A essa altura, talvez já tenha ouvido algum burburinho em torno da série The Last of Us, em cartaz na HBO. Pelo nome, gamers entenderão do que se trata de imediato: a produção é mesmo uma adaptação do jogo eletrônico vencedor de mais de 200 prêmios. E, pelo menos até o quarto episódio disponível até agora, uma honesta e fiel versão da história de dois sobreviventes que lutam para atravessar um devastado Estados Unidos, tomado por um terrível fungo parasita que sofreu uma mutação, abandonando formigas e agora contaminando a humanidade.
Joel (Pedro Pascal) é o protagonista no jogo e na série. É por meio de seus olhos que a narrativa é conduzida. Se nos videogames, essa é uma lógica inescapável, já que o jogador escolhe um personagem, na produção da HBO abre-se a possibilidade de seguir também a trajetória de Ellie (Bella Ramsey), uma adolescente de 14 anos a quem se imagina que possa ser a cura da infestação. Cabe a Joel levá-la em segurança para a Costa Oeste dos EUA. Bella e Pascal são rostos conhecidos da outra célebre série Game of Thrones, também da HBO.
O jogo é angustiante, e esse clima é transportado para os episódios da série. Cada um deles, carrega uma porção de horror e tensão, violência e ternura. The Last of Us é uma produção sentimental por nos lançar a um mundo que parece estar batendo nas portas de quem acaba de enfrentar uma pandemia como a do coronavírus – a pergunta “e a próxima?” está latente na cabeça de muitos de nós.
A luta pela sobrevivência é o fio condutor dessa história. E é bom lembrar que num cenário onde o mundo é dominado por um regime autoritário, em 2023, a vida está sempre por um fio. Não se apegue aos personagens secundários, porque como nos jogos eletrônicos eles podem não estar o tempo todo na tela. E em The Last of Us as próximas cenas de batalha e tiros para tudo quanto é lado não arrefecem a carga de perda e sentimentos que a produção evoca.
O primeiro episódio é didático para explicar o cenário em que um fungo parasita poderia sofrer uma mutação por causa do aquecimento global. A cena se passa em um talk show dos anos 1960, e depois corta para 2003, vinte anos atrás. Foi lá que ocorrem os primeiros contágio e a barbárie começa a tomar forma. As vítimas se transformam em zumbis hospedeiros do fungo, lembrando cenas de Walking Dead. Mas a ambição narrativa de The Last of Us supera e muito a vida habitada por zumbis.
Ellie, a jovem que Joel precisa levar em segurança, também foi “mordida” por alguém contaminado pelo fungo (Cordyceps, que existe de verdade), mas inexplicavelmente não desenvolve a doença. Em 2023, eles se vêem em uma luta de sobrevivência não só contra o fungo parasita, mas também contra um país em ruínas, sombrio, em que o poder tirano quer varrer do mapa rebeldes classificados como terroristas.
The Last of Us, a série, é tão segura da potência da história que se permite fugir do script do game que a inspirou. O episódio três, por exemplo, praticamente abandona Joel e Ellie, e traz a belíssima história de um outro sobrevivente, Bill (Nick Offerman), que construiu uma fortaleza à prova de zumbis, e começa a viver com um artista chamado Frank (Murray Barlett, de White Lotus). A história de amor não é tão acidental quanto se parece. Imagine o impacto que esse episódio tem sobre o universo de jovens machistas e homofóbicos que passam horas jogando o game na perspectiva de apenas dar tiros e matar quem vier pela frente. Só por isso a série já vale cinco estrelas.

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