Felice Lasco (Pierfrancesco Favino) e Oreste Spasiano (Tommaso Ragno) em cena de "Nostalgia". Frame. Reprodução
Felice Lasco (Pierfrancesco Favino) e Oreste Spasiano (Tommaso Ragno) em cena de "Nostalgia". Frame. Reprodução

Do que sentimos saudades? Temos o direito de sentir saudades? Só podemos nos permitir ter saudades do que é bom? O que leva alguém a ter saudades de alguém ou algo? Qualquer das perguntas que abrem este texto podem ser chave para compreendermos Nostalgia, novo filme de Mario Martone, em que tudo está a serviço de contar bem uma boa história – parece redundante, mas não é. O diretor assina o roteiro, baseado no livro homônimo de Ermanno Rea, com Ippolita Di Majo.

Por trás de uma história aparentemente simples – um filho volta à cidade natal, 40 anos depois, para ver a mãe (Teresa, interpretada por Aurora Quattrocchi) – desdobram-se camadas ao longo de uma trama bem construída, com interpretações firmes, uso inteligente de flashbacks e bela fotografia (de Paolo Carnera), tudo a serviço da narrativa, em uma espécie de fábula sem moral da história.

O crime compensa? É outra boa pergunta que o espectador pode se fazer. Mas talvez isto seja simplificar demais. Ficção não é documentário e vice-versa, embora um e outro sempre tragam em si cargas de outro e um.

As histórias de Felice Lasco (Pierfrancesco Favino), o filho que regressa, e Oreste Spasiano (Tommaso Ragno), o amigo que ficou, se cruzam ainda na adolescência, época em que um crime acabou por separá-los. A partir de Nostalgia é possível perceber temas como transformações (pessoais e sociais), a violência urbana, o domínio das milícias (ou da máfia), a ausência do Estado, o papel das igrejas/religiões (prestem atenção no padre Luigi, interpretado por Francesco Di Leva) e da sociedade civil organizada na tentativa de superação de uma série de problemas na ordem do dia – globalizada: tais problemas existem na Itália, onde o filme se passa, no Brasil, onde também o assistimos, e em qualquer parte do planeta.

Nostalgia é bonito e provocador, mas também funciona para quem vai ao cinema em busca apenas de entretenimento. Não é maniqueísta, embora um de seus temas centrais seja a guerra do bem contra o mal. Ficção não é documentário, mas às vezes ajuda a entender (e talvez aliviar) um pouco a realidade que nos cerca. E como na vida real, nem tudo precisa (sempre) fazer sentido.

"Nostalgia". Cartaz. Reprodução
“Nostalgia”. Cartaz. Reprodução

Serviço: Nostalgia. Drama, Itália, 2023, 117 minutos. Estreia hoje (5) nos cinemas brasileiros.

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Veja o trailer:

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