Ilustração de Paulo Stocker para o "single" de Edvaldo Santana, "Meu Tio"
Depois de 13 anos no Carandiru, pagando pena, o rapaz saiu da cadeia e aquele seu primeiro dia livre foi uma alegria. O valor das coisas simples parecia saltar em cada passo, e ele se maravilhava com o quase nada, tanto que passou tudo isso adiante. Um primo do ex-preso, compositor, guardou a descrição de um dia da vida em liberdade e, muitos anos depois, retornou àquela narrativa.
É fato que poucas canções trataram da vida e do sentimento dos cidadãos que já “puxaram cana”, para usar uma expressão de Bezerra da Silva, maior mestre daquele samba que incorporava o cotidiano do sistema prisional e da sentimentalidade dos convictos. Os Racionais e o rap ressuscitaram essa face da crônica musical, mas em outra levada. Na gringa, Johnny Cash e B.B. King examinaram magistralmente a poética da detenção.
Mas eis que surge um samba-canção bacanérrimo sobre tal universo: “O Meu Tio”, novo single que o cantor e compositor paulistano Edvaldo Santana está lançando em todas as plataformas digitais a partir deste dia 3 de dezembro, baseado naquela história do primo que puxou cana.
O samba de Edvaldo Santana, o terceiro single que ele lançou nessa pandemia, e que junto aos outros dois deve constituir um novo disco em 2022, foi gravado também em lugar que a maioria poderia julgar inóspito para o samba: São José do Rio Preto, onde vive o compositor. “O mais forte aqui é o sertanejo, mas o samba tem espaço na vida das pessoas. Só o samba não pode morrer”, contou Edvaldo. Ele arregimentou outros músicos que se dedicam ao gênero no noroeste do estado de São Paulo (Esdras Nunes no teclado, João Pazzini no baixo, Zé Augusto na bateria e Mauricio Zacharias no maravilhoso trombone).
A música é sobre liberdade, então ela até pode prescindir da história de sua origem, é de apelo universal. Mas o fato é que tem alguns ingredientes que a colocam num patamar diferente das baladas tradicionais, um sabor de suave malandragem e de som produzido em sintonia de camaradagem. Saindo agora, em meio a uma pandemia, parece um elogio das vantagens do desconfinamento, e é, mas trata-se antes do exame do confinamento existencial.
O single foi gravado no estúdio Bonamix em outubro de 2021, com recursos do prêmio Nelson Seixas, programa de incentivo a cultura da Secretaria de Cultura de São José do Rio Preto. A assistência de produção, edição e mixagem é de Fernando Hernandes, a capa é uma criação de Paulo Stocker e a direção geral do projeto é de Marcio Jacovani.

Distrtibuído pela Tratore, “O Meu Tio” estará disponível em todas as plataformas digitais a partir de 3 de dezembro de 2021.

Nascido em São Miguel Paulista em 1955, Edvaldo Santana fundou, na década de 1970, o grupo Matéria Prima. Fez parcerias e discos com Paulo Leminski, Tom Zé, Ademir Assunção, Arnaldo Antunes, Haroldo de Campos, e lançou o primeiro disco, Lobo Solitário, em 1993.

FAROFAFÁ traz para você ouvir com exclusividade essa pedra de toque de Edvaldo Santana:

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