O quarteto que dirige, roteiriza e atua em "La Parle", em frame do filme. Reprodução
O quarteto que dirige, roteiriza e atua em "La Parle", em frame do filme. Reprodução

Exceto por um ponto azul, “La Parle” é todo rodado em preto e branco. É um filme sobre medos, angústias, amizade, afeto, amor, saudade, finitude. Um turbilhão de sentimentos, como as ondas do mar vistas logo na primeira cena. O título do filme é o nome de uma onda que, segundo a tradição local, revira sentimentos e traz resoluções.

Fruto de uma residência artística de que participou a brasileira Gabriela Boeri, o longa-metragem de ficção surgiu na Les Ateliers du Cinéma, do cineasta francês Claude Lelouch, cuja bagagem carrega uma Palma de Ouro e um Oscar de melhor filme estrangeiro por “Um Homem, Uma Mulher” (1966).

Boeri, a única brasileira na residência de um ano, conheceu Fanny Boldini, Kevin Vanstaen e Simon Boulier em Beaune, na França, país em que a produção franco-brasileira fez sua estreia mundial, no Festival International du Film de Saint-Jean-de-Luz, ano passado.

Filmado quase completamente com iPhones, “La Parle” é uma ficção com ares de documentário, cuja dinâmica de realização – com os quatro diretores assinando também o roteiro e atuando (os personagens têm seus próprios nomes) – carrega também elementos de making of, trazendo para o debate temas como a dependência da tecnologia da sociedade contemporânea e o sentimento de culpa que comumente carregamos quando nos permitimos descansar.

“O iPhone nos deu mobilidade para viver ao invés de atuar. Queríamos explorar esse aparelho que as pessoas usam para gravar constantemente, das coisas mais insignificantes aos grandes eventos. Como estão todos, o tempo todo, com seus celulares, a gente passava despercebido durante as filmagens. Isso contribuiu para o tom documental da narrativa. Assumimos as imperfeições da imagem e também das nossas vidas, buscando transformar o ordinário em extraordinário”, explica Boeri no material de divulgação distribuído aos meios de comunicação.

A linha entre realidade e ficção é tênue e é sutil a crítica à manipulação das narrativas, esta triste marca de nossos tempos. Os quatro diretores-protagonistas que se conheceram durante a citada residência artística, na ficção se encontram para passar juntos uns dias de férias: Fanny lida com a ansiedade por um exame médico e seu resultado; Gabriela, longe da família e da terra natal, questiona seu futuro; Kevin não consegue se desligar do trabalho e é criticado por Simon, que quer apenas que o quarteto se divirta.

“La Parle” foi rodado entre 2018 e 2020, “tempo de seco fascismo” – verso de Paulo Henriques Britto no clássico “Geração Paissandu” – no Brasil. Boeri comenta a experiência: ““La Parle” foi inteiramente filmado num país que valoriza o cinema e que entende a importância da cultura para a construção de qualquer nação. Durante esse período, o Brasil sofreu ataques e cortes de um governo que não só não valoriza a cultura, como tem um projeto que inviabiliza o nascimento de novos talentos”, afirma. A onda virou, ainda bem.

"La Parle". Cartaz. Reprodução
“La Parle”. Cartaz. Reprodução

Serviço: “La Parle” (drama, França/Brasil, 2022, 75 minutos; direção e roteiro: Fanny Boldini, Gabriela Boeri, Kevin Vanstaen e Simon Boulier). Produção: Claraluz Filmes e Les Films Bleus. Coprodução: Kinoteka. Distribuição: Pandora Filmes. Estreia dia 29 nos cinemas.

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