Hiran vira as costas para o espelho no videoclipe de "Safadin Goxtosin" (2024), com participação de RDD, do grupo Àttøøxxá – foto reprodução YouTube
Hiran vira as costas para o espelho no videoclipe de "Safadin Goxtosin" (2024), com participação de RDD, do grupo Àttøøxxá – foto reprodução YouTube

Uma sinceridade atroz percorre todo o quinto álbum do rapper baiano Hiran, batizado com um nome perfurante: Imundo. A faixa-título (que abre os trabalhos) solta os bichos imediatamente, fazendo questão de colocar o bode na sala com grande dose de ironia: “Eu sou imundo/ mesmo que muito limpo eu sou sujo no seu mundo/ mesmo que empresário eu só me sinto um vagabundo/ meu irmão tá me cuspindo e o chão tá se abrindo/ (…) eu tomei dois banho pra poder entrar na loja e não ficar tão nervoso/ todo mundo olhou pra minha cara e achou fodido o perfume gostoso que eu ralei pra comprar/ eu nunca vou me encaixar, mesmo que eu saiba falar/ mesmo que eu venha a ganhar”.

No conteúdo da letra e no título do álbum, Hiran – nascido em Alagoinhas, município de 161 mil habitantes no agreste baiano – mira diretamente a suposta cordialidade racial brasileira, pilotada por agentes sociais que vivem às voltas com eternas e chocantes dificuldades para distinguir termos como negritude e “imundície”. A capa de Imundo é cristalina a esse respeito.

O preto Hiran se pinta de preto na capa de “Imundo”

A carga mais explosiva surge logo a seguir, no rap “Rap Não”: “Tinha pensado em desistir do rap/ nunca tive casa onde eu vivi/ mudei o meu sonho, mudei o meu leque/ cantei outras coisas pra não sucumbir/ os cara me viram e não me chamaram/ não deram importância pro que eu falei/ eu fui pros cabeças e fui pra lugares que eles não pisam e eu nunca sonhei/ é que eu sou viado e eles têm medo do público burro que eles cultuam”. À denúncia contra o preconceito racial, Hiran soma a explicitação do preconceito homofóbico, que ele associa a seus pares: os rappers brasileiros pertencentes ao desgastado e combalido sexo masculino.

Hiran no rap “Rap Não”, dividido com All4n

A letra de “Rap Não” sobrevoa de drone o trajeto de seu autor desde 2018, quando lançou o álbum de estreia Tem Mana no Rap, até os dias de agora. Com transparência, “Rap Não” fala das idas e vindas desde as primeiras manifestações hip-hop nos álbuns Tem Mana no Rap e Galinheiro (2020), esse último bancado pela produtora de Paula Lavigne e abençoado por Caetano Veloso. Os dois primeiros ábuns guardam momentos de potência pop/rap como “Shalala” (2020, com as artistas baianas Melly e Majur) e “Baile de Pretx” (2021, com a cantora fluminense Késia. “Sempre o feio esforçado fingindo estar preparado/ mas se ainda for veado vai ter que ficar de lado/ nunca macho o bastante/ nunca forte o bastante/ nunca branco o bastante/ nunca é interessante”, vocifera Hiran em “Baile de Pretx”, denunciando outra confusão comum na camada racista do Brasil, entre negritude e “feiúra”.

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Em 2023, aconteceu uma conversão emepebista em Jaqueira, álbum centrado em voz e violão lançado pelo selo MangoMusik, com melodias melancólicas distantes do rap e participação vocal de Ivete Sangalo na balada com tons de prece “Voz do Destino“. “Fui convencido pelas pessoas e pelas circunstâncias de que o rap não era para mim”, afirmou Hiran em entrevista recente ao site Tracklist, justificando a alteração da rota em Jaqueira – em 2024, o quarto álbum, Anjo, publicado também pela MangoMusik, já apontava a marcha de retorno para o hip-hop.

Ainda em “Rap Não”, Hiran se coloca entre as duas forças (a juventude do rap e a tradição da MPB), declarando-se mais propenso a uma delas. “Caetano botou fé, mas o rap não/ Ivete botou fé, mas o rap não”, rima Hiran, acrescentando à lista incentivadores os conterrâneos baianos Daniela Mercury, Márcio Victor (o líder da banda de pagodão baiano Psirico), Russo Passapusso (o multi-homem à frente da banda BaianaSytem, músico polivalente que não deixa de ser um rapper) e Vandal (que vem a ser um dos mais proeminentes rappers da Bahia), além de BNegão (notório rapper carioca).

