Foto de Mano Brown, líder dos Racionais MC
Mano Brown, líder dos Racionais MC - Foto: Fernando Eduardo/ Wikimedia Commons

Meu pai era batateiro. Minha mãe, costureira. Cresci numa casa na periferia da zona leste de São Paulo, onde não havia livros, mas tinha TV (a primeira colorida de toda a vizinhança) e uma vitrola com um disco de Os Embalos de Sábado à Noite. A cultura entrou pela porta de trás, como costuma acontecer com quem não nasce dentro dela.

Eduardo Nunomura — jornalista, mestre e doutor formado pela USP, repórter de “imprensa profissional” (expressão horrenda que certos veículos adoram usar como se fosse título de nobreza), professor universitário — tinha lá suas dúvidas sobre o que estava prestes a fazer. Era 2011.

Naquele ano, Pedro Alexandre Sanches me convidou para criar um site de jornalismo cultural. Em poucos dias, estávamos no bairro do Cambuci, na sede paulistana do coletivo Fora do Eixo, e eu carregava um misto de receio e descrença. Receio de trabalhar ao lado de alguém que era minha referência em escrita e em música. Descrença porque, naquele tempo, a palavra startup ainda nem existia. As madrugadas ouvindo vinis juntos me demoveram de qualquer tentativa de recuar.

FAROFAFÁ nasceu em 13 de maio de 2011. E o primeiro texto publicado no site começava assim: “Meu nome artístico é William Love, tenho 20 anos. Sou nascido em Abaetetuba, no interior do Pará. Abaeté, em tupi, quer dizer homem forte, valente, prudente. É a terra da cachaça, do miriti, das bicicletas, das motos, do contrabando… Eu e a Keila temos um filho de 1 ano, o Josué. A gente não temos paradeiro nem morada certa, é Barcarena, Abaetetuba, Belém. Meu pai é vigilante, minha mãe é doméstica mesmo.”

O jornalismo cultural de Farofafá precisa do seu apoio! Colabore!

QUERO APOIAR

Nada foi por acaso. Aquele texto era um manifesto disfarçado de reportagem. A voz que inaugurou o FAROFAFÁ vinha do Pará, não do eixo Rio-São Paulo. Vinha da “Galera da Laje”, da Gang do Eletro, de um tecnobrega que estava muito à frente do que qualquer algoritmo de curadoria cultural ousaria recomendar. O site nascia dizendo: existe outro Brasil fazendo coisas extraordinárias, e a imprensa simplesmente não está vendo.

Em 2013, um texto meu viralizou, o primeiro deles. O título escondia a notícia: “Os intelectuais periféricos pedem passagem“. O primeiro parágrafo (lide, no jargão jornalístico) era uma declaração de guerra ao bom senso jornalístico convencional: “Mano Brown é um intelectual. Repetindo: o líder dos Racionais MC’s é um intelectual!”. A base era uma tese de doutorado da Unicamp que reverenciava o rapper pela perspectiva gramsciana do “intelectual orgânico”. O Google apagou as métricas. Mas quem estava lá sabe que foram centenas de milhares de leituras.

Dois anos depois, fomos mais longe. “15 de março de 2015, dia da mentira” foi publicado em parceria com os Jornalistas Livres, coletivo que ajudei a criar porque não me conformava em assistir ao país ser tomado pela direita enquanto a imprensa chamava aquilo de “manifestação espontânea”. O texto nascia da rua, do caderno de repórter, do ofício: fui ao ato, entrevistei 12 pessoas e todas mentiram. Como escrever isso sem as expor individualmente? Encontrei uma forma. Numa palestra com Ricardo Kotscho, na Universidade Metodista, em São Bernardo, meu celular não parava. Eram amigos e até autoridades do país com acesso ao texto. Antecipei ali, digam-me se exagero, um vislumbre do Brasil bolsonarista que estava por vir.

“A selfie de uma família que leva uma babá para o protesto: eis uma mentira de que o Brasil-Colônia que prega menos corrupção e justiça social jamais se libertará” – Foto: Eduardo Nunomura

O jornalismo cultural não deveria se meter em política, diziam. Nós achávamos — achamos — o contrário. Apartar a cultura da política é equivocado e, por que não?, criminoso. A arte dá respostas muito mais rápidas, reflexivas e originais do que qualquer classe política.

No ano de 2016, a dupla virou trio. Jotabê Medeiros chegou no mesmo momento em que recebemos um convite improvável: editar as oito páginas semanais de cultura da revista CartaCapital, impressa e online. Pedro e Jotabê, críticos musicais de primeira linha, iam deitar de braçadas. Eu? Numa conversa na Praça Roosevelt, com pizza a dez reais, decidi: ficaria com as artes cênicas. Frequentador de teatro desde adolescente, tinha agora a responsabilidade de cobrir um universo que me parecia desafiador, e que revelou ser um lugar de afeição inesperada. Assessores de imprensa que se tornaram parceiros de agenda. Lugares privilegiados conseguidos em cima da hora para aquela peça esgotada. Um calor humano que o jornalismo político, com seus leões de chácara e suas fontes blindadas, jamais me ofereceu.

Foram cinco anos produtivos para a CartaCapital e, sejamos honestos, de hibernação para o FAROFAFÁ. A palavra é dura, mas justa. Priorizamos dar a melhor cobertura cultural a uma revista que merecia. Tivemos embates, tivemos espaço, inclusive para escrever “golpe” mais vezes do que o chamado jornalismo profissional ousou. Finda a parceria, voltamos. E eu não quis largar o teatro. Vou fazer crítica até o dia em que os assessores começarem a me ignorar.

Quinze anos não são quinze dias. Temos uma dívida: recuperar, organizar e oferecer aos leitores toda a produção desses tempos sombrios espalhada pelo arquivo digital de uma revista (entre outros trabalhos de nossos integrantes). Faremos isso.

Mas, antes, há algo mais urgente a dizer. Todo veículo independente carrega dentro de si a data de seu próprio fechamento. FAROFAFÁ aprendeu a viver com isso, e escolheu seguir. Não por teimosia cega, mas por convicção de que existe um jornalismo cultural que não se vende aos modismos de ocasião, que não confunde acesso com cumplicidade, que não acha que cobertura cultural começa e termina no lançamento de quinta ou sexta-feira.

Quinze anos provaram o que sempre soubemos: FAROFAFÁ nunca foi só um site de arte e entretenimento. Foi um dispositivo de inteligência política disfarçado de crítica cultural. E pretende continuar sendo.

William Love tinha 20 anos e não tinha paradeiro certo. FAROFAFÁ tem 15 e também não tem, no bom sentido. Estamos onde a cultura acontece, onde as perguntas difíceis são feitas, onde o Brasil real aparece antes de virar pauta.

Se você chegou até aqui e se reconheceu em alguma coisa, considere nos ajudar a fazer FAROFAFÁ voar mais alto nos próximos 15 anos.

Na foto, Jotabê Medeiros, Eduardo Nunomura e Pedro Alexandre Sanches
Jotabê Medeiros, Eduardo Nunomura e Pedro Alexandre Sanches, fundadores do site FAROFAFÁ – Foto: Divulgação
PUBLICIDADE

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome