A pandemia de coronavírus rendeu para o mineiro Nego Moura, de 43 anos, o primeiro álbum de sua carreira de mais de 20 anos, batizado Camará. “Era a minha dor como brasileiro sem preparo nenhum para enfrentar a pandemia, nem psicologicamente nem financeiramente. Como eu ia falar dessas dores?”, pergunta o músico, que encontrou a resposta na africanidade e na umbanda, e faz questão de proclamar isso em cada uma das faixas de Camará.

“Brasileiro de família simples” residente em Poços de Caldas, Nego Moura (cujo nome de batismo é Allisson Paulo Vieira) sempre tocou música negra, em bandas de reggae, axé ou samba-rock, sob referências como Bob MarleyO Rappa e Planet Hemp. A questão de identidade não estava resolvida, no entanto. “Por parte de mãe tenho índio com português, por parte de pai, escravo com índio. Eu não me reconhecia como negro porque não sou preto, sou moreno claro. Mas quando a polícia parava todo mundo, só eu tomava geral. Quando entrava no supermercado, só eu era seguido”, narra. “Em ‘Pra Sorte do Branco’ falo dessa minha relação com as pessoas me ignorarem, digo que ‘quero um café desprovido de ironia’. Quantas vezes entrei num lugar e as pessoas não me atenderam, acharam que eu não tinha dinheiro porque era preto, malvestido, não sei”, lembra.

Tomando como referência a sonoridade afro da banda BaianaSystem, Nego Moura ainda não tem as questões todas resolvidas. A banda que formou, Os Camarás, é de integrantes brancos que tocam rock enérgico por baixo do som dos tambores africanos, muito conhecidos de um estado que coleciona tradições de matriz africana como folia de reis, congada ou moçambique e tem João Bosco Clara Nunes entre seus representantes musicais mestiços (o que o artista define como afromineiridade). Ele afirma estar preparado para os temas de “apropriação cultural”: “Sou preto brasileiro, e é isso. Me entender como negro foi a melhor coisa para mim, me fez muito bem”.

Consequentemente, a miscigenação musical é total, como, por exemplo, em “Gradecê”, em que o rock incorpora o hip-hop, o samba de roda e a guitarra baiana de outros carnavais, enquanto a letra agradece a Iemanjá. Japa System, percussionista da BaianaSystem, participa da faixa “Reafricanizar”, e abriu seu álbum solo de 2021, Sistema Percussivo Integrado, com uma letra de Allisson, “Gente Que Vai, Povo Que Vem”, com vocais da cantora e compositora baiana Larissa Luz.

Nego Moura radicaliza a descoberta e não mostra as questões da africanidade, do racismo e da sempre adiada reparação histórica nos tambores e nas letras de protesto, herdeiras do reggae. Camará é além de tudo um disco acintosamente candomblecista – ou mais propriamente umbandista, da religião que ele frequenta desde 2017 e que, brasileiríssima, incorpora não apenas os saberes afrodescendentes, mas também os indígenas. Os orixás povoam a explícita “Salve a Macumba”, “Tambores”, “Okê Arô” (para Oxóssi) e “Laroyê” (para Exu e “os capa preta de Aruanda”), entre outras. O artista diz que não foi proposital: “As músicas começaram a sair músicas de macumba. Moro de frente para uma mata, e ‘Okê Arô’ fala: ‘Naquela mata em frente à minha casa/ mora um velho caçador’. De certa forma essa mata me curou. Eu vivia em meio urbano, só vinha aqui para dormir, e quando a pandemia chegou comecei a degustar desse meu pequeno ecossistema. Entrei dentro da mata, abraçava árvore, parecia que estava doido, mas não era. Os orixás representam a atividade das forças da natureza”.

O objetivo não é prioritariamente religioso, segundo ele: “Quisemos falar dos orixás, mas também da intolerância religiosa, do empoderamento negro, do racismo estrutural”. Mas Nego Moura sabe que o terreno é minado, e provoca: “O pilar da umbanda é a caridade, é fazer o bem ao próximo. Você não vê terreiros suntuosos, com dízimos, nunca vai ver pai de santo de Mercedes”.

A morte, que paira soberana pelo ar desde 2020, é assunto de Camará, na faixa “Vela Preta”, mais uma que toca no nervo dos tabus (especialmente os racistas). “‘Vela Preta’ assusta um pouco, fala da morte. Mas Exu é o caminho, é aquilo que vai fazer sua conexão entre o plano material e o pós-material. Não falo escancaradamente, porque acabamos de passar por uma pandemia, mas é a importância de acender uma vela para alguém e o poder da criação”, explica.

Nego Moura nomina, por fim, qual é a sorte do branco citada na faixa de mesmo nome: “A sorte do branco é o preto ser calmo, ainda dar um sorriso no rosto para quem oprimiu ele por centenas de anos. A sorte do branco é que a gente acredita no ser humano, porque senão a gente já tinha partido para uma rebenta há muito tempo”. Camará é seu primeiro rebento.

"Camará" (2022), de Nego Moura e Os Camarás

Camará. De Nego Moura e Os Camarás. Camará Records.

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