Evidentemente, Hiran tem propriedade para apontar atitudes discriminatórias entre produtores musicais, figuras de bastidor do hip-hop e colegas rappers. Mas ele parece trocar algumas bolas ao separar Passapusso, Vandal e BNegão do ambiente do rap, tomando algumas partes pelo todo do hip-hop. Hiran iniciou sua carreira professando lealdade ao estilo que o forjou e forjou outros rebeldes de cultura musical dissidente por natureza. Em 2018, “Tem Mana no Rap” era tão valente, audaz e irônico quanto os petardos de agora no enfrentamento à homofobia racista, ao racismo homofóbico, ao machismo homofóbico-racista: “Ser vivo, sou preto de lei/ somei, sou gay, sou rei/ (…) também sou do rap, sou do meu jeito/ tenho meus povo, meus corre direito/ seu preconceito eu não aceito/ entro na cena, exijo respeito/ ‘ó, o viadinho chegou’/ ‘o rap não é pra tua laia’/ ‘vai dar o cu para lá’/ ‘não guenta com os homens, se saia’/ eu não sou pauta pra tuas ofensa/ tuas piada burra, tua demência/ o seu freestyle poderia ser mais criativo/ (…)”.

Dizia a conclusão celebratória dessa canção que “tem mana no rap, as portas foram abertas/ Dalaboy mostrou o caminho, e agora a vitória é certa”. “Dalaboy” refere-se ao paulista Rico Dalasam, o primeiro rapper brasileiro assumidamente gay, na luta e no espinheiro desde 2014. Rico retribuiu a mesura em 2020, chamando Hiran para a regravação de seu rap-canção “Deixa“. Ainda em 2018, Hiran participou de “Arruda“, rap do coletivo paulistano Quebrada Queer, outro ato pioneiro do rap brasileiro LGBTQIAPN+, e também dividiu gravação com a rapper trans conterrânea Majur, autora de “Náufrago” e uma parceira constante desde o princípio das estradas de ambos.

Rappers sem identificação pública com identidades sexuais dissidentes também acolheram Hiran ao longo do caminho. Sem contar uma profusão de nomes do rap underground baiano, Hiran recebeu o já citado Vandal em “Furando as Blitz” (2018); o conterrâneo Baco Exu do Blues (além da drag Queen paulistana Gloria Groove, e da banda baiana Àttøøxxá) em “Lágrima” (2019); a transgressora paulista Linn da Quebrada (e Margareth Menezes) em “Na Água de Oxum” (2021); o versátil grupo baiano (de Feira de Santana) Roça Sound no malicioso brega-rap hétero-gay “Não Te Amei” (2022); a santista Tássia Reis no irreverente “Black Loro” (single de 2024, relançado agora em Imundo); o funkeiro-rapper-trapper carioca MC Tchelinho em “Star” (2024). Dito tudo isso, não é fato absoluto e incontestável que o rap tenha dado as costas a Hiran, nem no passado, nem no presente.

De volta aos dias atuais, Imundo parece encontrar Hiran em momento de grande turbulência, que se refletiu e se amplificou nos dias pós-lançamento, como relata o jornalista e pesquisador musical Marcelo Argôlo. O caminho da transparência é farpado, e Hiran enfrentou uma avalanche de ofensas homofóbicas, racistas e antinordestinas nos flancos abertos com Imundo. Em pleno 2026.

A tempestade parece começar por dentro, e todo o novo álbum vem trespassado de emoções turbulentas, com epicentro na morte do pai do artista, tematizada no contundente “Um Pouco de Cada Pedaço” (“eu vi meu pai dentro de um caixão”), no interlúdio declamado “Pai” e no rap “Fim“, uma exposição nua e crua dos conflitos internos do narrador: “Eu vivo com medo de estar errado/ por não seguir os passos do meu pai/ eu vivo tentado a jogar todos os meus princípios no lixo pra ter muito mais/ (…) pra que eu tenha logo uma vida sem dor/ sem dó de mim mesmo/ da minha fodida condição mental”, exorciza Hiran, aparentemente explicando o caminho de ré de volta ao rap. “Foda-se a fama e toda essa merda/ Eu faço isso aqui pra permanecer vivo/ um jovem quebrado e despedaçado buscando num terno um belo motivo/ que é maior que eu/ que é maior que vocês.”

Várias queixas de Hiran em “Um Pouco de Cada Pedaço”

“Um Pouco de Cada Pedaço” é outro inventário aberto e franco sobre os conflitos, hesitações e rancores do narrador: “Eu já não sei mais o que fazer/ se eu ainda quero aparecer na TV o que sai da minha mente não parece pertencer/ eu posso cantar outra parada para vencer/ eu vejo os cara bombando, bombando, expandindo/ eu vejo um ritmo novo agora surgindo/ as minhas ideias tão noutro lugar/ eu posso ter fama se eu me encaixar, mas/ tem de ser de coração”.

O narrador prossegue falando para uma segunda pessoa que parece ser o espelho: “Se for o que tu ama abraça o teu enredo/ se precisa da grana tu mergulha, vai sem medo/ sem vergonha de escolher, não faz segredo/ pode sonhar em ser igual à Anitta/ crescendo, crescendo e representando/ tu pode sonhar em ser igual à Vita/ vencendo sem filtro, hablando, hablando/ eu quero enriquecer e também dar ideia”.

