O poeta e jornalista Ademir Assunção, prêmio Jabuti com "A Voz do Ventríloquo"

O poema que tira para dançar as autodefinições do seu próprio poeta é um clássico da literatura. Partindo do celebríssimo Poema de Sete Faces de Drummond (“quando nasci, um anjo torto/ desses que vivem na sombra/ disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida), podemos encontrar inúmeros outros de igual ressonância. Vejamos alguns:

O poema 1910 (Intermezzo), do espanhol Federico García Lorca (1929):

Aqueles meus olhos de mil novecentos e dez
viram a parede branca onde mijavam as meninas,
o focinho do touro, a seta venenosa
e uma lua incompreensível que iluminava pelos cantos
os pedaços de limão seco sob o negro duro das garrafas“.

Ou então Vou-Me Embora pra Pasárgada, de Manuel Bandeira (1930):

“Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive”.

Ou Retrato, de Cecília Meireles (1939):

“Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo”.

Ou o Poema Sujo, de Ferreira Gullar (1975):

“Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luís
do Maranhão à mesa do jantar sob uma luz de febre entre irmãos
e pais dentro de um enigma?”

Dessa linhagem, nasceu nesta semana o novo livro do poeta Ademir Assunção, Um Nome Escrito no Vento – Autobiografia Não Autorizada (Grafatório Edições), do qual já poderíamos salvar aqui um poema que se alinharia perfeitamente à linha evolutiva dos clássicos:

“A vida corria bem nos idos de 1982
Aos 21 anos de idade eu já era proprietário
de uma escova de dentes,
um violão sem cordas, dois relógios de bolso,
e uma fazenda de nuvens na fronteira com o Uruguai
– herança deixada pelo meu avô paterno”.

Satírica incursão pelas dobraduras da realidade e da imaginação, com um embaralhamento deliberado das duas, a nova obra de Ademir Assunção vem encontrar o seu biógrafo sem autorização em um momento de mirada interna: o escritor de 17 livros está festejando seu 60º aniversário, data que impele (sem apelação) o cidadão a um balanço – nem que seja o balanço do parquinho.

Assim, acompanhamos o ritmado balanço do poeta pela sua biografia não autorizada desde as memórias de Aracoara (Araraquara, ou lugar onde vive a luz do dia, em Tupi-Guarani), onde o autor efetivamente nasceu, até a grande ironia com o verso de abertura de O Uivo, de Allen Ginsberg, implantado no Brasil de 2016, após o golpe de Estado contra Dilma Rousseff – aqui, o verso “as melhores cabeças da minha geração” termina decepado por um fabricante oportunista de guilhotinas.

Em um poema-livro de apenas 72 páginas e tiragem de 360 exemplares, entre boutades e gags aparentemente desencontradas, o poeta revitaliza a memória de personagens formativos (o jornaleiro da Praça da Matriz), a descoberta do sexo e do rock, os amigos obcecados em seguir as pegadas dos visionários no piche do asfalto (para encontrar apenas ursos pandas ao final da jornada), os filhos e seus sonhos espaciais, e um inestimável apreço pelos dados desprezados pelo ofício da biografia convencional.

“Nunca passei de 1 metro e 75 de altura.
Oscilei entre 1 e 77 e 1 e 73.
Com margem de erro de 2 cm,
Para mais ou para menos.
Porém, no meu assim chamado “mundo interior”
cresceram palmeiras de 13 metros e meio”

A pegada alegórica do livro demonstra o notável apego do escritor à provocação contínua, que se desloca em todos os espaços da pequena edição, da “orelha” fake de William Burroughs ao ensaio rigoroso na abertura do editor, escritor e “ex-poeta” Sebastião Nunes, que vê ecos oswaldianos nas estratégias literárias de Ademir.

O escritor lança Um Nome Escrito no Vento em uma investida múltipla: além desse poema, estão sendo publicados simultaneamente os livros Risca Faca (selo Demônio Negro), e Deus Salve a Rainha e Evite Engarrafamentos – Textos de Jornalismo Cultural (Editora UnB).

Vencedor do prêmio Jabuti com A Voz do Ventríloquo (2012), Ademir tensiona em seus dois novos livros de poesia um arco de notável coesão – Autobiografia Não Autorizada como um trabalho de olhar para dentro com leveza, com carinho por si mesmo, e Risca Faca na direção de apontar a crueldade da apatia social. A obra do autor não se presta à indiferença. “Qualquer um que encare a poesia como um entretenimento, como uma ‘leitura’, comete um crime antropológico, em primeiro lugar, contra si mesmo”, disse Joseph Brodsky, o que parece referendar a trajetória do autor. O poeta Geraldo Carneiro celebra a persistência da dissonância na obra de Ademir, “a sonoridade mais comum da vida”.

Em Deus Salve a Rainha e Evite Engarrafamentos – Textos de Jornalismo Cultural, Assunção reúne reportagens, perfis, resenhas e textos publicados em diversos jornais e revistas (O Estado de S. Paulo, Marie Claire, Jornal da Tarde e Folha de S. Paulo, entre outros), ao longo de mais de três décadas de carreira jornalística, que dão uma contribuição inestimável à atividade do jornalismo cotidiano que se dedica a registrar os fenômenos da cultura.

 
Um Nome Escrito no Vento. De Ademir Assunção. Edição limitada de 360 exemplares, com ilustrações do artista gráfico Zansky. Grafatório Edições, 82 pág., R$ 78.
Risca FacaDe Ademir Assunção. Selo Demônio Negro, 132 pág. e capa dura, R$ 35.
Deus Salve a Rainha e Evite EngarrafamentosDe Ademir Assunção. Editora UnB, 354 pág., R$36.

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