Capa de Rastilho, no álbum do Kiko Dinucci
O segundo trabalho solo do paulistano Kiko Dinucci, Rastilho, aposta nas referências ao candomblé e, afro-sambas de Baden Powell e Vinicius de Moraes

Um buquê de flores, legumes e frutas podres (mais uma cartela vazia de comprimidos) emoldura o segundo trabalho solo do paulistano Kiko Dinucci, batizado eloquentemente de Rastilho. A imagem de impacto é um primeiro sinal de que o conteúdo do disco não será leve nem inócuo. Na sonoridade, o artista aposta nas referências ao candomblé e, mais especificamente, aos afro-sambas que Baden Powell e Vinicius de Moraes apresentaram ao mundo em meados dos anos 1960.

Cinco das 11 faixas são acompanhadas por um coro feminino que remete aos vocais do Quarteto em Cy nos Afro-Sambas (1966) de Baden e Vinicius. Outras canções são divididas com as cantoras Juçara Marçal (parceira de Kiko no experimento sonoro Metá Metá) e Ava Rocha e com o rapper Ogi. A palavra cantada aparece pouco em Rastilho, o que faz pensar numa atualização de Milagre dos Peixes (1973), de Milton Nascimento, para outros tempos bicudos.

Quando a palavra aparece, o discurso se adensa e se transforma em Febre do Rato, Veneno (com Ogi) e Rastilho, faixas pesadas que ecoam a vida real e/ou algum samba antigo da dupla João Bosco-Aldir Blanc. Queima/ deixa arder/ vira cinza/ fumaça (…)/ os moribundos dançam/ as moscas já nos cobrem/ (…) vamos explodir, canta com cheiro de pólvora a curta faixa-título que encerra o álbum, de volta aos temas de morte da imagem de capa.

Rastilho. De Kiko Dinucci. Independente.

 

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