Cena da peça
Cena da peça "Henrique IV", de Luigi Pirandello - Foto: João Caldas

Henrique IV, peça de Luigi Pirandello (1867-1936), gira em torno de um jogo entre ficção e realidade, e que recorre à loucura para questionar o conceito de verdade. Na trama, um jovem fantasiado de Henrique IV (interpretado por Chico Carvalho) a caminho do carnaval cai do cavalo, bate a cabeça e acredita ser mesmo o nobre. Para não decepcioná-lo, os familiares decidem manter essa farsa, e não percebem quando, 12 anos depois, o “louco” recupera sua sanidade. É a partir daí que emergem questões filosóficas como até que ponto a arte não representa o real mais do que a própria vida ou será que o ser humano não passa de um marionete do que acredita ser e estar vivendo?

A montagem de Gabriel Villela, que comemora com Henrique IV sua 50ª direção teatral, vai fundo na obra de Pirandello criando uma trama de alta complexidade do que é a sociedade, seja lá no tempo que for. Pode-se até, com boa vontade, procurar o recorte atual, afinal não faltam loucos a estarem no comando das coisas e dos governos. Mas são nas cargas filosófica e de dramaticidade que o texto clássico de Pirandello se potencializa, porque a obra, e a encenação, permitem questionar até que ponto o homem não está aprisionado a uma sociedade delimitadora. A resposta que se sugere é que a realidade é uma ilusão e só se torna possível de suportá-la por meio da dramatização da vida.

É o que fez o protagonista fantasiado de Henrique IV. O personagem de Chico Carvalho opta por abandonar o real e vive a loucura, assumindo-se no papel de um morto com amplos poderes. O protagonista escolhe esse caminho como forma de enfrentar as dores de uma decepção amorosa, ao ver Matilde de Toscana (Rosana Stavis) ter um caso com seu melhor amigo, o barão Belcredi (André Hendges). Ao seu lado, ele conta com o apoio de Oração (Artur Volpi) e Sonho (Breno Manfredini), seus fieis camareiros. Há ainda, no elenco, os papéis de um médico, Genani (Hélio Cícero), Frida (Regina França), filha de Matilde, Carlo di Nolli (Rogerio Romera), e o músico Johatan Harold, que toca piano ao vivo.

O cenógrafo J.C. Serroni, parceiro de Gabriel Villela de longa data, leva ao palco o picadeiro de um circo, já que os personagens contratados para manter a farsa são da ficcional companhia Francisco Eugydio do Calvário. A peça flerta com a comédia e também o musical, uma vez que é recheada com músicas cujas canções (de Supertramp a Bee Gees, por exemplo) dialogam com o texto, embora possam soar desconexas a quem não entende as letras em inglês ou italiano. Para um palco privilegiado como o Sesc, no Teatro Antunes Filho, na unidade Vila Mariana, a montagem de Henrique IV tem tempo ainda de incluir legendas nesses trechos e na parte introdutória da peça como forma de ser menos excludente.

Henrique IV. De Gabriel Villela. No Sesc Vila Mariana, de quinta-feira a sábado, às 21 horas, e domingo às 18, até 5 de junho. Ingressos a 40 reais.

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