Imagem mostra um palco com 25 atores do musical "Morte e Vida Severina", da Companhia Ensaio Aberto, que faz temporada em São Paulo
Com 25 atores no palco, Morte e Vida Severina, da Companhia Ensaio Aberto, faz temporada em São Paulo - Foto: Thiago Gouvêa/ Divulgação Sesc-SP

O clássico em versos de João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina, chega ao Sesc Pinheiros pela Companhia Ensaio Aberto. Esse grupo carioca luta para retomar o teatro épico no Brasil, focando não no indivíduo, mas na complexidade das relações sociais desiguais. Severino, por definição, é o homem-coletivo que representa muitos que enfrentam a fatalidade coletiva, “iguais em tudo na vida”, manifestada na velhice precoce, na violência e na fome.

Um ano após a sua fundação, em 1993, a companhia estreou com O Cemitério dos Vivos, de Lima Barreto. Emendou montagens que só pelo quilate dos autores já revela muito de sua origem progressista: Missa dos Quilombos (musical de Milton Nascimento em parceria com o bispo Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra), que ficou dez anos em cartaz; 10 Dias que Abalaram o Mundo, de John Reed; Olga; de Fernando Moraes; O Banquete, de Mário de Andrade; e A Exceção e a Regra, de Bertolt Brecht.

Morte e Vida Severina foi montada pela primeira vez pela Ensaio Aberto em 2000, mais exatamente no Castelo de São Jorge, em Lisboa. Depois, a peça circulou por outros palcos até ser levada para o Armazém da Utopia, que fica na zona portuária carioca, em 2022. Foi quando conquistou a categoria “Música” do Prêmio Shell de Teatro, além de outras duas indicações. A longeva peça atravessou décadas em que o Brasil foi de um extremo ao outro na geografia da fome, que é, afinal, do que se trata o texto de João Cabral.

A encenação fundamenta a tragédia do retirante, que hoje não se restringe mais aos sertões, mas se espraiou para as periferias das grandes cidades. O texto original mostra a jornada de Severino (Gilberto Miranda), em busca de uma vida que fosse “menos defendida que vivida”. A montagem se alicerça na força da obra, que expõe como a miséria estrutural se repete entre tantos oprimidos.

A técnica do chiaro-oscuro ressalta a força do coletivo – Foto: Thiago Gouvêa/ Divulgação Sesc-SP

O espetáculo da Companhia Ensaio Aberto é apoiado pelas canções originais compostas por Chico Buarque, com arranjos e direção musical de Itamar Assiere. Em cena, 25 atores e 4 músicos preenchem o palco com o ato de resistência. Com iluminação de Cesar de Ramires (vencedora do Prêmio APTR, em 2022), as histórias ganham dimensões mais e menos intensas, ora reproduzindo a aridez do sertão (o predomínio no fundo do palco por um laranja queimado ou um vermelho escuro), ora a solidez do ser coletivo (num dramático chiaro-oscuro). Com cenografia minimalista de J.C. Serroni, o chão é cobertor por uma superfície irregular e tátil, em tons de terra e argila. Já no figurino (Beth Filipecki e Renaldo Machado), prevalecem os tons crus, beges e marrons, ressaltando a ideia do homem-coletivo.

O musical Morte e Vida Severina propõe mais do que um lamento. O ponto de virada da obra de João Cabral é a negação do suicídio pela irrupção da vida, simbolizada pelo nascimento do filho do mestre carpina José. É a teimosia da vida, mesmo nas condições adversas. Com direção de Luiz Fernando Lobo, Morte e Vida Severina é a luta pela sobrevivência que vira um ato contínuo, sem pausas ou intervalos. Como é a guerra que os sem-terra travam no Brasil, com quem a Companhia Ensaio Aberto mantém uma relação estreita. Este laço afetivo incluiu a compra de pás, enxadas e foices novos, que foram trocados por utensílios usados no campo pelos militantes do MST. “As ferramentas que usamos já cortaram cana, já cavaram a terra e já foram erguidas em momentos de luta”, arremata o diretor.

Morte e Vida Severina. Com a Companhia Ensaio Aberto. No Sesc Pinheiros, de quinta-feira a sábado (20 horas); e domingos (18), até 18 de janeiro. Ingressos a 70 reais.

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