da cloroquina, desinformando a população. O pior sabe o que é? Ele representa o anti-sistema, então o discurso dele convence. A esquerda ficou com o “fique em casa”, eu não demorei muito a perceber que esse “fique em casa” era inviável. Quem foi a única pessoa que falou que o “fique em casa” era inviável? Bolsonaro. Geladeira vazia, vai fazer o quê? Lógico que ele pega a grande massa da população nisso, com toda razão. A gente está numa cilada, num truque de ilusionista que ele fez o tempo todo, que enganou muita gente. Ao mesmo tempo tem a crise econômica, que está um absurdo. Fui hoje de manhã ao mercado comprar um pote de manteiga, estava 27 reais, Pedro! Uma lata de óleo do mais vagabundo, 12 paus. Como assim?, as pessoas ganham 400 reais por mês. Nós todos dançamos nisso. Dançamos completamente, sem auxílio, com toda dificuldade, socando as pessoas em fila de banco para receber uma miséria. É um inferno, um esgoto a céu aberto onde a gente foi colocado.

PAS: E há o ódio específico dele pelos artistas, pela cultura.

DG: Sem dúvida, porque são as pessoas que vão questionar. E sobretudo ele é um tosco. Não sei se já te ocorreu isto, eu já fiz esta pergunta para alguns amigos: olhando para trás, diga de verdade, quantos bolsonaros você já não conheceu em sua trajetória, em todas as esferas? O dono da mercearia, o bedel da escola, quantos? É assustador, a gente tem isso. Precisamos aprender, por isso é importante resolver tudo muito bem, dar nome, dar rosto aos bois e não deixar que isso aconteça de novo. Tem que vir punição em cima, essas pessoas têm que ser colocadas como um exemplo para sempre do quão fundo a gente pode chegar.

PAS: Na bolha de que estamos falando várias vezes, que inclui a comunidade cultural, uma preocupação muito grande tem sido a censura. Você é um cara contundente, que fala coisas contundentes dentro deste período. A censura está te atingindo de alguma maneira?

DG: Não. Não estou nem aí, vou falar mesmo. Eu xingo, né? Xingo de babaca. Não dá, o que eu vou fazer? Ficar com medo, aí não vou fazer? Não. Vou fazer música de borboleta e solzinho da manhã? Não vou. Já está, não vai dar para apagar tudo que estão fazendo. Para apagar, vão ter um trabalho tão grande que não vão ter, são toscos demais para isso. Não dá, nem passa pela minha cabeça. Estou mais preocupado em conseguir falar com quem está do lado. Em vez de xingar de gado, de burro, estou querendo me aproximar. Senão, vai ser pior. A esquerda chega num botequim onde tem uma turma tomando uma cerveja, pega a garrafa de cerveja e diz: “Isto aqui é uma relação social”. Fica todo mundo olhando com aquela cara. Aí a direita vem e fala: “Isto aqui é uma garrafa de cerveja”. Em última instância, as pessoas também são vítimas – é lógico, tem a canalhada mesmo, mas a maioria é vítima. A gente não pode virar as costas, tem que ter esse cuidado, não pode perder essa noção.

"Partido Alto" (2021), de Douglas Germano e Batuqueiros e Sua Gente

Partido AltoCom Douglas Germano e Batuqueiros e Sua Gente. Independente, 2021.

PaiolLives de Douglas Germano. Dias 27 de agosto (Orí), 10 de setembro (Golpe de Vista), às 21h, e 1º de outubro (Escumalha), às 19h. No Facebook e YouTube. Gratuito.

* Correção às 18h22 de 26 de agosto: o texto tratava “Floradas de Amor”, gravada neste 2021 pela sempre vanguardista Cida Moreira, como uma parceria nova de Douglas e Kiko Dinucci. Na verdade, “Floradas de Amor” foi lançada no disco lançado pela dupla como Duo Moviola, em 2009.

** Correção às 18h25 de 26 de agosto: o texto tratou erroneamente o produtor Fábio Giorgio como “Fábio Jorge”.

*** Informação acrescentada em 26 de agosto, às 19h12

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