Malcolm X

“Sempre que você leva seu dinheiro para fora da sua comunidade e o gasta em uma comunidade onde não vive, a comunidade onde você vive fica cada vez mais mais pobre e a comunidade onde gasta seu dinheiro fica cada vez mais rica. Daí você se pergunta por que o lugar onde mora é sempre um gueto ou uma favela.” Provocações como essa povoaram o último ano de vida do líder negro estadunidense Malcolm X (1925-1965) e colaboraram para que uma parcela proeminente de seu país natal o considerasse um subversivo de alta periculosidade, ou coisa parecida. Pela primeira vez, o público brasileiro poderá ter acesso, para além dos clichês habituais, ao pensamento de Malcolm Little (tornado “X” em protesto contra a herança escravocrata que o sobrenome original carregava): por iniciativa da editora Ubu, chega ao Brasil, com 56 anos de atraso, o livro Malcolm X Fala, publicado nos Estados Unidos no calor da hora, meses após o o assassinato do ativista.

Organizada pelo editor George Breitman, membro fundador do Partido Socialista dos Trabalhadores dos Estados Unidos, a obra reúne discursos, entrevistas e cartas de Malcolm X ao longo do último ano de vida. Um único texto é anterior: “Mensagem às Bases” (de novembro de 1963), um dos últimos discursos de Malcolm como integrante dos Muçulmanos Negros da Nação do Islã, com os quais ele romperia publicamente em março de 1964, no discurso “Uma Declaração de Independência”. Suas falas a partir daí ganhariam as asas de um livre pensador, em meio a longas viagens de reconhecimento aos países com que ele sonhava formar o que chamou de “bloco afro-asiático-árabe” ou de “não-brancos“, algo como um Brics (Brasil-Rússia-Índia-China-África do Sul) de cinco décadas atrás. “Quando digo Revolução Negra, refiro-me aos não brancos – os pretos, marrons, vermelhos e amarelos“, conceituou Malcolm em abril de 1964.

O livro mostra que, embora seus discursos se incendiassem mais a cada experiência vivida, o ativista gastou grande parte de seu último ano tentando abrandar a imagem que a opinião pública branca lhe pregava, num rol de adjetivos que incluía “comunista”, “violento”, “fanático”, “antiamericano”, “antibranco”, “racista reverso” etc., alguns deles familiares para quem vive no Brasil de 2021. Associado a um “racista reverso” num debate em Harvard, em dezembro de 1964, ele respondeu: “Em geral, o racista negro foi produzido pelo racista branco. Na maioria dos casos, o racismo negro é uma reação ao racismo branco; e, se você analisar bem, não se trata realmente de racismo negro. (…) Se você vem colocar uma corda no meu pescoço e eu te enforco por isso, para mim não se trata de racismo. (…) Minha reação é a de um ser humano que reage para se defender e se proteger.”

Se a mídia branca tomava cada frase do líder rebelde como uma declaração de guerra, ele tentava incansavelmente explicar o que queria dizer com a retórica de que os afro-americanos deveriam deixar de lado o costume de “dar a outra face” quando agredidos. “Quando se trata de brancos indo para lá (o Congo, na África) atirar em negros, eles não dizem nada – eles glorificam os brancos. Mas quando você e eu começamos a falar como se quiséssemos fazer a mesma coisa com alguns deles, então somos ‘fanáticos’ e estamos ‘sedentos de sangue’“, argumentou em dezembro de 1964 em Nova York, no Harlem, no mesmo Salão Audubon onde seria assassinado dois meses depois.

“Se houver derramamento de sangue, deve ser recíproco – derramamento dos dois lados”, alertava em abril de 1964, tentando explicar que não defendia a violência, mas sim o direito de a comunidade negra se defender na mesma moeda de (rotineiros) ataques violentos da polícia, da Ku Klux Klan e outras instituições racistas.

Malcolm X
Malcolm X em 1963 – fotos cedidas pela editora Ubu

O giro por Ásia, Oriente Médio e África durante 1964 internacionalizava suas palavras e transmitia uma visão (auto)crítica que os Estados Unidos não costumavam (e não costumam) jamais deixar vazar para fora de seus limites. Em julho de 1964, no Cairo, Egito, por exemplo, Malcolm comparou o modelo social estadunidense ao regime do Apartheid sul-africano: “A África do Sul prega a segregação e pratica a segregação. Pelo menos pratica o que prega. A América prega integração e pratica segregação. (…) Se o racismo sul-africano não é uma questão doméstica, então o racismo americano também não é uma questão doméstica”. No mesmo discurso, foi ainda mais direto: “Vivemos há mais de 300 anos naquele covil americano de lobos racistas, sempre com medo de perder nossa integridade física e nossa vida“.

Esta é a pior sociedade racista da Terra“, disse em Nova York, em dezembro de 1964. “Trabalhamos 310 anos neste país sem receber um centavo em troca – eu disse, sem receber um único centavo em troca. Você deixa o homem branco andando por aí falando de como este é um país rico, mas você nunca parou para pensar em como ele ficou rico tão rápido. Ele ficou rico porque você o tornou rico“, denunciou em Cleveland, em abril de 1964. “Este país massacra qualquer coisa que se ponha em seu caminho”, voltou à carga em Nova York. “Quando ele (o homem estadunidense branco) diz que é branco, quer dizer que é o patrão. É isso que ‘branco’ quer dizer nesta língua“, provocou em Detroit, em fevereiro de 1965.

