Cheguei a Nova Olinda, no Ceará, na garupa de um mototáxi, com a mala nas costas, vindo de Santana do Cariri. Pesquisava para um novo livro.
Como não tivesse reserva de hotel nem onde ficar, pedi para que o taxista me deixasse na casa de Espedito Seleiro. Em Nova Olinda, isso equivale a pedir para deixar o cabra na Estátua da Liberdade ou na Torre Eiffel.
Dei sorte. Era de manhã, Espedito tava saindo da cozinha depois de um café, e a rua é justamente a saída de sua cozinha. Fui até ele e o cumprimentei. Ele não me estranhou e começamos a papear. Ele perguntou de onde eu era.
Disse que era de Sumé, e que meu pai era de Serra Branca, cidades da Paraíba.
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QUERO APOIAREu só contei aquilo para forçar algum tipo de conterraneidade, porque eu cresci de verdade foi em Cianorte, no Paraná, como logo confessei. Uma cidade perto de Maringá.
Ele disse, para minha surpresa: “Conheço”.
“Conhece? Como? De onde?”, inquiri.
Aí ele me contou que, quando tinha uns 17, 18 anos, ele foi levado a Paranavaí (vizinha de Cianorte) para trabalhar numa fazenda de café. Como tantos outros nordestinos que migram em busca de esperança.
Mas o fazendeiro de Paranavaí concluiu que ele não prestava para nada. Não sabia abanar café, não sabia peneirar, não sabia firmar mourão.
O fazendeiro foi até ele, depois de alguns meses, com um jeito circunspecto. “Mas menino, você não sabe fazer nada?”.
Espedito murmurou: “Sei, sim senhor. Sei fazer arreio”.
Então, o fazendeiro pediu para ele provar, fazer uma rédea de couro. Espedito fez. Depois, pediu um tapa de arreio. Espedito fez. O homem ficou pasmo. O fazendeiro então quis que Espedito ficasse para fazer couro exclusivamente para ele. Espedito respondeu que não, que seu lugar era no Ceará. Picou a mula. Se tivesse ficado, seria mais uma história de peão.
Eu conto isso a propósito das coisas que exercem um lugar no mundo e das que simplesmente estão no lugar errado.
Ao longo dos últimos anos, nós vimos o artesanato de Espedito Seleiro tomar galerias de Londres, Nova York e Paris. Ser copiado descaradamente nos shoppings e nas feiras. Em 2019, a Escola União da Ilha teve Espedito como motivo de seu desfile carnavalesco.
Entendo o jornalismo mais ou menos como entendo o artesanato de Espedito Seleiro. A arte de Espedito não tinha como florescer à sombra de uma rotina de estufar celeiros com grãos ou de tanger bois ao pasto.
O jornalismo também está em um lugar muitas vezes invisível, e sua ação certamente não é de se medir com régua. Muitas vezes, ele está sendo feito mesmo que não desejem que seja feito, porque ele é sua própria razão de existir.
Ele existe para enxergar as histórias que fundamentam nossa trajetória, trazê-las à luz, acionar o reconhecimento da singularidade humana.
Acontece que o contexto onde se produziu (e ainda se produz) o jornalismo, na história recente do Brasil, esteve sempre condicionado a um cardápio de escolhas da classe dominante. O jornalismo, em toda sua extensão, contou as histórias dos privilegiados da forma que alguém queria que fossem contadas – por condicionantes diversos, que vão do gosto médio das elites a questões morais, de idiossincrasias de grupos de poder, conveniências políticas, até à manutenção dos privilégios de uma certa panela de supremacia intelectual.
Quando morreu o poeta Allen Ginsberg, em 1997, eu estava na redação e me lembrei que o Jornal da Tarde publicava um lindo caderno de literatura. Fui até a editora do caderno, que me conhecia de alguma outra redação, e me ofereci para fazer um texto especial sobre o Ginsberg. Ela achou ótima a ideia, mas disse que as reportagens de capa tinham de ser submetidas a um dos donos do jornal. Passados uns dois dias, ela me chamou e disse que o patrão não queria a matéria. Alegou que Ginsberg era um pederasta, que nem era bom poeta e que não ia gastar mais do que uma nota com a morte dele.
Ao longo de 40 anos nas redações brasileiras, que completo justamente este ano, colecionei algumas histórias como essa do Ginsberg. Muitas gavetas, muitos amigos dos acionistas envolvidos, muitos pederastas vetados, muitos negros negligenciados, como o rapper Sabotage.
Por isso, quando, em 2016, o duo por trás do FAROFAFÁ me procurou, inicialmente interessado em uma história cuja publicação me tinha sido sonegada num antigo jornal, eu fiquei fascinado. Então era possível publicar ignorando as âncoras do interesse de plantão? Acabei ingressando no barco deles, e estamos juntos nessa até hoje, movimentando um manancial de histórias sonegadas. Enquanto assistimos ao naufrágio de quase tudo que era sólido em termos de mídia corporativa, seguimos resistindo com alegria e impulsividade (e igualmente sem dinheiro, buscando sensibilizar para uma campanha de financiamento coletivo). Só não mastigo tijolo porque me estraga os dentes, já diz a canção que dá nome ao nosso site. Há parrudos que fingem que não existimos, há progressistas que nos confundem com os “blogs sujos”, há bacanas que nos evitam, há notáveis que nos amam.
Não há salvo-conduto pra gente nem pra ninguém. Nada garante que estaremos aqui amanhã. Mas estamos aqui hoje após 15 anos de jornalismo cultural, e certamente essa não é uma façanha desprezível.





