Com entrada gratuita durante todo o sábado, dia 20 de novembro, o Museu Afro Brasil, um dos mais instigantes do mundo em sua proposta de desnudamento etnocêntrico e histórico, com mais de 8 mil obras e 11 mil metros quadrados de área expositiva, vai promover uma jornada extraordinária para celebrar o Dia da Consciência Negra.

Além de permitir que o público visite a exposição de longa duração de seu fabuloso acervo e as cinco exposições temporárias em cartaz, haverá diversas atividades na área externa. Uma dessas atividades é imperdível: a reentré de um grupo de provocação musical que sacudiu os pilares da cena brasileira quando lançou seu primeiro disco, em 1981. Mas esse grupo volta reinventado. Trata-se da Orquestra Performática, sucedânea da vanguardística Banda Performática dos anos 1980.

Liderada pelo artista plástico e audiovisual, escritor e visionário paulistano José Roberto Aguilar, agora com 80 anos, a Orquestra Performática tem 14 músicos e desenvolve “arranjos metacinemáticos” nos quais, mais importante do que as notas musicais em si, o destaque é para o gesto sonoro, o ato, “a linha de fuga do som”. “A nossa orquestra é um acelerador de partículas: não apenas ouvir o som, mas sentir o som”, define Aguilar. “Ouvir com a pele, com o tato, o som como frequência: a existência”.

Sacudir as acomodações é uma especialidade de Aguilar. Em 1956, juntou-se ao menestrel Jorge Mautner para difundir o projeto e o manifesto do Kaos. Foi amigo de José Agrippino de Paula, o guru do livro Panamérica. E participou de Bienais de São Paulo. No final dos anos 1960, mudou para Londres, onde ficou até 1972. Voltou ao Brasil, mas logo partiu de novo, dessa feita para Nova York, onde ficou de 1973 a 1975. Seduzido pela cultura massiva, quadrinhos, TV, grafite, ele acabou sendo um dos primeiros artistas a usar a linguagem do vídeo no Brasil, sendo um dos destaques da exposição de Vídeo Performance e Arte Corporal realizada no Beaubourg, em 1979, em Paris.

No Dia da Consciência Negra, o Museu Afro também terá, a partir das 12 horas, a apresentação do projeto Pequeno Circo do Choro, que realiza ocupações culturais em espaços públicos de São Paulo. Seus oito integrantes farão uma roda de choro em homenagem a Pixinguinha, um dos maiores compositores da música popular brasileira. O grupo circulará em cortejo musical, partindo da área interna do museu e seguindo até a área externa, no embalo do choro, do maxixe, da marcha, do samba e da valsa, entre outras composições do universo de Pixinguinha.

Um pouco antes, às 11 horas, o educador Wasawulua Daniel trará ao público, também na marquise do Museu Afro Brasil, histórias e brincadeiras originárias da República Democrática do Congo, ensinando danças e canções em lingala e outras línguas da região.

Estão ainda em cartaz as exposições Frida Orupabo – em correalização com a 34ª Bienal, Embyra e Design e Tecnologia no Tempo da Escravidão. Outra mostra fundamental é  Terra em Transe, que reúne cerca de 600 obras de 60 fotógrafos de todo o país e aborda questões cruciais da afirmação social, racial, política e de gênero, com curadoria de Diógenes Moura.

 

LEIA TEXTO DE AGUILAR SOBRE SUA NOVA AVENTURA PERFORMÁTICA

“A Orquestra Performática está para dar à luz e seu parto será realizado no pátio do Museu Afro no dia 20 de novembro de 2021 às 15 horas no dia da Consciência Negra. Melhor momento impossível. Dentro de seu corpo generoso, ela foi concebida por vários pais ou mães.