O tom queixoso volta à primeira pessoa, disposta a não deixar mazela sobre mazela: “Vai ver que eu sou um pouco de cada pedaço/ e esse é o dilema a me enlouquecer/ o mercado muda todo dia/ e a minha cabeça perdida nas ousadia/ ficam me dizendo que eu tenho que ir na onda/ que eu vou me foder se eu cair na mesma lombra/ eu sou um quebra-cabeça de expectativas/ já fui pra todo canto em ondas subjetivas/ sonhando, escrevendo muita besteira/ mas tem algo, eu não sei viver dentro de um quadrado (…)”. É forçoso observar que os dilemas da fama, do dinheiro e do poder pertencem menos à comunidade hip-hop que ao entorno de Caetano Veloso, uma usina fagocitadora de uma série de nomes do rap, do samba, do pop, da MPB, da política…

Mas nem tudo é sombrio em Imundo, menos ainda na obra de Hiran como um todo. Em Imundo, há por exemplo “Exu Me Avisou“, em que o tom de lamúria é atenuado pelo mantra afro-religioso e pelo coro feminino formado por Iara Rennó e Thay Piazzi. O lado mais luminoso, divertido e espirituoso do compositor aparece nos raps afirmativos da identidade gay, representados no novo álbum pelo reggae-rap “Já Que Bateu“, de um narrador sequioso por se embrenhar em encrencas romântico-sexuais: “Era meio-dia na praia da Barra/ eu reparei nos olhos toda a malvadeza/ eu não sei o que deu nesse cara/ eu sei que tem feitiço no meio da treta/ eu terminei caindo na armadilha dele e terminei no quarto de hotel ali/ (…) eu falei calma, baby/ que aqui é diferente”.

Os álbuns e singles de Hiran estão repletos de raps de crônica cotidiana sobra a vida de um jovem negro homossexual. Em 2020, em Galinheiro, “Kika (Com Cara de Mau)” (com a impagável pagofunkeira baiana Nininha Problemática) satiriza a masculinidade heterossexual: “Conheci um cabra macho que queria me pegar/ ele diz que vem com instinto animal. mas quando tá no quarto ele vem pedindo…/ diz que vem com instinto animal/ mas quando tá no quarto/ ele quica com cara de mau e ele fica com cara de mau”. No mesmo álbum, “Holograma” faz malícia com as delícias do sexo oral: “Diz que me ama, segura minha mama/ bebe meu leite, me faz holograma/ (…) levo na beleza e na mamadeira/ que adocei com o seu olhar/ tomo tudo terça de manhã/ volto a tossir pra sonhar que me lambe/ tira minha roupa, me deixa elegante/ tara meu corpo se te mata a fome”.

Especialmente inspirado é “Beijou Porque Quis” (2022), auto-irônico quanto aos percalços e acidentes do romantismo gay: “Foi numa noite quente, pretinho me chamou pa dançar/ (…) e nessa brincadeira, nesse vai-não-vai, passando a noite nesse sai-não-sai/ DJ tocando e o grave batendo e pretinho sofrendo com o corpo fervendo/ beijou e pegou na minha mão/ eu me apaixonei e fiquei com tesão/ eu vou levar bronca da minha amiga, mas eu já caí, não importa o que diga/ nem venha me dizer que eu que tô errado/ eu nem fui atrás, eu tava ali parado/ ele chamou pra foto e ainda falou xis/ (…) não sou emocionado, eu sou só raiz/ e ele me beijou porque quis/ já vejo casamento, o príncipe encantado/ e ninguém me defende ou fica do meu lado”.

Um quilo de pepino no single “1 Kg”

Neste próprio 2026, há o single “1 Kg”, dividido com o cantor Jonas Miguel, uma fábula mal dissimulada sobre o tamanho do pênis: “Quando eu vi de perto não podia imaginar/ a foto da DM não dava pra mensurar/ o tamanho da beleza que chegou no meu olhar/ minha mãe não me ensinou/ como eu ia lidar/ era bonito demais/ forte demais/ robusto demais/ gostoso demais/ nunca vi nada igual/ isso não é normal/ não sei se eu dou conta de ir até o final/ acho que eu tô gamado, sabe/ e eu tô apaixonado, bateu/ fui dominado, meu Deus, eu tô ferrado”.

A propósito, os raps gays de Hiran são pródigos em parcerias e duetos com outros artistas masculinos, de dentro ou de fora do rap, dos mais difundidos Romero Ferro, Dornelles e Tom Veloso aos mais underground Don Maths, Galf, Colibri, Dicerqueira, Tyaro, Wendel, Lui, Igor Liberato, Cuper, Octavio Cardozzo, Jô Barros, Wall Cardozo, Ivyo, Rafique Nasser, Íccaro, Alfão… – é todo um novo universo a desbravar, se rappers e não-rappers de quaisquer gêneros e sexualidades estiverem dispostes. Respondendo à pergunta do título deste texto, Hiran e esses e outros rapazes demonstram (à revelia dos preconceitos racistas, machistas e Lespalhados por dentro e por e por fora do meio hip-hop) que, sim, o rap pode ser gay, se assim eles o quiserem.

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