As consequências de dois anos de pandemia vão aos poucos aparecendo na produção musical brasileira, e esse é o caso de Canicule Sauvage, sétimo álbum de estúdio do pernambucano Otto. O principal instrumento tocado por ele, além da percussão acalentada desde os tempos manguebeat com o Mundo Livre S/A, se chama GarageBand. Ou seja, é o estúdio virtual da Apple que permite simular os sons de qualquer instrumento, brinquedo solitário para tempos de confinamento.

Para mergulhar não só na música digital, mas também nos sons de velhos sintetizadores, Otto volta a trabalhar com o produtor paulistano Apollo Nove, que o guiou na estreia solo já eletrônica de Samba pra Burro, em 1998, e o acompanhou até o terceiro álbum, incluindo o inspirado Condom Black (2001) e Sem Gravidade (2003). Além de coprodutor ao lado de Otto, Apollo toca piano, guitarra, violão, baixo, gaita e sintetizadores Korg, Arp, Minimoog, Rhodes, OB-X, DX5… Colega de manguebeat na Nação ZumbiPupillo, que produziu os álbuns seguintes Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos (2009), Moon 1111 (2012) e Ottomatopeia (2017), toca bateria em quatro faixas. Otto, por fora, experimenta com o GarageBand em quase todas as composições.

Essa estrutura sonora econômica, às vezes mínima (como em “Candura”), é favorável para que Otto exercite seu já exposto fascínio pelo cantor e compositor francês Serge Gainsbourg, transparente na faixa-título de abertura, mas reconhecível em diversas passagens. Se Gainsbourg dividiu discos inteiros com musas específicas, Brigitte Bardot Jane Birkin, Otto expande a presença vocal feminina com as francesas Kenza Said (sua companheira até o início da pandemia) e Anaïs Sylla (em “Canicule Sauvage”), a brasileira radicada na Inglaterra Nina Miranda (“Anna”), as paulistanas  Ana Cañas (também co-autora de “Menino Vadio”),  Tulipa Ruiz (“Tinta”) e sua atual companheira, Lavínia Alves, em “Você pra Mim É Tudo”, “Decidez”, “Há Tanta Gente Que Se Abre” e “Peraí Seu Moço”. “Fode, fode, fode, fode, fode comigo”, diz “Menino Vadio”, o dueto de Otto e Ana Cañas, em puro estilo gainsbourguiano. As duas exceções também contam com vozes convidadas, mas masculinas, dos conterrâneos Lirinha, declamando em “Candura”, e Junio Barreto, em “Bole Mexe”.

Os sons retrô evocam às vezes filmes como 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968) e Laranja Mecânica (1971), às vezes bandas retrofuturistas dos anos 1990 como Stereolab, e na maior parte do tempo voam para longe das sonoridades pernambucanas. O samba “pra burro” resiste em “Há Tanta Gente Que Se Abre”, e os vocalizações macias se acompanham sempre por letras telegráficas típicas de Otto. “Anna que sai com ela, que vai com ela”, balbuciam Otto e Nina Miranda (ex-Smoke City) em “Anna”, por exemplo. “Ontem passei muito bem/ pelas encostas do morro”, diz “Há Tanta Gente Que Se Abre”. “Onde é que passa a dor?/ é de madrugada/ onde é que tem calor?/ de onde é que vem a dor?/ só da madrugada/ (…) e qual é a minha cor?/ a cor da madrugada”, resumem Otto e Junio Barreto no eletrobatuque quase alegre “Bole Mexe”.

Em “Peraí Seu Moço”, também o single de apresentação, o músico mistura ciranda pernambucana, hip-hop e música eletrônica de pista, com tema praieiro de pescadores, e canta “pescador saiu, saiu pra pescar/ pra pegar um peixe pra se alimentar”) na melodia de “Meu Guri” (1981) de Chico Buarque, uma marca de Elza Soares nos anos derradeiros. “Eu sobrevivi e olhei pro amanhecer/ você partiu, não viu por dentro derreter”, canta. Nem sempre as referências tão díspares se conjugam de modo a fazer uma unidade, e “Peraí Seu Moço” soa como várias músicas em uma.

“Canto pra mudar o mundo, pois em um segundo tudo tá mudado”, sopra Otto, “menino vadio” de 53 anos, em “Peraí Seu Moço”, reconhecendo a passagem rápida dos anos na maturidade. A canícula, nome técnico para certas ondas fortes de calor, vem em francês e mostra que o tempo quente vivido pelo planeta talvez seja selvagem, mas não é do tipo confortante de calor.

"Canicule Sauvage" (2022), de Otto

Canicule Sauvage. De Otto. Condom Black.

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