Neste sábado, 29, às 17 horas, na Casa de Cultura do Parque Villa Lobos (Av. Prof. Fonseca Rodrigues, 1300 – Alto de Pinheiros), o leitor terá a oportunidade de constatar como uma faísca acesa há mais de 50 anos é capaz de provocar um incêndio ainda hoje. O cantor, produtor, compositor e poeta Gustavo Galo, ao lado de Tomás Bastos e Gustavo Cabelo,  apresenta o show O Princípio está Sempre no Fim, que marca os 50 anos da morte do poeta piauiense Torquato Neto, (1944-1972), um aríete tropicalista. Galo vem, desde 2011, fazendo uma apresentação de poemas cantados de Torquato, Let’s Play That – Canções de Torquato Neto.

Em 14 de agosto de 1971, em sua coluna Geleia Geral, no jornal Última Hora, Torquato Neto escreveu um texto que se espraiou como um manifesto pelos anos e décadas que se seguiram. “Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela. Nada no bolso e nas mãos. Sabendo: perigoso, divino, maravilhoso”, dizia o trecho mais conhecido daquele manifesto, que até caiu no ENEM em 2020.

Pois bem: igualmente poeta (e cantor exponencial do mais lindo delírio da pauliceia destrambelhada), Gustavo Galo extraiu do manifesto este ano um trecho menos badalado, mais igualmente bonito, e fez dele, com leves modificações, uma nova canção: O Princípio está sempre no Fim. “Há muitos nomes à disposição de quem queira dar nomes ao fogo, no meio do redemoinho, nos sons do apartamento, no meio de apartamentos. O lado de fora é frio. O lado de fora é fogo, igual ao lado de dentro. O princípio está sempre no fim, do lado de fora”.

Intitulado Cordiais Saudações, a íntegra do texto publicado por Torquato em 1971 no jornal carregava, como quase todos os que ele escrevia, uma função híbrida, fundindo as obrigações pragmáticas do jornalismo com o visionarismo poético – foi publicado no auge da ditadura civil-militar, e anunciava a vinda ao Brasil de Caetano Veloso, então exilado em Londres, para um encontro, gravado e veiculado pela TV Tupi, com João Gilberto e Gal Costa.

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O lançamento desse single, pelo selo Pequeno Imprevisto, que foi mixado e masterizado por Otávio Carvalho no estúdio submarino fantástico, com capa de Maikon Nery, ocorrerá na Casa de Francisca (Rua Quintino Bocaiuva, 22), no dia 9 de novembro (véspera dos 50 anos da morte de Torquato). A noite será uma festa organizada pelo Círculo de Poemas que, na mesma data, lança também O fato e a coisa, único livro que Torquato deixou pronto, uma coletânea de poemas. Esta nova edição traz na íntegra a seleção do livro, além de outros poemas de juventude, com um novo estabelecimento do texto, feito por Fabrício Corsaletti e Thiago E, a partir de pesquisa no Acervo Torquato Neto, no Piauí. Thiago E assina também o posfácio do livro. A orelha é de Reinaldo Moraes. Eis um dos poemas do livro, que parece feito sob medida para essa eleição:

Poema do aviso final

É preciso que haja alguma coisa
alimentando o meu povo:
uma vontade
uma certeza
uma qualquer esperança.

É preciso que alguma coisa atraia
a vida ou a morte:
ou tudo será posto de lado
e na procura da vida
a morte virá na frente
e abrirá caminhos.

É preciso que haja algum respeito,
ao menos um esboço:
ou a dignidade humana se afirmará
a machadadas.

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