A denúncia do racismo se associava e se entrelaçava ao combate franco e frontal ao capitalismo, um modelo de vida que era (e é) praticamente um sinônimo de Estados Unidos da América. “Só se pode operar um sistema capitalista como um vampiro; um capitalista precisa ter o sangue de alguém para sugar. Mostrem-me um capitalista, e eu mostrarei a vocês um sanguessuga”, proclamou. “Tem que conseguir sangue em algum lugar que não dele mesmo – e é assim que ele consegue.”

Na peregrinação pela África, Malcolm encontrou paralelos abundantes entre o que a sociedade norte-americana branca fazia (ou faz) com seus cidadãos negros e o que os brancos da Europa faziam (ou fazem) com os habitantes das colônias que dominavam no mundo “não branco” e na África em particular. Por ambas as razões, sentia-se um estrangeiro no país em que nasceu. “Não sou democrata, não sou republicano, nem mesmo me considero americano“, afirmou no discurso de Cleveland. “Tudo o que veio da Europa, qualquer coisa de olhos azuis, já é americano. (…) Não é preciso aprovar leis de direitos civis para transformar um polaco em um americano. Não, eu não sou americano. Sou um dos 22 milhões de negros vítimas do americanismo.”

Crescia a descoberta dos paralelos entre relações coloniais e raciais, e ele disparou, no afiado discurso de Cleveland: “Uma comunidade segregada é uma comunidade na qual as pessoas vivem, mas cuja política e economia são controladas por gente de fora. Eles nunca se referem ao setor branco da cidade como uma comunidade branca“. Aos poucos percebia que o que falava sobre a cidade valia para o estado, o país, o continente, os continentes, o mundo.

Em abril de 1964, em Nova York, Malcolm explicava sua oposição ao movimento pelos direitos civis conforme pregado por líderes pacifistas como Martin Luther King: “Não lutamos nem pela integração nem pela segregação. Estamos lutando para que nos reconheçam como seres humanos. Estamos lutando pelo direito de viver como humanos livres nesta sociedade. Na verdade, estamos realmente lutando por direitos que são ainda maiores do que os direitos civis – pelos direitos humanos. Entre os chamados ‘negros’ deste país, em geral os grupos de direitos civis, aqueles que acreditam nos direitos civis, passam a maior parte do tempo tentando provar que são americanos”.

Por essa lógica, Malcolm equiparava republicanos e democratas, estadunidenses do sul (rotulados como racistas declarados) e do norte. “Não existe o Sul – é a América”, afirmou em dezembro de 1964, esquecendo-se de que América Central e América do Sul também eram (são) América. “O erro que você e eu cometemos é deixar os branquelos racistas do Norte jogarem todo o ônus para os branquelos racistas do Sul.” Em janeiro de 1965, falava sobre Nova York, frente a frente com Nova York: “A segregação aqui na cidade de Nova York é pior do que em McComb, no Mississippi; mas aqui no Norte eles são muito sutis, trapaceiros e fingidos; fazem você pensar que conseguiu alguma coisa, quando ainda nem saiu do lugar”. “Racismo cordial”, chamaríamos provavelmente a prática aqui no Brasil.

A distinção entre direitos humanos e civis tinha propósitos objetivos, como Malcolm explicitou: “A luta pelos direitos civis implica o homem negro levar seu caso ao tribunal do homem branco. Mas, quando ele luta no patamar dos direitos humanos, a situação é diferente. Isso abre portas para levar o Tio Sam à corte mundial. O homem negro não precisa ir ao tribunal para ser livre. Tio Sam é que deve ser levado ao tribunal e obrigado a dizer por que o homem negro não é livre em uma sociedade dita livre. Tio Sam deve ser levado às Nações Unidas e acusado de violar a Carta de Direitos Humanos da ONU”.

E completou: “A única maneira de resgatar esses direitos é tirá-los das mãos do Tio Sam. É levá-lo ao tribunal e acusá-lo de genocídio, do assassinato em massa de milhões de negros neste país – assassinato político, assassinato econômico, assassinato social, assassinato mental”. O termo “genocídio” estabelece outra ponte entre a era dos direitos civis dos Estados Unidos e o Brasil de 2021.

Em julho de 1964, no Cairo, Malcolm X conseguiu transmitir essa reivindicação num memorando enviado aos delegados de 17 países à Conferência de Cúpula Africana da Organização da Unidade Africana. Ecos desse discurso chegaram à ONU, por intermédio de líderes africanos, inclusive comparando ataques racistas no Mississippi à ofensiva militar dos Estados Unidos contra africanos do Congo. “Agora as nações africanas estão se manifestando e associando o problema do racismo no Mississippi ao problema do racismo do Congo e também ao problema do racismo no Vietnã do Sul, É tudo racismo“, enfatizou, em janeiro de 1965, uma mancha que se formava na imagem externa dos Estados Unidos, no momento exato em que o país promulgava, depois de muita hesitação, uma Lei dos Direitos Civis.

Era tarde demais para Malcolm X, que por um longo período vinha sendo vigiado de perto pelo FBI, pela CIA e pela polícia nova-iorquina. A casa onde ele vivia com a esposa e seis filhas foi incendiada na madrugada de 4 de fevereiro de 1965, 17 dias antes de Malcolm ser assassinado no Harlem, no Salão Audubon, durante uma palestra, aos 39 anos de idade. Dos assassinatos antípodas de Malcolm X e Martin Luther King (em abril de 1968), brotou o que o mundo conhece até hoje como a política de “direitos civis” à maneira estadunidense. Os direitos humanos não estavam em voga na matriz em 1965, como não estão nas colônias que ainda existem, camufladas, em 2021.

Malcolm X Fala. Organização George Breitman, tradução Marilene Felinto. Ubu Editora, 304 págs., 60 reais.

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