Eu, José Roberto Aguilar, já fui pai ou mãe de 2 bandas performáticas. A primeira, nascida em 1981, foi apenas uma espécie de ícone transgressivo que aconteceu na contracultura daquele momento. Fundada por um pintor performático que não sabia nem cantar ‘Mamãe eu Quero’ mas que escrevia as letras e performava seus sentidos em ações e pintura. Reuniu os estudantes saídos do Colégio Equipe, todos com quase 20 anos, ensaiamos e fizemos o primeiro CD com o entusiasmo de Belchior. Entre eles, estavam na banda Arnaldo Antunes, Paulo Miklos, Lanny Gordin, Edu Rocha, Dekinha e muitos outros. Alguns saíram para os Titãs ou outras bandas e novos entraram como Gigante Brazil, Zé Português, Jean Trad, Eloá Ramos e Aline. A Banda Performática foi atuante até o fim dos anos 90. A segunda Performática aconteceu nos anos 10 do século seguinte chamada de OS DESCONSTRUTORES com a participação de André Jung (do Ira!) e Ricardo Villas Boas e apresentou várias apresentações surpresas.

Mas a ORQUESTRA PERFORMÁTICA É ATONAL. ISTO SIGNIFICA QUE É FUNDAMENTAL OUVIR O SILÊNCIO E OS OUTROS. Nada é dualístisco ou único. Você desconstrói o ritmo para depois construí-lo e desconstruí-lo novamente. Como cair dentro de um turbilhão de ondas e silêncios. As vezes surge uma frase instigante como “Foi descoberta, foi descoberta”. A ETERNIDADE, É O SOL MISTURADO COM O MAR, de uma poesia de Rimbaud, ou ANTROPOFAGIA, A TRANSFORMAÇÃO PERMANENTE DO TABU EM TOTEM, de Oswald de Andrade e outras que se misturam e sugestionam os sons. POR ESTA MESMA RAZÃO que na Orquestra Performática não existem líderes, MAS AQUELES QUE OUVEM.

Neste ano uma pequena semente frutificou inesperadamente com os amigos. O Sergio Villafranca, grande pianista e aluno de Koellreuter, e eu fizemos algumas interpretações de meus poemas e ele me convenceu a comprar um piano eletrônico. Começamos a tocar juntos, um que não sabia de nada chamado de O Selvagem de Bornéu (eu) e outro que sabia tudo chamado de O STRAVINSKY. Neste meio tempo realizei uma exposição chamada DESTINOS, onde estavam expostos 35 quadros de destinos que musicamos, todos eles junto com Rodrigo Gava. No mesmo momento, um outro gênio chamado Gregório Gananian, que tinha feito um filme maravilhoso sobre quem? Sobre quem?. Sobre o Lanny Gordin e que ganhou o Festival de Cinema de Tiradentes. Ele é um grande diretor de cinema, e porque não sê-lo de música? E FOI. Encontrou outro amigo, o CATRACA, também conhecido como Helder Gama, um dos maiores percussionistas do Pará. O Gregório dirigiu musicalmente Catraca e Sergio Villafranca num álbum sobre ENCONTROS DE CULTURAS, sensacional.

O cenário começou a se configurar em torno de uma Orquestra Atonal e Performática. Daí a ideia se expandiu e começou a agregação. Aos cinco iniciais, juntaram-se outros: TONI NOGUEIRA, músico e cineasta e ativista cultural (com o qual tive o privilégio de fazer um vídeo nos tetos de um edifício em Nova York com sua Escola de Samba Pé de Boi em janeiro de 1981, com menos 30 graus de temperatura); XANTILEE JESUS, o baixo divino que toca estrelas; MAURÍCIO CAETANO, o regente dos sons; ANTONIO NOVAES, bandolim mágico do Pará; a voz da paixão de MARIA DA PAIXÃO; a voz da existência de DANIELLY O.M.M.; a voz da poesia de ARIOLA, o trompete do apocalipse de JUDE; a flauta serpente de MARI MEYER.

 

Orquestra Performática. Ensaio geral aberto ao público nesta terça-feira, 16 de novembro, às 19h30, na Livraria da Travessa (Rua dos Pinheiros, 513), com o lançamento do livro O Salvador do Mundo, de Aguilar. Apresentação no dia 20 de novembro, às 15 horas, na área externa do Museu Afro Brasil, no Parque Ibirapuera. Grátis.

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