Ao cidadão comum parece ser cada vez mais difícil sonhar acordado, coisa de poeta, que vive com a cabeça nas nuvens. Ou se está preocupado em botar comida na mesa, fechar as contas no fim do mês, o próximo Congresso e a continuidade das guerras ao redor do mundo ou se é alienado.
No que o novo álbum do baterista, compositor e produtor Pupillo, ex-Nação Zumbi, parece ser um respiro: sim, é possível sonhar acordado em meio a este triste estado de coisas. A música do mago, um dos mais importantes músicos brasileiros em atividade, alia o nervosismo urbano (sem abrir mão de ingredientes como forró e pífano, geralmente associados ao universo rural) a elementos oníricos como se quisesse preencher justamente este espaço de respiro, tal qual sonhar, outro exercício também ao qual fomos, pouco a pouco, deixando de prestar atenção.
O que se relaciona também com a drástica mudança na forma de consumir música, hoje menos ritual e mais automática. A maior parte dos consumidores de música o faz hoje enquanto realiza outras tarefas e as mídias digitais não ajudam a localizar o nome de Pupillo (como músico, compositor e/ou produtor) nas fichas técnicas de trabalhos de artistas como Caetano Veloso, Céu (sua esposa), Elza Soares (1930-2022), Fernanda Abreu, Gal Costa (1945-2022), Itamar Assumpção (1949-2003), João Donato (1934-2023), Jorge Mautner, Lenine, Marisa Monte, Max de Castro, Nouvelle Cuisine, Otto, Vanessa da Mata, Virgínia Rosa e Zé Manoel, entre outros.

Lista que Romário Menezes de Oliveira Jr., nome de pia do pernambucano, amplia com os convidados de “Pupillo” (2026), lançado pela gravadora estadunidense Amor in Sound, criada por Samantha Caldato (produção executiva e direção criativa) e Mario Caldato Jr. (com quem Pupillo divide a produção musical do álbum).
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QUERO APOIARAlberto Continentino é o parceiro (e um dos músicos) mais constante(s): juntos, assinam (e o convidado toca nas três) “Tropical exótica”, “Forró no asfalto” e “Pifando” (com Alexandre Rodrigues, que toca os pífanos da faixa). Ao longo do restante das faixas, Pupillo praticamente monta uma banda para cada uma.
Agnes Nunes (vozes) comparece a “Forró no asfalto”; Hervé Salters (General Elektriks) toca rhodes, clavinete e sintetizadores em sua parceria “Bem bom”, que conta ainda com os scratches de Cut Chemist e o baixo de Lucas Martins.
Céu divide os vocais com Loren Oden em “Fealhá”, parceria do casal. O piano de Amaro Freitas, outro fenômeno pernambucano, é ouvido em “Fervendo o chão, com Amaro!”, parceria de ambos. “O sopro de Naná” revela parceria do baterista com o percussionista Naná Vasconcelos (1944-2016), dividida ainda com Gaslamp Killer (scratches) e Mario Caldato Jr. Rodrigo Amarante toca minimoog na homenagem póstuma.
“Navegando os Novos Tempos”, parceria de Pupillo com a portuguesa Carminho (vocais), Adrian Younge (baixo e hammond) e Roberto Schilling (que toca rhodes e sintetizadores em quatro faixas do álbum). O parceiro Pedro Martins pilota guitarra e guitarra três em “Mica Sonic Groove”, acompanhado ainda por Gab Noel (baixo).
Parceria de Pupillo com Jota Moraes (vibrafone) e Rodrigo Amarante (vocais, Mellotron, escaleta e baixo), “Entrée”, uma espécie de tango eletrônico futurista, poderia ser música do General Elektriks. A faixa conta ainda com os sintetizadores de Roberto Schilling, outro músico dos estúdios Amor in Sound que bate o ponto em outras faixas do disco, garantindo sua sonoridade encorpada.
Herdeiro novo-baiano, Davi Moraes (guitarras e viola portuguesa) também aponta para o futuro e bota pra re/quebrar em “Que é isso, Bicho?”, parceria com Pupillo emoldurada ainda pela sanfona de Felipe Costa. O repertório se completa com “De chegada” (Pupillo e Pedro Martins).
Os 12 inspirados temas instrumentais — e autorais, frise-se — que formam “Pupillo” são a síntese possível da maturidade do artista, atestada em 30 anos de uma carreira marcada pela diversidade, inventividade e destemor.
Entre músicos, parceiros e participações especiais, Pupillo cruza ao menos três continentes, gesto que também demonstra a grandeza e a importância de seu fazer musical, não apenas no Brasil. Após dedicar álbuns ao repertório de outros compositores, Pupillo agiganta-se ao se reafirmar como autor dotado de originalidade.
Ouça “Pupillo”:





